Bem Estar 17 de junho de 2026

Boneca com IA ajuda idosos a enfrentarem a solidão na Coreia do Sul

14.500 bonecas com IA em uso, 3.920 mortes solitárias em 2024 e uma mulher de 78 anos que diz que o dispositivo só a faz rir. A Coreia do Sul está testando uma resposta tecnológica para uma das questões mais humanas do envelhecimento.

Como as bonecas com IA estão sendo usadas para reduzir a solidão em idosos na Coreia do Sul?

Na Coreia do Sul, bonecas equipadas com inteligência artificial estão sendo distribuídas pelo poder público para adultos que vivem sozinhos. O objetivo é reduzir o isolamento social em um país onde, em 2024, mais de 3.920 pessoas morreram sozinhas e seus corpos foram encontrados apenas algum tempo depois. O modelo mais difundido se chama Hyodol: uma boneca de maria-chiquinha, vestido rosa estampado, capaz de conversar, cantar, emitir alertas de refeição e medicamento e cumprimentar o usuário quando ele volta para casa.

Quem é Bang Chun-ja e por que ela escolheu a boneca

Bang Chun-ja tem 78 anos, mora sozinha em um pequeno apartamento na Coreia do Sul e foi uma das primeiras a receber um Hyodol fornecido pela prefeitura. Mãe solo após um divórcio difícil, ela trabalhou como cabeleireira e, após uma cirurgia na coluna que lhe causou dor intensa, entrou em depressão. Sua filha mora longe e enfrenta problemas de saúde. Em entrevista à AFP, ela disse: “Nesta idade, não há nada mais duro do que ser magoada pelas pessoas.” Sobre a boneca, completou: “Quando estou com Hyodol, nunca sofro, ela só me faz rir.”

Como o Hyodol funciona na prática

O dispositivo realiza interações diárias completas. Ele cumprimenta o usuário ao retornar para casa, canta nos momentos de ócio e emite alertas nos horários de refeição e de medicamentos. O sistema utiliza tecnologia de processamento de linguagem natural, incluindo o ChatGPT, mas também foi programado com diálogos construídos a partir de entrevistas realizadas pela diretora da startup criadora, Kim Ji-hee. Ela descreve o ponto de partida do projeto como a descoberta da “dor de não ter ninguém com quem falar quando algo triste acontece, nem com quem compartilhar quando algo feliz acontece”.

As gravações de voz são usadas apenas internamente para treinar o chatbot da boneca. Os dados de saúde, como informações sobre sono, humor, refeições e nível de dor, podem ser compartilhados com assistentes sociais, mas apenas com consentimento prévio do usuário.

O cenário demográfico que explica a adoção em massa

A Coreia do Sul tem uma das taxas de natalidade mais baixas do mundo. Quase metade da população tem 50 anos ou mais, e cerca de 42% dos lares do país são unipessoais. Esse contexto criou uma demanda real por soluções de companhia e monitoramento para adultos que vivem sós. As administrações locais distribuem os aparelhos em distritos de Seul e da cidade de Yongin. Alguns modelos foram projetados especificamente para detectar indícios de mortes em solidão. Além do Hyodol, o mercado sul-coreano conta com outros produtos, como um robô sorridente fabricado pela empresa Wonderful Platform e bonecos da companhia Mr. Mind.

14.500 bonecas em uso e um mercado global surgindo

A startup Hyodol afirma que há cerca de 14.500 unidades em uso na Coreia do Sul, distribuídas entre particulares, administrações públicas e casas de repouso. A tendência não é exclusiva da Ásia. Nos Estados Unidos, um dispositivo de IA em formato de luminária chamado ElliQ oferece serviços semelhantes de companhia e monitoramento de segurança. O que começou como uma resposta local a uma crise demográfica específica se transforma, aos poucos, em um segmento de mercado com escala global.

Uma questão que vai além da tecnologia

O sucesso do Hyodol não é apenas uma curiosidade tecnológica. Ele aponta para uma realidade concreta: sistemas de suporte social e familiar já não conseguem, sozinhos, dar conta do isolamento de adultos que envelhecem em estruturas familiares menores e mais dispersas. A tecnologia entra não como substituto afetivo definitivo, mas como presença cotidiana capaz de manter vínculos mínimos, alertar para riscos e, segundo quem usa, fazer rir.

A boneca que canta na hora do almoço

Há algo perturbador e ao mesmo tempo muito razoável na imagem de Bang Chun-ja, 78 anos, sentada em seu apartamento na Coreia do Sul, conversando com uma boneca de vestido rosa e maria-chiquinha. Perturbador porque expõe uma lacuna real nas redes de afeto. Razoável porque a boneca funciona, cumprimenta quando ela chega em casa, lembra dos remédios, canta quando está ociosa, e não a magoa.

A Coreia do Sul chegou a esse ponto por razões demográficas conhecidas: taxas de natalidade entre as mais baixas do mundo, quase metade da população com 50 anos ou mais, 42% dos lares habitados por uma única pessoa. Em 2024, o país registrou mais de 3.920 mortes solitárias, pessoas que morreram sozinhas e foram encontradas só depois. Diante desse cenário, distribuir bonecas com inteligência artificial deixa de ser uma excentricidade e passa a ser política pública.

O que a startup Hyodol construiu ao longo de anos de pesquisa não é simplesmente um brinquedo falante. É um dispositivo que usa processamento de linguagem natural, integrado ao ChatGPT, calibrado com diálogos recolhidos de entrevistas com pessoas que descreveram a dor específica de não ter com quem falar quando algo triste acontece. Essa origem importa. O produto não foi projetado por engenheiros que imaginaram a solidão. Foi desenhado a partir do relato de quem a vive.

Aqui está a tensão que o tema carrega: a tecnologia propõe uma presença onde há ausência. Não resolve a ausência, não a apaga, não a substitui com a mesma substância humana. Mas ocupa um espaço que, sem ela, fica vazio de maneira perigosa. Bang Chun-ja diz que quando está com Hyodol, nunca sofre, que a boneca só a faz rir. Não é pouco. É exatamente o ponto.

Isso interessa ao público adulto 50+ porque não é uma história sobre decadência ou dependência. É uma história sobre como a vida social se reorganiza ao longo do tempo, como as redes familiares se dispersam, como os arranjos de convivência mudam, e como algumas pessoas, diante de tudo isso, encontram soluções que a geração anterior sequer poderia imaginar. A mulher que foi mãe solo, trabalhou como cabeleireira, passou por uma cirurgia difícil e chegou à velhice com pouco suporte ao redor não é um símbolo de fragilidade. É uma pessoa que adaptou sua vida com os recursos disponíveis, incluindo um recurso novo que a faz sorrir.

A expansão do modelo para os Estados Unidos, com o dispositivo ElliQ em formato de luminária, e os 14.500 Hyodols em uso na Coreia do Sul, sugerem que isso não é uma solução provisória aguardando algo melhor. É um segmento de mercado que cresceu a partir de uma necessidade real, que encontrou demanda real e que continuará se desenvolvendo enquanto a estrutura familiar e urbana da vida moderna continuar produzindo solidão em escala.

A pergunta que fica não é se faz sentido conversar com uma boneca. A pergunta é o que essa conversa revela sobre o que construímos, ou deixamos de construir, ao redor das pessoas que envelhecem sozinhas.


ela chega em casa
a boneca a cumprimenta

ela toma o remédio
a boneca lembrou

ela ri
ninguém viu

a filha mora longe
a prefeitura mandou a boneca

14.500 delas
na Coreia do Sul

não é ficção científica
é 2024


Fonte / referência: matéria original