Bem Estar 25 de setembro de 2026

Vida digital e terceira idade: quando a tecnologia conecta e quando afasta

O acesso à internet cresceu entre os idosos brasileiros, mas o tipo de uso faz toda a diferença. Entenda quando a tecnologia aproxima e quando começa a isolar.

Como a vida digital pode dificultar a convivência na terceira idade?

O acesso à internet entre pessoas com 60 anos ou mais atingiu 74,5% no Brasil em 2025, segundo o IBGE, ante 70,1% no ano anterior. É o maior crescimento entre todas as faixas etárias. Esse dado revela um fato simples: adultos mais velhos estão online, e em número crescente. A questão relevante não é se eles usam a tecnologia, mas como esse uso afeta a vida cotidiana, os vínculos afetivos e o bem-estar.

A tecnologia como ponte, não como destino

De acordo com Thaís Cristina Bolonha Alexmovitz, psicóloga do AmorSaúde, a tecnologia não precisa ser vista como concorrente da vida real. Uma videochamada não substitui um abraço, mas pode reduzir a sensação de distância quando o encontro presencial não é possível. O problema, segundo ela, não está na quantidade de tempo diante da tela, mas na função que esse uso passou a ocupar na vida da pessoa.

Para quem tem filhos, netos e amigos em outras cidades ou países, aplicativos de mensagens e chamadas de vídeo ajudam a manter vínculos ativos. A internet também abre espaço para cursos, grupos de interesse e entretenimento. Esse uso, quando equilibrado, funciona como extensão da vida social, não como substituto dela.

Quando o celular começa a ocupar o lugar da vida

A psicóloga aponta sinais que indicam quando a relação com o celular merece atenção: interferência no sono, abandono de atividades de lazer, menor disposição para sair de casa, prejuízos nos relacionamentos e necessidade constante de verificar mensagens, curtidas ou notificações. O alerta se torna mais sério quando as redes sociais se tornam praticamente a única fonte de companhia e entretenimento.

Um estudo canadense publicado este ano na revista científica PLOS Global Public Health, feito com 13,5 mil pessoas com 55 anos ou mais, encontrou associação entre o uso de redes sociais e uma pior percepção da própria saúde mental. Em contrapartida, o uso de e-mail apresentou associação positiva com essa percepção, indicando que diferentes formas de interação digital têm impactos distintos.

Redes sociais e a comparação com vidas editadas

O tipo de conteúdo consumido também importa. Nas redes sociais, imagens de viagens, encontros familiares, corpos e conquistas são apresentados como referências de felicidade. Para uma pessoa mais velha, essa exposição pode interferir na percepção sobre a própria trajetória, especialmente em uma sociedade que frequentemente associa juventude à beleza e produtividade.

Segundo a psicóloga, quando alguém compara sua vida cotidiana com esse recorte editado da vida de outra pessoa, pode chegar à conclusão de que está vivendo menos ou envelhecendo de uma maneira “errada”. Esse tipo de comparação pode alimentar sentimentos de inadequação, tristeza e ansiedade.

Desenvolver um olhar crítico sobre o que aparece nas telas é uma forma de proteção. As redes sociais mostram apenas uma parte da vida de quem publica e não devem ser usadas como medida para avaliar se alguém está envelhecendo bem ou levando uma vida satisfatória.

O que ajuda a manter o equilíbrio

A matéria aponta caminhos práticos para manter a tecnologia como complemento, não como substituta da vida presencial:

  • Usar o digital para aproximar quem está longe: videochamadas e mensagens mantêm vínculos à distância sem precisar substituir os encontros presenciais.
  • Preservar compromissos fora das telas: caminhadas, cursos, hobbies, jogos e grupos de convivência ajudam a manter movimento e vínculos reais.
  • Criar momentos de presença: refeições e encontros podem ser oportunidades para deixar o celular de lado e priorizar quem está por perto.

