Dinheiro & Direitos 28 de setembro de 2026

Ele conseguiu um emprego na BlackRock. Então largou tudo para abrir um restaurante

Anthony Scotto construiu durante anos uma carreira invejável na BlackRock. Depois decidiu que preferia servir croquetes de batata da avó. E deu certo.

O que faz alguém largar um emprego na BlackRock para abrir um restaurante?

Anthony Scotto III passou anos construindo exatamente a carreira que havia planejado desde os 12 anos. Estagiou duas vezes na BlackRock, conquistou uma vaga efetiva após a graduação, foi promovido a associado e tornou-se gestor assistente de um dos maiores fundos da empresa. Para sua família de imigrantes italianos, ele era uma espécie de símbolo de chegada ao mundo corporativo americano.

Então, aos 30 anos, ele saiu.

A história de Scotto não é a de alguém que detestava o que fazia. É a de alguém que encontrou outra coisa que queria mais. E essa distinção importa bastante para quem pensa em reinventar a própria trajetória profissional.

A família, o restaurante e a pandemia

Os dois lados da família Scotto emigraram da Itália em 1905. Restaurantes sempre fizeram parte da vida deles. O pai de Anthony abriu o Fresco by Scotto, em Midtown Manhattan, em 1993, e o jovem passou verões e férias escolares lavando louça, cortando cebolas e descascando batatas.

Durante a pandemia, o Fresco fechou por um longo período. A família enxergou uma oportunidade em Nashville, cidade em rápida expansão onde a irmã de Anthony estudava. Lá, abriram o Luogo, um restaurante inspirado no Fresco.

Anthony, ainda trabalhando remotamente para a BlackRock, ajudou a estruturar o negócio: negociou o aluguel, elaborou projeções financeiras e cuidou de questões jurídicas e contábeis. Quando a empresa convocou os funcionários de volta a Nova York, ele precisou escolher.

O imóvel que mudou tudo

A decisão foi influenciada por um espaço que Scotto encontrou no bairro de Germantown, em Nashville. O prédio havia sido uma fábrica de vassouras e rodos e já tinha abrigado cinco restaurantes em dez anos. Muitos acharam a ideia uma loucura.

Ele enxergou uma excelente localização. Em três semanas, nasceu a Pelato, restaurante italiano inspirado na culinária ítalo-americana do Brooklyn.

O que tornou a aposta possível, segundo o próprio Scotto, foi a convicção de que, se o restaurante fracassasse, ele sempre poderia voltar ao setor financeiro. Quatro anos depois, ele diz que não consegue mais imaginar esse retorno.

Os primeiros meses e a virada

Scotto abriu a Pelato ao lado da mãe, Theresa, em setembro de 2023. Nenhum dos dois havia administrado um restaurante antes. O negócio começou usando pedidos via QR Code, uma herança da pandemia que logo se mostrou inadequada. Os primeiros meses foram difíceis.

Mãe e filho preferiram ajustar a operação sem perder a identidade familiar. Mudaram o atendimento, a recepção dos clientes e o cardápio, promovendo, segundo a empresa, centenas de pequenas melhorias.

Segundo dados fornecidos pela empresa à Fortune, a Pelato atingiu o ponto de equilíbrio já no terceiro mês. Em meados de janeiro, período que muitos apontavam como potencialmente fatal para o negócio, a demanda disparou.

Crescimento e números

A Pelato se tornou um dos restaurantes mais disputados de Nashville. A receita da unidade original cresceu 76% entre o primeiro e o segundo ano completos de operação e mais 34% no ano seguinte. A previsão é de nova alta de 10% em 2025.

Hoje a rede opera três unidades, emprega 300 pessoas e deve atender cerca de 450 mil clientes neste ano. Duas novas unidades estão planejadas para 2027.

Scotto aplica os conhecimentos que adquiriu na BlackRock em negociações imobiliárias, contratos de locação e modelagem financeira, embora passe cerca de 95% do tempo dentro dos restaurantes.

