Como o evento Aquarius chegou pela primeira vez à periferia de São Paulo?
No domingo, 18 de maio de 2026, o gramado do Parque do Carmo, na Zona Leste de São Paulo, reuniu um público expressivo mesmo com o céu cinza e as temperaturas mais baixas. O motivo era a sexta edição do Aquarius, evento cultural que, pela primeira vez, levou sua programação à periferia paulistana.
No palco, Gloria Groove, MC Tha e a Orquestra Experimental de Repertório, sob a regência do maestro Wagner Polistchuk. As duas cantoras são originárias da própria Zona Leste, o que deu ao evento um caráter particular: o público recebia no seu parque, no seu bairro, artistas que cresceram naquele mesmo território.
O que é o Projeto Aquarius e qual a sua origem?
O Projeto Aquarius foi criado em 1972 pelo jornalista Roberto Marinho (1904-2003), que dirigiu o Grupo Globo por mais de sete décadas, e pelo maestro Isaac Karabtchevsky. A proposta inicial era levar apresentações sinfônicas a espaços públicos e aproximar novos públicos da música erudita.
Ao longo das décadas, o formato foi evoluindo. Os concertos passaram a incorporar artistas populares, criando encontros entre estilos musicais distintos. A edição no Parque do Carmo seguiu essa linha: uma orquestra clássica dividindo o palco com nomes do funk e do pop periférico.
O que aconteceu no Parque do Carmo?
O público começou a se posicionar antes das 13h. Stefanne Meireles, estudante de 19 anos, já estava na grade bem antes do início do show. Em suas palavras: “A Gloria é muito especial para mim. E o mais legal é que eu fiz minha mãe virar fã também, depois dela minha mãe passou a acolher, a abraçar mais as drag queens e as pessoas trans, todas as pessoas.”
Para ela, ver Gloria Groove se apresentar no Parque do Carmo tinha um significado além do show: era a confirmação de que a Zona Leste podia receber e protagonizar um evento dessa natureza.
Por que essa edição se destaca?
O Aquarius tem passagem por diferentes espaços públicos ao longo da sua história, mas esta foi a primeira vez que o evento entrou na periferia de São Paulo. Levar uma orquestra sinfônica ao mesmo parque frequentado por famílias da Zona Leste, combinada com artistas que cresceram naquele bairro, é uma escolha com consequências concretas: quem nunca teria como ou por que ir até um teatro encontra o concerto no caminho de casa.
Para adultos que fazem do Parque do Carmo parte da sua rotina de lazer, a edição trouxe uma programação que misturou o cotidiano com o inesperado. Naquele gramado, o domingo teve orquestra.
O parque era o mesmo. O domingo tinha orquestra.
Há algo de poderoso em um evento que não exige que você se desloque. Que não pede que você compre ingresso, atravesse a cidade ou se vista para uma ocasião especial. O Aquarius foi ao Parque do Carmo, na Zona Leste de São Paulo, e quem estava no gramado naquele domingo de maio encontrou Gloria Groove, MC Tha e uma orquestra sinfônica no mesmo espaço onde costuma caminhar ou sentar ao sol.
Esse é o dado mais simples e mais revelador desta sexta edição do evento: pela primeira vez, o Aquarius foi à periferia. Não trouxe a periferia até ele. Foi até lá.
Criado em 1972 por Roberto Marinho e pelo maestro Isaac Karabtchevsky, o projeto nasceu com uma premissa que soa quase ingênua, mas que resiste bem: levar música sinfônica a espaços públicos e alcançar públicos que normalmente não teriam acesso a esse repertório. Com o tempo, os concertos foram incorporando artistas populares ao lado da orquestra. A equação virou mais complexa e, talvez por isso, mais honesta: não se trata mais de civilizar o gosto popular com a erudição, mas de colocar estilos diferentes na mesma tarde.
Nesta edição, a escolha de Gloria Groove e MC Tha tinha uma camada a mais. As duas são da Zona Leste. O show não trouxe artistas de fora para o bairro. Trouxe artistas de dentro, de volta, com orquestra. Quem cresceu na mesma região e foi embora para o topo voltou ao gramado de origem acompanhada de instrumentos de arco e sopro.
O relato de Stefanne Meireles, a estudante de 19 anos que chegou antes das 13h para ficar na grade, toca num ponto que vai além da admiração por uma artista: ela conta que, por causa de Gloria Groove, sua mãe passou a acolher melhor as pessoas trans e as drag queens. Não é um dado menor. É a descrição de como a cultura popular, quando cruza gerações dentro de uma mesma família, pode alterar modos de olhar o mundo.
Para adultos que moram na Zona Leste e que conhecem o Parque do Carmo como território de caminhada, de domingo em família, de rotina de bairro, aquele gramado recebeu algo que não era esperado. Não como intromissão, mas como reconhecimento. A lógica habitual dos eventos culturais de prestígio tende a exigir deslocamento, custo, planejamento. O Aquarius no Carmo inverteu isso: era gratuito, era perto, era de tarde, era no gramado.
Não precisa ser muito mais do que isso para importar.
O parque era o mesmo de sempre.
Gramado, domingo, céu cinza, temperatura baixa.
Mas desta vez tinha orquestra.
E Gloria Groove.
E MC Tha.
E uma fila formada antes das 13h por quem não queria perder.
O Aquarius foi à Zona Leste pela primeira vez.
Não chamou a periferia para ir até ele.
Foi até lá.
Isto é diferente.
Fonte / referência: matéria original
Publicar comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.