Como a família pode contribuir

Familiares também têm papel nesse equilíbrio. Convidar para atividades presenciais, incluir a pessoa mais velha nos programas familiares e respeitar seus interesses e autonomia são atitudes que ajudam a preservar o sentimento de pertencimento. Observar mudanças de comportamento, como redução da disposição para sair de casa ou abandono de atividades habituais, também é parte do cuidado.

Como resume a psicóloga: envelhecer na era digital não significa ter de escolher entre estar conectado ou viver o presente. A tecnologia pode estar a serviço da vida, dos vínculos e do bem-estar, desde que ocupe o lugar de complemento, não de destino.

A tela no meio da mesa

Há uma cena que se repete em muitas casas brasileiras: a família reunida, e cada um olhando para uma tela diferente. O que mudou não foi o desejo de convivência. O que mudou foi a arquitetura da atenção.

Quando 74,5% dos brasileiros com 60 anos ou mais acessam a internet, segundo o IBGE, o dado não descreve um fenômeno marginal. Descreve uma realidade consolidada. O adulto mais velho está online. Usa aplicativos, redes sociais, videochamadas. Participa do mesmo ambiente digital que os filhos e os netos. O que ainda não está resolvido é como esse uso se organiza dentro da vida.

A pergunta relevante não é se a tecnologia é boa ou ruim para quem tem 60, 70 ou 80 anos. Essa pergunta é simplista demais para a complexidade do que acontece. A pergunta correta, segundo a psicóloga Thaís Cristina Bolonha Alexmovitz, é sobre a função que o uso da tecnologia passou a ocupar. Se ela amplia a vida, conecta pessoas que estão distantes e abre espaço para novos interesses, cumpre um papel legítimo. Se ela começa a substituir experiências que antes existiam fora das telas, o problema não está na tecnologia em si, está no esvaziamento que ela passou a cobrir.

Essa distinção é fina, mas essencial. Uma videochamada com um neto que mora em outra cidade tem um valor afetivo real. Uma tarde inteira rolando o feed de notícias no lugar de sair para uma caminhada ou encontrar um amigo é outra coisa. A diferença não é de quantidade de tela, é de função.

O estudo canadense publicado na revista PLOS Global Public Health, feito com mais de 13 mil pessoas com 55 anos ou mais, traz uma observação que merece atenção: o uso de redes sociais foi associado a uma pior percepção da própria saúde mental, enquanto o uso de e-mail apresentou associação positiva. Diferentes ferramentas, dentro do mesmo ambiente digital, produzem efeitos distintos. Isso sugere que o problema não é a internet, é a forma como ela se organiza como experiência cotidiana.

Há ainda uma camada simbólica nessa conversa. As redes sociais constroem um ambiente onde viagens, encontros, corpos jovens, rotinas de exercícios e conquistas aparecem como norma. Para qualquer pessoa, essa curadoria do que é exibido cria uma comparação desfavorável com a vida real. Para um adulto mais velho, em uma sociedade que ainda associa juventude à beleza e produtividade, essa comparação pode ganhar uma dimensão específica. A psicóloga é direta: quem compara sua vida cotidiana com esse recorte editado pode chegar à conclusão de que está envelhecendo da maneira errada. Não existe maneira errada de envelhecer, mas a arquitetura das redes sociais não ajuda nessa conclusão.

O que torna essa discussão relevante para os Avós do Brasil não é o risco em si. É a oportunidade de pensar o uso da tecnologia como escolha adulta e consciente, e não como imposição ou ameaça. O adulto 50+ que entende como as redes sociais funcionam, que usa videochamadas para manter vínculos reais e que preserva compromissos fora das telas está exercendo autonomia. Não está fugindo da tecnologia nem sendo engolido por ela.

Envelhecer na era digital é aprender a usar a ferramenta sem virar a ferramenta. Essa é uma habilidade que não tem idade mínima nem máxima para ser desenvolvida.


A videochamada não substitui o abraço.
Mas diminui a distância
quando o abraço não é possível.

O problema não é a tela.
É quando a tela
ocupa o lugar
do que estava lá fora.


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