Cultura e Lazer 15 de junho de 2026

Massive Attack no Primavera Sound: quando um show vira manifesto

Por quase duas horas, o coletivo de Bristol transformou um festival de música numa aula aberta sobre o estado do mundo. Nem todos queriam essa aula.

O que o Massive Attack fez no Primavera Sound que deixou o público dividido?

No terceiro dia do Primavera Sound Porto, o coletivo britânico Massive Attack subiu ao Palco Estrella Damm poucos minutos antes das onze e quinze da noite. Nos quase dois horas que se seguiram, o que aconteceu ali foi simultaneamente um show de música e uma advertência sobre o mundo contemporâneo.

Nos telões que emolduravam o palco, sucediam-se números, estatísticas, vídeos, gráficos e perguntas diretas ao público: quem somos, somos reais, importamos, o algoritmo vai sempre encontrar-nos? A informação chegava em avalanche.

Gaza, Elon Musk e algoritmos num festival de música

Os temas exibidos ao longo da noite incluíam vigilância digital, o Neuralink, a empresa Palantir, reconhecimento facial, exploração mineira no Congo, o poder das grandes tecnológicas, a ascensão dos extremismos e a fragilidade das democracias. E, com insistência ao longo de toda a apresentação, imagens da destruição em Gaza.

Em um dos momentos mais intensos da noite, um integrante da banda pronunciou as palavras “Free Palestine”. A multidão respondeu em coro. Uma bandeira palestiniana foi erguida sobre as cabeças do público.

A prática não é nova para o coletivo de Bristol. Há anos que o Massive Attack utiliza os concertos como plataformas de intervenção política. Mas o contexto internacional tornou a mensagem ainda mais urgente nesta edição de 2026.

A música que não deixou de existir

No meio da avalanche de imagens e dados, a música permaneceu. Temas como “Black Milk”, “Teardrop”, “Angel” e “Unfinished Sympathy” mantiveram uma força que a reportagem descreve como quase hipnótica. O concerto, porém, viveu num equilíbrio permanentemente tenso entre a canção e a mensagem.

Esse equilíbrio nem sempre foi estável. Nos interlúdios visuais mais longos, ouviram-se comentários impacientes dentro da multidão. A avalanche de informação chegou a parecer, por momentos, maior do que as próprias músicas.

O paradoxo de fazer música para pensar num tempo sem pausa

A questão que o show deixou no ar é precisa: o Massive Attack continua a fazer música para quem quer pensar o mundo. O problema é que o mundo ficou mais complexo, mais acelerado e mais inquietante. Pensar exige mais tempo, mais atenção e mais contexto do que a velocidade atual parece permitir.

Quando o concerto terminou, os ecrãs exibiam uma última estatística sobre os gastos militares globais. O número subia em tempo real. Sem parar.

O festival em números

A 13.ª edição do Primavera Sound Porto recebeu, ao longo dos vários dias, quase 130 mil pessoas, segundo dados divulgados pela organização. Mais de 20 mil passes gerais foram vendidos, um recorde para o festival. Metade desse público foi estrangeiro, conforme declarou o diretor do evento, José Barreiro.

O festival seguiu neste domingo com programação voltada para a eletrónica, com Peggy Gou como cabeça de cartaz. A próxima edição está prevista para o período de 10 a 13 de junho de 2027.

A música que insiste em incomodar

Há uma pergunta que o show do Massive Attack no Primavera Sound Porto deixou sobrando no ar, e ela não é sobre política, nem sobre Gaza, nem sobre algoritmos. A pergunta é mais antiga e mais incômoda: para que serve a arte num tempo em que tudo é consumido na velocidade de um deslizar de dedo?

O coletivo de Bristol não respondeu. Preferiu perguntar também. Nos telões, sucediam-se dados sobre gastos militares, vigilância digital, exploração de recursos no Congo, a ascensão dos extremismos, a fragilidade das democracias. E as músicas, “Teardrop”, “Angel”, “Unfinished Sympathy”, seguiam por baixo de tudo isso com uma persistência quase teimosia.

O resultado foi um concerto dividido entre dois públicos que, geograficamente, ocupavam o mesmo espaço. Havia quem tivesse ido para dançar e ficou com a impressão de ter assistido a uma conferência. E havia quem saísse com a sensação de que raramente um palco havia falado tão diretamente sobre o que vê no noticiário todas as manhãs.

Essa divisão não é acidente. É, possivelmente, o produto. O Massive Attack opera há décadas na fronteira entre a canção e o manifesto, entre o prazer do som e o desconforto do pensamento. Em 2026, essa fronteira ficou mais difícil de habitar porque o mundo em que a banda se apoia como material ficou mais saturado, mais rápido, mais barulhento.

Um adulto que acompanhou a trajetória do trip-hop desde os anos 1990 carrega no ouvido uma relação longa com essa sonoridade. Não é nostalgia: é repertório. É a capacidade de comparar o que a banda foi com o que ela escolhe ser agora. E o que ela escolhe ser agora é incômodo deliberado.

Há algo significativo no fato de que, numa noite em que o Primavera Sound oferecia escapismo pop de alta qualidade com JADE e a energia crua dos IDLES na madrugada, foram os Massive Attack que polarizaram. Quem saiu satisfeito saiu com algo diferente de entretenimento. Quem saiu irritado também saiu com algo diferente de entretenimento.

Talvez essa seja, afinal, a definição mais honesta do que os britânicos fazem. Não música para o momento. Música contra o momento. E a pergunta que fica, após o número dos gastos militares subir em tempo real no ecrã de saída, é se ainda há disposição coletiva para sentar com esse incômodo por mais de dois minutos.


A banda tocou.
O mundo apareceu no telão.
Alguns queriam dançar.
Outros já sabiam o que iam ver.

Gaza.
Algoritmos.
Gastos militares subindo
em tempo real.

A música ainda estava lá,
hipnótica,
nembaixo de tudo.

Nem todos ficaram.
Os que ficaram
não saíram iguais.


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