Casos de racismo em Minas Gerais chegaram a 852 processos em 2025: o que os dados revelam
Em cinco anos, Minas Gerais multiplicou por mais de doze vezes o número de processos relacionados a racismo registrados na Justiça. Segundo o Painel de Monitoramento de Justiça Racial do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o estado saiu de 67 casos em 2020 e chegou a 852 novos registros em 2025, o maior número de toda a série histórica monitorada pelo órgão.
O crescimento não foi linear. Após cair de 181 para 129 entre 2021 e 2022, os registros voltaram a subir com força: 279 em 2023, 587 em 2024 e o recorde de 852 em 2025. Só nos primeiros meses de 2026, Minas já acumula 262 novos processos. Atualmente, o estado tem 1.609 processos pendentes relacionados a racismo, com 1.412 em tramitação efetiva no Judiciário.
Episódios recentes que ganharam repercussão
Os números ganham contorno concreto em episódios que chocaram o estado. Um cidadão argentino foi preso após chamar um menino negro de “escravo” durante um passeio de Maria Fumaça em São João del-Rei. Em Mariana, turistas foram flagrados simulando tortura de pessoas escravizadas em um pelourinho histórico. Houve ainda denúncias de humilhações racistas em ambientes de trabalho.
Esses casos não são isolados. Eles compõem o pano de fundo de uma explosão judicial que especialistas e ativistas relacionam ao legado histórico da escravidão ainda presente nas relações cotidianas.
Homicídios de negros caem, processos de racismo sobem
O cenário apresenta uma contradição relevante. Enquanto os registros de racismo no Judiciário aumentam, os homicídios de pessoas negras em Minas Gerais apresentaram queda ao longo da última década. Segundo o Atlas da Violência 2026, o estado passou de 3.412 homicídios de negros em 2014 para 2.069 em 2024, redução de 39,4% no período.
A redução da violência letal convive com o crescimento das denúncias de discriminação racial. Isso pode indicar tanto o avanço da consciência sobre direitos quanto a persistência de práticas racistas no cotidiano, especialmente em espaços de trabalho, lazer e espaços públicos.
O que muda quando os casos chegam à Justiça
O aumento de processos formais é, em parte, consequência de maior disposição das vítimas em denunciar. O aparato jurídico brasileiro classifica o racismo como crime inafiançável e imprescritível, o que coloca o Brasil entre os países com legislação mais rígida sobre o tema. A chegada dos casos ao Judiciário, no entanto, não garante resolução rápida: dos 1.609 processos pendentes em Minas, 1.412 ainda estão em tramitação.
O dado revela que denunciar é apenas o primeiro passo de um caminho que, na prática, ainda exige muita persistência de quem foi vítima.
O que os números do racismo em Minas Gerais dizem sobre o Brasil que ainda não acabou
Há uma forma de ler os dados do Painel do CNJ sobre racismo em Minas Gerais que é tranquilizadora: mais processos podem significar mais denúncias, mais consciência de direitos, mais disposição de não deixar passar. Essa leitura é legítima. Mas ela não resolve a pergunta de fundo: por que, em 2025, alguém ainda chama uma criança de “escravo” em um passeio turístico?
Os números são contundentes. De 67 processos em 2020 para 852 em 2025. Uma explosão que não tem uma só causa e que não se explica apenas pelo crescimento da consciência jurídica. Os episódios que vieram a público em Minas Gerais nos últimos meses mostram que o racismo não está somente em brechas da lei ou em contextos extremos. Ele aparece em pelourinho histórico, em vagão de trem turístico, em reunião de trabalho.
Para adultos que têm mais de 50 anos hoje, esses dados não chegam como novidade abstrata. Chegam como confirmação de algo que muitos observaram ao longo de décadas, viveram na pele ou testemunharam à distância sem ter nome exato para o que viam. A geração que hoje está entre os 50 e os 70 anos acompanhou a criação da Lei Caó, em 1989, a consolidação do estatuto da igualdade racial, os debates sobre cotas e, mesmo assim, viu o cotidiano racial do Brasil mudar muito menos do que as leis prometiam.
O dado do Atlas da Violência 2026 acrescenta outra camada. Os homicídios de pessoas negras em Minas caíram 39,4% em dez anos. A violência letal recua. A violência simbólica, verbal e institucional, medida em processos, avança. Isso não é paradoxo: é a mudança de forma de um problema antigo. Quando matar se torna mais difícil, humilhar ainda circula com relativa impunidade.
O que os números do CNJ revelam, no fundo, é que o Brasil ainda carrega a escravidão como estrutura e não apenas como memória. Não como trauma individual, mas como arquitetura de relações. Os pelourinho que ainda existem nas cidades históricas de Minas não são apenas monumentos: são pontos de encontro entre o passado e o presente, como os turistas que simularam tortura em Mariana acabaram de demonstrar de forma brutal.
Enfrentar esse legado exige mais do que leis. Exige que cada cidadão, em qualquer geração, reconheça o que está diante de si quando presencia ou sofre uma cena de racismo. E exige que o sistema de Justiça converta os 1.412 processos em tramitação em respostas concretas, não apenas em números de um painel.
Em 2020, Minas Gerais tinha 67 processos de racismo na Justiça.
Em 2025: 852.
No mesmo período, um argentino foi preso por chamar uma criança negra de “escravo” em um passeio de trem.
Turistas foram flagrados simulando tortura em um pelourinho histórico.
Os números crescem.
Os episódios continuam.
O Brasil não herdou a escravidão como memória.
Herdou como hábito.
Fonte / referência: matéria original
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