O preço do negócio próprio

A história tem glamour, mas Scotto não esconde o custo. Ele trabalha sete dias por semana, raramente tira férias e é responsável por centenas de funcionários. “Eu nunca trabalhei tão duro na minha vida”, disse à Fortune. “E nunca estive tão estressado no dia a dia.”

Mesmo assim, ele vê clientes desfrutando as receitas da família, incluindo os croquetes de batata da avó, enquanto o negócio segue crescendo. “Se fracassarmos, a culpa é nossa. E, se tivermos sucesso, também é por nossa causa”, afirmou.

No plano pessoal, ainda tem um endereço de família escrito à mão na pequena ilha italiana de Ísquia esperando por uma visita. Por enquanto, os restaurantes vêm primeiro.

A carreira dos sonhos era um ponto de partida, não um destino

Existe uma narrativa muito bem estabelecida sobre o que significa ter êxito profissional: estudar, estagiar nos lugares certos, conquistar a vaga cobiçada, subir os degraus devidos. Anthony Scotto seguiu esse roteiro com disciplina e convicção desde os 12 anos. Tinha até o símbolo visual da ambição logo acima do restaurante da família, no endereço da BlackRock na East 52nd Street. E chegou lá.

O que a história de Scotto revela não é que a carreira corporativa era ruim. É que ela era completa. Ele não saiu em fuga. Saiu com clareza. E essa é uma distinção que vale examinar com cuidado, especialmente num momento em que se discute muito o que significa uma trajetória profissional bem vivida.

Há uma tensão real no centro dessa história: o medo de desperdiçar o que custou muito a construir. Scotto foi o primeiro da família a se formar na faculdade e entrar no mundo corporativo americano. Sair dali não era só uma decisão de carreira. Era uma espécie de abandono simbólico do projeto coletivo da família. Sua frase sobre a própria posição na BlackRock é precisa nesse sentido: “Lutei muito para chegar exatamente àquela posição.”

O que o autorizou a sair foi exatamente isso: ele sabia que havia chegado. Não era insatisfação com o percurso. Era a percepção de que outro percurso estava se abrindo, e que ele tinha competência para atravessá-lo.

A pandemia foi o catalisador. O fechamento do Fresco by Scotto cortou a renda da família e empurrou os Scottos para Nashville. Scotto começou a trabalhar nos bastidores do Luogo ainda como funcionário da BlackRock, aplicando ferramentas corporativas ao mundo gastronômico. Quando a empresa convocou todos de volta a Nova York, a escolha já estava tomando forma.

Não é uma história de antipatia ao capital financeiro. É uma história de preferência. E preferência, neste contexto, é um luxo que pressupõe competência acumulada, risco calculado e uma convicção sobre o que se quer construir.

O que talvez seja mais interessante para adultos 50+ nessa narrativa não é a idade de Scotto, que tinha 30 anos na virada, mas o padrão de decisão. A ideia de que um percurso profissional sólido pode ser um ponto de largada para outra coisa, e não um caminho sem retorno, é uma percepção que se torna mais nítida com o tempo. Quem já construiu algo sabe melhor o que quer construir a seguir.

Scotto disse que o que tornou a aposta possível foi a crença de que, se fracassasse, poderia voltar ao setor financeiro. Essa é uma lógica de adulto experiente, não de jovem impulsivo. E é também o tipo de cálculo que adultos com trajetórias longas fazem com mais precisão do que quem ainda está no começo.

Quatro anos depois, a Pelato tem 300 funcionários, três unidades e 450 mil clientes previstos para este ano. O endereço de família em Ísquia ainda espera. E Scotto passa 95% do tempo dentro dos restaurantes, sete dias por semana, mais estressado do que nunca e, segundo ele mesmo, mais realizado do que antes.


Conseguiu o emprego.
O emprego dos sonhos.
Na BlackRock.

Então olhou para o lado
e viu um prédio que já tinha sido
fábrica de vassouras
e fracasso de cinco restaurantes.

Pensou: é aqui.

Três semanas depois, abriu.
Três meses depois, no azul.
Quatro anos depois,
não consegue mais imaginar voltar.


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