Dia-a-dia 16 de maio de 2026

Como as escolas podem ensinar pensamento crítico para combater a desinformação

No Festival LED Globo, especialistas defenderam que a escola precisa ir além do conteúdo e formar cidadãos capazes de questionar, argumentar e conviver com a diferença.

Como as escolas podem ensinar pensamento crítico para combater a desinformação?

Uma pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em parceria com o Instituto Palavra Aberta revelou que 84% dos brasileiros afirmam ter dificuldade para identificar se uma informação encontrada na internet é verdadeira ou falsa. Diante desse cenário, especialistas defendem que a escola precisa assumir um papel central na formação de leitores críticos. Não apenas transmitir conteúdo, mas desenvolver a capacidade de questionar, interpretar e participar da vida em sociedade.

O debate no Festival LED Globo

Em 15 de maio de 2026, no Pier Mauá, no Rio de Janeiro, o Festival LED Globo reuniu três especialistas para discutir o papel da escola diante da proliferação de notícias falsas, da polarização e do avanço da inteligência artificial. A mesa se chamava “A escola como espaço da reconstrução da realidade: como formar leitores críticos nesse mundo de pós-verdades?” e foi mediada por Sandra Sérgio, gerente de Programas e Projetos da Fundação Roberto Marinho.

Participaram do debate Renata Tomaz, professora da FGV Comunicação; Priscila Gonsales, jornalista, educadora e pesquisadora; e Gabriela Lusquiños, promotora de Justiça no Estado do Rio de Janeiro.

Formar interlocutores, não repetidores

Para Renata Tomaz, o principal desafio da educação hoje é formar estudantes capazes de elaborar pensamento próprio. “A gente quer interlocutores, não ‘papagaios'”, afirmou. Na visão dela, a escola precisa criar oportunidades para que os alunos expressem o que pensam em diferentes formatos, desenvolvendo repertório e capacidade de argumentação. Tomaz também conectou esse processo à formação cidadã: quem entende criticamente a informação entende melhor seus direitos e deveres.

O risco da “plataformização” da educação

Priscila Gonsales trouxe um alerta sobre o crescimento dos sistemas digitais nas redes de ensino públicas e privadas. Na avaliação dela, a adoção dessas plataformas tem reduzido a autonomia dos professores e o tempo dedicado à reflexão e ao relacionamento com os alunos. “Os professores estão se tornando executores de plataformas”, disse. O problema não é a tecnologia em si, mas o modelo que substitui escuta e vínculo por protocolos digitais.

Pertencimento como prevenção

Gabriela Lusquiños destacou que a escola é um dos poucos espaços onde crianças e adolescentes convivem com a diversidade e aprendem a lidar com conflitos de forma construtiva. “O conflito na escola é desejado. O que não é desejado é a violência”, afirmou a promotora. Ela também alertou para os riscos do isolamento escolar: jovens que não encontram pertencimento na escola podem buscá-lo em comunidades virtuais marcadas por discursos de ódio. “Se eles não encontrarem esse pertencimento na escola, vão encontrar em outro lugar. E, muitas vezes, em lugares perigosos.”

O cenário tem peso concreto: dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que os ataques a escolas no Brasil cresceram nos últimos anos, ampliando o debate sobre saúde mental, bullying e prevenção à violência entre adolescentes.

Por que isso importa além dos muros da escola

A desinformação não é um problema apenas de adolescentes. Ela circula em grupos de família, em feeds de adultos e em conversas cotidianas. Quando a escola forma um leitor crítico, o efeito se expande para o núcleo familiar e para as redes sociais de todos ao redor. A competência de verificar, questionar e argumentar não tem prazo de validade, e adultos de qualquer idade podem se beneficiar de uma sociedade mais capaz de distinguir o que é verdadeiro do que é fabricado.

Leitores críticos não nascem: são formados, e a escola ainda não sabe bem como fazer isso

Há algo perturbador na estatística apresentada no Festival LED Globo: 84% dos brasileiros dizem ter dificuldade para identificar se uma informação na internet é verdadeira ou falsa. Não é uma minoria desinformada, não é um grupo vulnerável específico. É a maioria. E a maioria inclui pais, avós, professores, chefes, vizinhos, eleitores, consumidores.

O debate realizado no Pier Mauá no dia 15 de maio de 2026 colocou em cena três especialistas com perspectivas distintas e complementares. Renata Tomaz, da FGV Comunicação, falou da escola que ainda forma repetidores quando deveria formar interlocutores. Priscila Gonsales alertou para um movimento que poucos nomeiam com clareza: a plataformização da educação, processo pelo qual professores perdem autonomia e passam a executar protocolos digitais, com menos tempo para escuta, reflexão e vínculo. Gabriela Lusquiños, vinda do campo da promotoria, trouxe o argumento mais urgente: a escola é um dos últimos espaços de convivência com a diferença, e quando ela falha em criar pertencimento, o vazio é preenchido por comunidades virtuais que vendem identidade junto com discurso de ódio.

O que une as três falas é uma mesma ideia: a escola que apenas transmite conteúdo não está preparando ninguém para o mundo que existe fora dela. Esse mundo é ruidoso, fragmentado, algorítmico e cheio de narrativas competindo pela atenção. Nele, a capacidade de argumentar, de escutar e de distinguir o verdadeiro do fabricado é tão importante quanto qualquer disciplina do currículo.

Para quem tem 50 anos ou mais, essa discussão ressoa de um lugar específico. Essa geração viveu a transição do mundo analógico para o digital sem manual de instrução. Aprendeu na prática. Muitas vezes sozinha. E hoje convive com informações que chegam pelo celular a uma velocidade que nenhuma escola preparou ninguém para processar, em nenhuma geração.

O problema, então, não é de idade. É estrutural. A escola não formou leitores críticos nas últimas décadas porque não foi desenhada para isso. Foi desenhada para transmitir. E agora, diante de um ecossistema informacional que confunde até quem tem repertório, a conta chegou.

Renata Tomaz disse algo que merece ser repetido com cuidado: entender o que é ser cidadão significa entender direitos, mas também deveres. A visão crítica não é apenas defensiva, não serve apenas para não ser enganado. Ela é constitutiva. Forma quem a pessoa é no espaço público, como ela participa, como ela discorda, como ela convive.

Isso não é um problema escolar. É um problema de todos. E a escola, ao que indicam as especialistas, ainda está aprendendo a ser parte da solução.


84% dos brasileiros têm dificuldade de identificar se uma informação na internet é verdadeira ou falsa.

Não é dado sobre adolescente.
É dado sobre todos nós.

No Festival LED Globo, especialistas disseram o que a escola ainda não sabe fazer direito:
formar quem pensa, não quem repete.

“A gente quer interlocutores, não papagaios.”

A pergunta que fica:
quem te ensinou a desconfiar do que você lê?


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