Como um ex-faxineiro do TJGO conseguiu se formar em Direito aos 50 anos?
Francisco Arnaldo Patrício começou a faculdade de Direito em 2008 e colou grau no dia 1º de setembro de 2026, em Goiânia, quase dezoito anos depois. Ele tinha 50 anos. Trabalhava como faxineiro terceirizado no Tribunal de Justiça de Goiás quando decidiu que queria aquele diploma.
A história saiu pela cobertura do portal Mais Goiás e foi republicada pelo amoDireito.com.br. Mas o que ela conta vai além de uma conquista individual: é um retrato de como a formação profissional pode ser construída em camadas, com interrupções, recomeços e soluções improvisadas.
O que despertou o interesse pelo Direito
Francisco trabalhava nos corredores do TJGO quando observava as cerimônias de formatura. Via as becas, os diplomas, a comemoração. Decidiu que também queria viver aquilo. O desejo não veio de fora, veio de dentro do próprio ambiente de trabalho.
Natural de Iguatu, no interior do Ceará, ele havia deixado a escola na quarta série para trabalhar. Migrou para São Paulo e depois para Goiás em 1998. Atuou como servente de pedreiro e em serviços gerais até conseguir, em 2006, a vaga como faxineiro terceirizado no TJGO.
Rifas para pagar a faculdade
A graduação foi marcada por dificuldades financeiras. Francisco precisou interromper o curso algumas vezes. Para manter o pagamento das mensalidades, começou a vender rifas de conjuntos de copos, taças e talheres entre os colegas da faculdade. A estratégia funcionou como ponte nos períodos de maior aperto.
Enquanto estudava, também construiu uma trajetória profissional paralela. Passou de faxineiro a porteiro, foi aprovado em 2011 em concurso para a Comurg, retornou ao TJGO em 2014 como servidor à disposição e hoje ocupa o cargo de assistente judiciário na mesma instituição onde começou varrendo o chão.
O retorno em 2025 e a formatura
Mesmo com as interrupções, Francisco não abandonou o objetivo. Incentivado por amigos e familiares, retomou os estudos em 2025 e foi até a formatura. A colação de grau aconteceu no auditório da Assembleia Legislativa de Goiás. Ele concluiu o curso na Unifasam.
“Eu mesmo me coloquei, com força e coragem para conquistar meu diploma”, disse ao Mais Goiás.
Próximos passos
Agora Francisco pretende se preparar para o exame da OAB e prestar concursos públicos, com interesse especial no TJGO, a instituição que, de certa forma, o inspirou a começar.
A trajetória dele encerra um ciclo que começou na infância e atravessou migrações, empregos, interrupções e recomeços. E começou a ser escrita durante os intervalos de uma jornada de faxina.
O diploma que começou a ser escrito nos intervalos do trabalho
Há uma certa ironia silenciosa na história de Francisco Arnaldo Patrício. Ele limpava os corredores do Tribunal de Justiça de Goiás e via, pelos vidros ou pelos vãos das portas, pessoas celebrando formaturas. Não como espectador resignado, mas como alguém que reconhecia ali algo que também queria para si. Esse é o ponto de partida de uma jornada que durou quase dezoito anos e terminou com ele mesmo vestindo a beca.
A história tem todos os elementos que a tornam reconhecível para qualquer adulto que já tentou conciliar trabalho, vida e estudo. A faculdade interrompida por falta de dinheiro. O retorno adiado. As soluções inventadas no improviso, como as rifas de copos, taças e talheres que vendeu entre os colegas para pagar as mensalidades. A decisão de retomar os estudos em 2025, já na casa dos 49 anos, incentivado por pessoas próximas.
O que a trajetória de Francisco evidencia não é excepcional no sentido de ser impossível. É excepcional porque exigiu uma consistência rara diante de obstáculos concretos: origem humilde em Iguatu, no interior do Ceará, saída da escola na quarta série, migração para São Paulo e depois para Goiás, anos de trabalho braçal antes de conseguir a vaga no TJGO. Cada um desses capítulos poderia ter encerrado a história antes de ela começar.
Mas ela não se encerrou. E isso diz algo sobre como adultos que chegam à formação mais tarde constroem sua relação com o conhecimento de forma diferente de quem entra numa faculdade direto do ensino médio. Para Francisco, o Direito não era uma etapa automática de um trajeto previsível. Era uma escolha feita com consciência do que ela custava.
A colação de grau no auditório da Assembleia Legislativa de Goiás, no dia 1º de setembro de 2026, encerrou um ciclo. Mas abriu outro: Francisco agora mira o exame da OAB e os concursos públicos, especialmente no TJGO. A instituição que o viu chegar com uniforme de faxineiro pode, num próximo capítulo, recebê-lo de outro modo.
Histórias como essa importam não apenas como inspiração individual. Elas apontam para algo mais estrutural: adultos que trabalham em condições difíceis têm desejo de formação, têm capacidade de aprendizagem e têm objetivos profissionais claros. O que nem sempre têm é tempo, dinheiro ou rede de apoio suficientes. Francisco encontrou um jeito próprio de resolver isso, mesmo que levasse quase duas décadas. A pergunta que fica é o que teria acontecido se os obstáculos fossem menores.
Começou a faculdade em 2008.
Varria o chão do tribunal.
Estudava no intervalo.
Vendeu rifas para pagar as mensalidades.
Interrompeu.
Retomou.
Interrompeu.
Retomou.
Aos 50 anos, colou grau em Direito.
No mesmo tribunal
onde começou com vassoura na mão.
Fonte / referência: matéria original
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