O que os ambientalistas disseram no Encontro Futuro Vivo sobre a Amazônia?
No dia 1º de julho, São Paulo recebeu o Encontro Futuro Vivo, um evento que reuniu especialistas, lideranças indígenas, acadêmicos, executivos e artistas para discutir o futuro do planeta. A ocasião chegou dias antes do Dia da Amazônia, celebrado no sábado 5, criado para conscientizar a sociedade sobre a preservação do maior bioma tropical do mundo, que ocupa quase 50% do território brasileiro.
O evento trouxe perspectivas que vão além do debate clássico entre desmatamento e proteção. As falas cruzaram questões sociais, políticas públicas, literatura, finitude e a forma como diferentes povos enxergam a floresta.
A voz indígena no centro do debate
A bióloga e líder indígena Raquel Tupinambá foi uma das vozes centrais do encontro. Ela trouxe uma crítica direta ao modo como o sistema econômico enxerga os povos que vivem na floresta.
“Nós somos vistos como pobres. Todos os indígenas de territórios são enquadrados no Bolsa Família como pobreza extrema. Essa é a lógica que opera no sistema capitalista. As pessoas do território também são vistas como mão de obra barata”, declarou.
Para Raquel, proteger a Amazônia significa reconhecer os povos que habitam o território e seus modos próprios de compreender a natureza. Em sua visão, o meio ambiente não pertence apenas aos humanos, mas também a seres de outras dimensões, segundo a cosmologia dos povos originários.
Bioregião como modelo de organização
Gaya Herrington, professora adjunta da Universidade de Harvard, defendeu as biorregões como forma de organizar as populações humanas dentro da floresta. O argumento parte de uma premissa sobre bem-estar comunitário.
“Uma vez que nossas necessidades básicas estão assistidas, há mais altruísmo e vontade de trabalhar em comunidade. Por isso, a divisão de biorregões faz com que as organizações humanas se construam em comunidades saudáveis”, afirmou.
Herrington também destacou o papel das políticas públicas na vida das comunidades que habitam a Floresta Amazônica, reforçando que preservação ambiental e condições de vida digna são inseparáveis.
O compromisso corporativo e a responsabilidade individual
Christian Gebara, CEO da Vivo, abriu o evento apresentando a Floresta Futuro Vivo, um compromisso de 30 anos da empresa para restaurar e proteger 800 hectares de áreas degradadas na Amazônia.
“Não nos eximimos da responsabilidade. Cada um de nós é parte desse ecossistema e pode fazer a diferença para regenerar nosso planeta”, disse.
Finitude, mãe e floresta
A atriz Denise Fraga trouxe ao evento uma apresentação artística sobre a finitude da vida e sua relação com o tempo que temos no meio ambiente. Ela compartilhou uma experiência pessoal com a perda da mãe.
“Todos os dias eu acordava pensando que poderia ser o último dia. Ver a minha mãe cansada, dizendo que já tinha vivido e feito tudo que quis, me mudou”, refletiu.
A literatura como floresta interior
A escritora Conceição Evaristo encerrou com uma fala sobre o poder transformador das palavras. Para ela, o acesso à biblioteca pública foi o que impediu que a pobreza material determinasse seu destino.
“O contato com a biblioteca pública foi o que fez com que a pobreza material não fizesse com que eu sucumbisse. Minha casa era cheia de carências, mas cheia de palavras”, compartilhou.
Por que o Dia da Amazônia importa além da floresta
O Encontro Futuro Vivo mostrou que a discussão sobre a Amazônia não cabe mais apenas na agenda ambiental. Ela atravessa educação, cultura, povos originários, justiça econômica e o modo como cada pessoa compreende seu lugar no mundo natural. A floresta que se quer preservar é também aquela que abriga formas de vida, de conhecimento e de pertencimento que o debate técnico, muitas vezes, deixa de fora.
A floresta que mora dentro de quem a defende
Existe uma tensão que o debate ambiental raramente admite em voz alta: falar sobre a Amazônia é fácil quando se fala de longe. Do palco, do podcast, do artigo, da conferência em São Paulo. A dificuldade começa quando a fala pertence a quem vive dentro da floresta e é classificado, por isso, como pobre.
Foi isso que Raquel Tupinambá disse no Encontro Futuro Vivo, realizado em São Paulo no início de julho. Ela não falou de Amazônia como paisagem ou como ativo ambiental. Falou de gente. De indígenas enquadrados no Bolsa Família como pobreza extrema. De territórios vistos como reservatório de mão de obra barata. Essa fala tem peso específico porque vem de dentro, e porque nomeia uma contradição que o ambientalismo de palco frequentemente evita: a floresta é habitada, e seus habitantes têm nome, história e direitos que não se resumem à função de guardiões do carbono.
Gaya Herrington, de Harvard, propôs as biorregões como modelo de organização humana, partindo de uma premissa simples: quando as necessidades básicas estão garantidas, as pessoas tendem a cooperar mais. É uma afirmação que soa óbvia, mas que tem implicações profundas para qualquer política de preservação. Não há floresta protegida onde as pessoas que a habitam estão em condições de vulnerabilidade.
O encontro, porém, não ficou nos especialistas. Denise Fraga falou sobre a finitude da vida a partir de uma experiência pessoal, a morte da mãe, e conectou isso ao tempo que temos diante do mundo natural. Não é uma conexão abstrata. Quem já perdeu alguém sabe que a sensação de urgência que isso produz reorganiza as prioridades de um jeito que nenhuma palestra consegue.
Conceição Evaristo trouxe outra dimensão: a da palavra como floresta interior. Sua fala sobre a biblioteca pública como salvação contra a pobreza material não é metáfora, é relato. E esse relato conecta, de forma inesperada, a preservação da floresta exterior com a construção de mundos internos. Ambas dependem de acesso. Ambas dependem de que alguém decida que vale a pena preservar.
O adulto maduro que acompanha esse debate traz consigo algo que a geração mais jovem ainda está construindo: o repertório de ter visto a floresta antes de virar pauta, de ter lido Evaristo antes dos prêmios, de ter ouvido a voz indígena antes de ela ser convocada para eventos. Esse repertório não é nostalgia. É perspectiva. E perspectiva, no debate ambiental, é exatamente o que faz a diferença entre quem ouve uma palestra e quem a compreende.
A floresta tem dono.
Mais de um.
E nenhum deles mora em São Paulo.
A líder indígena disse:
nós somos vistos como pobres.
A professora disse:
quem tem o básico cuida do coletivo.
A atriz disse:
perdi minha mãe e entendi a urgência.
A escritora disse:
minha casa era cheia de carências,
mas cheia de palavras.
Dia da Amazônia.
Cinco de julho.
Quatro falas.
Uma floresta que ainda está aqui.
Fonte / referência: matéria original
Publicar comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.