Cultura e Lazer 6 de junho de 2026

A história do cinema no Catar: do deserto ao Festival de Veneza

Exibições ao ar livre nos campos de petróleo dos anos 1930, uma sala para mais de mil pessoas nos anos 1960 e um instituto de cinema fundado em 2010 pela irmã do emir. A história do cinema no Catar é mais rica do que parece.

Quando e como surgiu o cinema no Catar?

A história do cinema no Catar começa antes do que a maioria imagina. Nos anos 1930, empresas petrolíferas que operavam no país promoviam exibições informais de filmes ao ar livre para seus funcionários. Era uma novidade considerável numa sociedade que, naquele momento, era ainda mais conservadora do que a atual.

Ao longo das décadas de 1960 e 1970, o cinema deixou de ser uma curiosidade de acampamento e se tornou entretenimento popular. Foi nesse período que surgiu a primeira sala de exibição do país: a Gulf Cinema, com capacidade para mais de mil pessoas. O público catariano se empolgava com produções egípcias, indianas e filmes de Hollywood.

O Doha Film Institute e a virada do século XXI

A grande transformação do cinema catariano veio no século XXI, impulsionada pela chamada Visão Nacional do Catar 2030, iniciativa voltada à diversificação econômica e à promoção cultural do país. Dentro desse contexto, foi criado em 2010 o Doha Film Institute (DFI), com papel central nesse processo.

A sheikha Al-Mayassa, irmã do emir do Catar, teve papel fundamental na fundação do DFI. O instituto posicionou o Catar como um polo global de cinema, atuando de forma indireta: financiando produções feitas em diversas regiões do mundo e promovendo eventos como workshops e festivais.

O mesmo ano de 2010 marcou outro marco histórico: o lançamento do primeiro longa-metragem catariano.

Theeb: o filme que representa o Catar

Diante de uma produção cinematográfica ainda escassa, o drama Theeb (ذيب, em árabe) foi escolhido como representante do Catar na série Copa do Mundo de Cinema. Dirigido por Naji Abu Nowar, o filme foi exibido pela primeira vez no Festival de Veneza de 2014.

A história se passa durante a Primeira Guerra Mundial. O jovem Theeb, vivido por Jacir Eid Al-Hwietat, vive seus dias no deserto brincando com Hussein, seu irmão mais velho. A rotina muda quando um oficial do exército britânico e seu guia chegam ao grupo beduíno e pedem ajuda para localizar um poço romano em território perigoso. O que começa como uma jornada de auxílio vai se transformando em algo bem mais complexo e ameaçador.

Por que Theeb importa para quem aprecia cinema

Theeb representa um tipo raro de produção: um olhar árabe sobre um episódio histórico marcante, filmado no deserto com atores não profissionais, estreado num dos festivais mais tradicionais do mundo. O filme condensa em sua existência toda a trajetória improvável do cinema catariano: de exibições ao ar livre nos campos de petróleo até Veneza, em menos de um século.

Para quem aprecia cinema internacional e histórias que vêm de culturas pouco representadas nas telas, Theeb é uma descoberta que vale o tempo.

O deserto, a tela e a sheikha: como o Catar construiu um cinema do zero

Há algo de quase improvável na trajetória do cinema catariano. Começa nos anos 1930, não numa sala escura de cidade grande, mas ao ar livre, nos campos onde empresas petrolíferas montavam projetores para seus funcionários. Era, naquele contexto de sociedade bastante conservadora, um gesto simultaneamente utilitário e subversivo: trazer imagens em movimento para um mundo que não tinha ainda uma relação estabelecida com elas.

Das décadas de 1960 e 1970 vem o primeiro salto reconhecível. A Gulf Cinema abre com capacidade para mais de mil pessoas e um programa que mistura produções egípcias, indianas e hollywoodianas. O público catariano, como tantos outros ao redor do mundo, descobre que gosta de cinema. O prazer não precisou de justificativa cultural sofisticada para existir.

A grande inflexão, porém, é institucional e acontece no século XXI. A Visão Nacional do Catar 2030 coloca a diversificação econômica e a promoção cultural como prioridades. Dentro desse movimento, nasce em 2010 o Doha Film Institute, com a sheikha Al-Mayassa, irmã do emir, como figura central em sua fundação. O DFI não produz filmes catarianos em escala, mas financia produções em diversas partes do mundo e organiza festivais e workshops. É uma presença global de contornos indiretos, mas de alcance real.

O mesmo ano de 2010 viu surgir o primeiro longa-metragem catariano. Esse dado, aparentemente protocolar, revela algo mais fundo: trata-se de um cinema que existe há menos de duas décadas como expressão autoral consolidada. Quase toda a história está à frente.

Nesse contexto de escassez produtiva, Theeb, de Naji Abu Nowar, emerge como o filme que carrega o peso da representação. Exibido em Veneza em 2014, o filme leva para a tela um jovem beduíno numa jornada pelo deserto durante a Primeira Guerra Mundial. Há uma crueza geográfica e humana na obra que dialoga com a própria condição do cinema catariano: nascido no deserto, ainda construindo seu território.

Para o espectador adulto que tem repertório acumulado de décadas de cinema, Theeb oferece exatamente o que filmes convencionais raramente entregam: um ponto de vista que não repete o familiar. O cinema árabe, quando chega com força a festivais europeus, tende a trazer consigo um tipo de autenticidade que o circuito comercial raramente sustenta. É cinema para quem já sabe que as melhores histórias costumam vir de lugares que não estão no centro do mapa.


Nos anos 1930
uma empresa de petróleo
instalou um projetor no deserto.

O público era a própria paisagem.

Em 2014
um rapaz beduíno chegou a Veneza.

Entre os dois:
apenas oitenta anos
e um cinema inteiro
ainda por acontecer.


Fonte / referência: matéria original