Como as mulheres da geração 68 estão reinventando a maturidade?
Elas tinham 20 anos em 1968, encurtaram as saias, foram para as ruas e enfrentaram a ditadura. Agora, com 70, 80 anos ou mais, estão nos palcos, nas galerias de arte, nas livrarias e nas telas de cinema. A chamada geração 68 não parou. Ela se reinventou.
A reportagem do Valor Econômico traça um retrato de quatro mulheres que simbolizam esse movimento: a cineasta Lúcia Murat, 77 anos; a jornalista e escritora Míriam Leitão, 73 anos; a artista visual Iole de Freitas, 80 anos; e a atriz Zezé Motta, 81 anos. Cada uma segue em plena atividade, com projetos novos e agendas lotadas.
Quem são essas mulheres e o que estão fazendo agora
Lúcia Murat é apontada como a diretora com o maior número de filmes na América Latina. Prepara o lançamento do seu 15º longa-metragem, O sertão das nossas memórias, previsto para novembro. O filme é um road movie sobre três sobreviventes dos anos de chumbo em busca de testemunhos sobre os últimos dias de vida dos guerrilheiros Zequinha e Carlos Lamarca, mortos pelo Exército em 1971.
Míriam Leitão, jornalista, escritora e membro da Academia Brasileira de Letras, mantém uma rotina frenética entre TV Globo, rádio CBN e jornal O Globo. Neste ano lança A dança de Elisa, pela Editora Intrínseca, sua segunda obra de ficção entre os 18 livros já publicados. Para proteger o tempo da literatura, mantém em casa dois escritórios separados: um para o jornalismo, outro só para os livros.
Iole de Freitas, artista plástica de trajetória internacional de 50 anos, participou recentemente da ArPa, feira de arte em São Paulo, com um painel de 14 metros que reuniu obras suas e de artistas indígenas. Suas instalações monumentais em aço e vidro chegaram a inspirar uma coleção de joias da H.Stern.
Zezé Motta, 81 anos, acumula 35 novelas, 41 filmes e 14 discos. Depois de oito anos fora das novelas, retorna à TV Globo. Um musical sobre sua vida, Prazer, Zezé, percorreu teatros e a fez chorar na plateia ao rever passagens difíceis da própria história.
O que é o etarismo e por que ele importa
O etarismo é o preconceito contra pessoas mais velhas. A demógrafa Ana de Mello Moreira, do Ipea, especialista em envelhecimento, afirma que o etarismo é o único preconceito ainda socialmente aceito. Uma pesquisa recente da ONU, citada na reportagem, indica que uma a cada duas pessoas não confia nos 60+.
Míriam Leitão descreve ataques nas redes sociais que usam marcas do envelhecimento como insulto. Sua resposta é direta: quem sobreviveu a uma arma apontada dentro de um quartel militar não se abala com comentários sobre rugas.
Uma geração que também é um fenômeno demográfico
O Censo de 2022 registrou 17,9 milhões de mulheres com mais de 60 anos no Brasil, número 15 vezes maior do que o 1,3 milhão registrado em 1950. As mulheres representam 66% da população com 80 anos ou mais, já que vivem em média sete anos mais do que os homens.
Ana Moreira chama essa geração de elderly boomers: mais letradas do que as mães, responsáveis por uma revolução no mercado de trabalho e, agora, protagonistas de uma nova forma de envelhecer.
Os 60+ ativos representam apenas 15% dessa faixa etária. Entre os 75+, somente 5,5% ainda trabalham. As restrições do mercado por conta da idade, segundo a reportagem, começam aos 50 anos.
Uma velhice que não pede licença
Essas mulheres não estão apenas resistindo ao tempo. Estão criando, produzindo e ocupando espaço cultural com autoridade. A geração que foi jovem com urgência política agora envelhece com a mesma recusa à submissão. Como diz Míriam Leitão: “A gente sempre teve ordens para não fazer o que a gente fez. Fizemos e deu certo.”
