Bem Estar 29 de outubro de 2026

Exames invasivos em idosos: por que a indicação exige avaliação cuidadosa

Colonoscopias, endoscopias e outros procedimentos com sedação profunda pedem avaliação cuidadosa quando o paciente tem mais de 70 anos. Um especialista do Iamspe explica o raciocínio por trás dessa decisão.

Por que exames invasivos em pacientes com mais de 70 anos exigem avaliação especial?

A indicação de um exame invasivo, como colonoscopia ou endoscopia, nunca é uma decisão automática. Quando o paciente tem mais de 70 anos, essa decisão exige ainda mais critério. Comorbidades não compensadas, fragilidade orgânica e a presença de sedação profunda ou anestesia geral tornam o procedimento um evento de risco elevado, que precisa ser pesado com cuidado antes de ser solicitado.

Essa é a avaliação do Dr. Renato Luz, diretor do Serviço de Endoscopia do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual de São Paulo, o Iamspe. O serviço que ele dirige realiza 1.500 exames invasivos por mês no Hospital do Servidor Público Estadual, e cerca de 80% deles são realizados em pacientes com mais de 70 anos.

O que é um exame invasivo?

Um exame invasivo é qualquer procedimento diagnóstico que exige a introdução de instrumentos no corpo humano, como cateteres, agulhas ou dispositivos similares, geralmente associados a sedação profunda ou anestesia geral. Colonoscopias e endoscopias são os exemplos mais comuns nesse contexto.

Por que o risco aumenta acima dos 70 anos?

Segundo o especialista, o idoso com mais de 70 anos e com doenças associadas tem a saúde mais frágil e, por isso, maior probabilidade de desenvolver complicações. O organismo, nessa faixa etária, responde de forma diferente ao estresse fisiológico gerado por esses procedimentos. Quanto mais doenças não controladas o paciente tiver, maior o risco.

Em situações em que os sintomas são controláveis com medicação simples e oral, e a condição clínica apresenta baixo risco, a realização do procedimento invasivo deve ser evitada ou, se necessária, realizada com preparo específico e apoio de equipe multidisciplinar.

O papel das equipes de saúde

A discussão sobre a real vantagem de cada procedimento está no centro do trabalho das equipes do Iamspe. O argumento é direto: refletir sobre os ônus e benefícios de um exame invasivo traz ganhos ao paciente e também à gestão hospitalar.

Essa reflexão precisa acontecer em todos os ambientes de atendimento, pronto-socorro, enfermaria, UTI e ambulatório, sempre que um paciente idoso estiver envolvido. Para isso, é essencial que os profissionais conheçam em detalhes o quadro clínico do paciente e se mantenham atualizados sobre diretrizes e boas práticas.

Um congresso dedicado ao tema

A avaliação criteriosa de procedimentos invasivos em pacientes na sétima década de vida será o tema central do Gastro 70+, primeiro congresso brasileiro voltado à saúde digestiva dessa população. O evento ocorre nos dias 30 e 31 de outubro, em São Paulo.

O contexto demográfico por trás da discussão

O debate tem urgência. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, pessoas com 60 anos ou mais já representam 16,6% da população brasileira. Em 2012, esse percentual era de 11,3%. O envelhecimento acelerado da população coloca o sistema de saúde diante de escolhas que precisam ser feitas com mais rigor, mais informação e mais diálogo entre profissionais e pacientes.

A arte de não fazer: o que o exame invasivo ensina sobre medicina e envelhecimento

Existe uma crença silenciosa de que investigar é sempre melhor do que não investigar. Que pedir um exame é sinônimo de cuidado. Que a imagem, o número, o resultado impresso no papel traz mais segurança do que a avaliação clínica de um médico experiente. Para a maioria das situações, essa crença tem algum fundamento. Para o paciente com mais de 70 anos e um conjunto de doenças não controladas, ela pode ser perigosa.

É isso que o Dr. Renato Luz, diretor do Serviço de Endoscopia do Iamspe, traz à discussão. A pergunta que ele coloca não é nova, mas continua incômoda: vale o risco? A colonoscopia, a endoscopia, qualquer procedimento que introduz instrumentos no corpo com sedação profunda ou anestesia geral carrega um estresse fisiológico real. Num organismo mais frágil, esse estresse pode gerar complicações que o exame em si não justificaria.

No serviço que ele dirige, no Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo, são 1.500 exames invasivos por mês. Desse total, 80% realizados em pacientes com mais de 70 anos. Não é um número periférico. É o centro da operação. E é justamente por isso que a reflexão sobre cada indicação precisa ser constante.

O argumento não é contra os exames. É contra a automaticidade. Contra a indicação que acontece sem a pergunta sobre o quadro completo do paciente, sem a consideração sobre as doenças associadas, sem a conversa multidisciplinar que pode revelar que, naquele caso específico, a medicação oral resolve e o procedimento invasivo pode ser poupado.

Há também um componente demográfico que não pode ser ignorado. O IBGE registra que pessoas com 60 anos ou mais já representam 16,6% da população brasileira, quase seis pontos percentuais a mais do que em 2012. O envelhecimento da população não é uma tendência futura. Já chegou. E o sistema de saúde, hospitais, UTIs, prontos-socorros e ambulatórios, precisa responder a essa realidade com protocolos mais refinados.

O congresso Gastro 70+, previsto para o fim de outubro em São Paulo, nasce exatamente dessa necessidade. Criar espaço para que profissionais de saúde debatam os critérios de indicação de procedimentos invasivos em pacientes idosos é, em si, um ato de cuidado. Não pelo paciente individual, mas pela prática médica como um todo.

Para o adulto 50+ que eventualmente precisará passar por esse tipo de avaliação, a mensagem principal da matéria é menos sobre o que fazer e mais sobre o que perguntar. Saber que a indicação de um exame invasivo não deve ser automática, que o quadro clínico completo importa, que a equipe médica tem o dever de ponderar riscos e benefícios, é informação que pode mudar uma conversa com o médico. Não para recusar o exame. Para entender melhor o que está em jogo.


Pedir o exame
não é sempre
cuidado.

Às vezes é
não pedir
que protege.

Acima dos 70,
a pergunta certa
não é “quando faço?”

É “preciso mesmo?”


Fonte / referência: matéria original