Quando você cabe em todos os lugares, mas não pertence a lugar nenhum

Quando você cabe em todos os lugares, mas não pertence a lugar nenhum

Há uma solidão que não aparece nas fotos. Ela está em quem sorri nos aniversários, participa das reuniões, responde às mensagens no grupo, mas volta para casa com a sensação de que vive sempre ligeiramente de lado. Como aquela cadeira que encaixa em qualquer sala, mas nunca parece realmente fazer parte de nenhuma.

Essa solidão não é a do isolamento evidente, da casa vazia ou da agenda sem compromissos. É a solidão de quem está incluído, mas não pertence. De quem aprendeu a caber em muitos lugares, à custa de deixar pedaços de si do lado de fora da porta.

Quando caber não é o mesmo que pertencer

Existe uma diferença funda entre ter onde sentar e ter onde descansar. Caber é isso: encontrar uma cadeira vaga, um lugar na mesa, um grupo que aceita a sua presença. Pertencer é outra coisa: é o corpo afrouxar, o pensamento descer um tom, a sensação de que ali não é preciso fazer esforço para ser suportado.

Muita gente adulta leva uma vida que, por fora, parece socialmente completa. Família presente, colegas de trabalho, amizades de anos, compromissos na agenda. Mas, por dentro, vive com a impressão de que nenhuma dessas cadeiras foi feita para o seu corpo inteiro. Em cada uma, precisa ajustar um pouco a coluna, encolher um ombro, segurar a respiração.

É possível estar cercado de pessoas e, ainda assim, não ter um único lugar onde se possa existir sem edição. Onde a opinião não precise ser suavizada demais, o riso não precise ser contido, a tristeza não precise ser escondida para não estragar o clima. Onde não seja necessário diminuir o volume de si para continuar cabendo.

O esforço invisível de se manter encaixado

Por trás dessa sensação de não-pertencimento, costuma existir um movimento silencioso: o ajuste constante. A pessoa aprende, com o tempo, a calibrar como fala, o que mostra, o que conta de casa, o que esconde do trabalho, o que evita na família para não criar atrito. Vai montando versões de si compatíveis com cada ambiente.

Não é mentira. É economia de conflito. Mas esse trabalho de moldar-se o tempo todo cobra um preço alto. O corpo vai, a presença está ali, mas há uma parte que nunca se senta. Fica sempre meio em pé, em estado de vigília, pronta para corrigir a frase, mudar de assunto, rir da piada que não achou graça, concordar com o que não acolhe de verdade.

Esse esforço não aparece em relatórios nem em exames. Ele se manifesta no cansaço que chega antes da hora, na vontade de ir embora mesmo quando tudo parece bem, na dificuldade de responder com sinceridade quando alguém pergunta se está tudo certo. Não falta gente. Falta chão onde seja possível pousar inteiro.

Relações cheias, experiência vazia

Essa solidão específica se esconde em relações que, no papel, são corretas. Famílias que se falam, mas não se escutam até o fim da frase. Ambientes de trabalho em que todos se conhecem pelo nome, mas ninguém saberia dizer o que realmente atravessa a vida do outro. Grupos de amigos em que há cumplicidade para o riso, mas pouco espaço para aquilo que não tem graça nenhuma.

Por fora, tudo parece funcionar. Há aniversários comemorados, fotos em grupo, piadas internas, histórias repetidas. Por dentro, a pessoa percebe que, se parasse de ajustar tanto, talvez aquele lugar deixasse de aceitá-la. Então segue calibrando. Vai aparando arestas, escondendo conflitos, guardando perguntas incômodas, deixando a sua estranheza do lado de fora como quem deixa o guarda-chuva na porta.

Com o tempo, essa coreografia vira hábito. Todos seguem se encontrando, mas cada um preserva o que é mais íntimo num quarto trancado por dentro. O resultado é um convívio frequentado por corpos presentes e identidades ausentes. Relações cheias de convivência e pobres em descanso.

Um olhar mais justo para quem não encontra a própria cadeira

É comum ler essa sensação como frescura, ingratidão ou excesso de expectativa. Afinal, a pessoa “tem tudo”: família, trabalho, amigos, uma vida aparentemente normal. Diante disso, admitir que se sente deslocada em quase todos os lugares pode soar exagerado, até para ela mesma.

Um olhar mais justo reconhece que não se trata de falta de maturidade, mas de uma dor real: viver sem um lugar onde se possa largar a guarda. Não é sobre ter o grupo perfeito, a família ideal ou o ambiente de trabalho dos sonhos. É sobre ter, em algum canto da vida, um espaço em que não seja necessário negociar a própria existência a cada frase.

Nem sempre esse lugar será amplo. Às vezes, é uma única pessoa. Às vezes, é um pequeno hábito solitário que não precisa ser explicado. Às vezes, é um grupo que não combina com nenhuma vitrine, mas que oferece esse alívio raro de poder soltar o corpo na cadeira sem pedir desculpas por quem se é.

Nomear essa solidão é, por si, um gesto de dignidade. Admitir, ao menos para dentro, que caber em todos os lugares não resolveu a pergunta de onde se pertence. Que há algo de cansativo em viver sempre em modo de adaptação, mesmo rodeado de rostos conhecidos.

Entre caber e pertencer, existe um mundo. Nele moram a fadiga de quem ajusta demais, a lucidez de quem percebe que está sempre meio de lado e a coragem silenciosa de quem começa, ainda que só em pensamento, a desejar uma cadeira que não peça tanto esforço para ser ocupada.

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