A velhice insubmissa: quando uma geração se recusa a sair de cena
Existe uma certa ironia silenciosa no percurso da geração 68. Elas foram as jovens que desconfiavam de quem tinha mais de 30 anos, que fizeram da juventude quase uma ideologia, que acreditavam que o mundo novo seria construído por quem estava chegando. Pois bem: essas mesmas mulheres chegaram aos 70, 80 anos e descobriram que não querem, de forma alguma, se comportar como se o mundo não fosse mais delas.
Lúcia Murat, Míriam Leitão, Iole de Freitas e Zezé Motta não são casos isolados de longevidade produtiva. São parte de um fenômeno demográfico e cultural que o Brasil ainda processa devagar. Segundo o Censo de 2022, são 17,9 milhões as mulheres com mais de 60 anos no país, um número 15 vezes superior ao registrado em 1950. E entre as que têm 80 anos ou mais, as mulheres representam dois terços da população. O mundo dos 80+, como dizem pesquisadores americanos citados na reportagem, é um mundo de mulheres.
O que a matéria do Valor Econômico revela, porém, vai além da estatística. Revela uma postura. Iole de Freitas, aos 80, cancela uma viagem por imprevisto e no dia seguinte já está reorganizando a curadoria de um painel de 14 metros. Míriam Leitão, aos 73, mantém dois escritórios em casa não por vaidade organizacional, mas porque sabe que a literatura precisa de proteção contra a urgência do jornalismo. Zezé Motta, aos 81, chora na plateia do musical sobre sua própria vida e volta ao trabalho no dia seguinte. Lúcia Murat, aos 77, prepara seu 15º longa.
Essas escolhas não são pequenas. São escolhas feitas por mulheres que, décadas atrás, já praticavam o ato de ir contra o fluxo esperado. Elas foram presas, torturadas, demitidas por razões políticas, desacreditadas, atacadas. Aprenderam cedo que a pressão para parar raramente vem acompanhada de bons motivos.
A demógrafa Ana de Mello Moreira, do Ipea, usa o termo elderly boomers para nomear essa geração: mais letrada do que a anterior, responsável por múltiplas revoluções no mercado de trabalho, no comportamento sexual e nas estruturas familiares. E agora, na velhice, desafiando mais um conjunto de expectativas.
O etarismo, o preconceito contra os mais velhos, é descrito na reportagem como o último preconceito socialmente aceito. Uma pesquisa da ONU indica que metade das pessoas ao redor do mundo não confia em quem tem 60 anos ou mais. Míriam Leitão narra ataques nas redes que usam as marcas do tempo no rosto como forma de agressão, como se envelhecer fosse uma falha moral.
Mas existe um contraponto claro nessa história. A geração que aprendeu a ter musculatura para a luta, como diz Míriam, não processa insulto sobre rugas da mesma forma que processa uma arma apontada dentro de um quartel. A escala de ameaças mudou. A postura, não.
Há algo de produtivo e culturalmente rico nesse choque. O Brasil ainda tende a tratar a maturidade como uma fase de retirada, de concessão, de gentileza com o passado. Essas mulheres respondem produzindo obras novas, ocupando feiras de arte contemporânea, estreando em novelas, lançando ficção, fazendo road movies sobre memória e resistência.
Não é superação no sentido motivacional. É continuidade no sentido mais simples: elas seguem fazendo o que sempre fizeram, porque nunca entenderam que deveriam parar.
Aos 81 anos, Zezé Motta voltou à TV.
Aos 80, Iole de Freitas reorganizou uma curadoria em um dia.
Aos 77, Lúcia Murat filma o 15º longa.
Aos 73, Míriam Leitão tem dois escritórios
para não confundir livro com deadline.
A geração que desconfiava de quem tinha mais de 30
chegou aos 80
e ainda não deu sinal de encerramento.
Fonte / referência: matéria original
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