Há um momento em que a ficha cai em silêncio: algumas coisas ficaram definitivamente para trás. Não é drama, não é teoria. É só aquele reconhecimento seco, quase burocrático, de que certos dias, certas versões de si e de outros, não vão se repetir.
O relógio continua andando, mas por dentro parece haver um ponteiro parado na cena em que algo poderia ter sido diferente. O corpo segue, a rotina segue, mas a cabeça visita sempre a mesma esquina antiga.
Quando o tempo não devolve
Com o passar dos anos, o passado deixa de ser apenas lembrança e começa a funcionar como um tribunal íntimo. Voltam as frases silenciosas: “eu deveria ter feito”, “eu não precisava ter dito aquilo”, “se eu tivesse escolhido de outro jeito”.
Não é só saudade de uma época. É a sensação de ter errado de forma irreversível. Relações que se perderam, oportunidades não abraçadas, caminhos que hoje parecem óbvios, mas que, na época, vinham cercados de medos, cegueiras e limites reais.
O difícil é que o corpo agora carrega o peso dessas decisões, enquanto o tempo que resta parece mais curto para qualquer reparo. O relógio externo anda para frente; o interno insiste em refazer o trajeto para trás, como se ainda existisse uma fresta para editar a cena.
Entre o que foi e o que ainda é, vai se abrindo uma distância estranha: o dia de hoje está diante dos olhos, mas o olhar, muitas vezes, está preso ao que não se pode mais alcançar.
O motor silencioso da volta ao passado
Por trás da ruminação, quase nunca há vaidade de perfeição. O que se move ali é outra coisa: o medo de que a própria história tenha se tornado prova de inadequação. Como se o conjunto das escolhas confirmasse, tardiamente, a suspeita de que sempre houve algo errado em si.
O cérebro tenta, repetidamente, montar um roteiro diferente. Revê cenas, reorganiza falas, muda decisões na imaginação, como se, de tanto repetir, conseguisse atualizar o resultado. É um tipo de autoflagelação que se disfarça de responsabilidade.
O paradoxo é cruel: quanto mais se repassa o passado em busca de alívio, mais ele se solidifica como condenação. A frase “eu deveria” vai ganhando peso de sentença. O arrependimento, que poderia funcionar como ponto de virada, congela em estátua. A ferida já não é o que aconteceu, mas o hábito de manter a cena aberta, dia após dia.
No fundo, há uma tentativa quase comovente de negociar com o tempo: se eu sofrer o bastante pelo que fiz ou deixei de fazer, talvez eu mereça um passado melhor. Como o tempo não devolve, sobra a exaustão de um acordo impossível.
Quando isso aparece nos vínculos e no cotidiano
Por fora, a vida segue em gestos simples: uma mesa riscada de anos, o relógio na parede, a xícara de café, a novela da noite, a conversa breve com alguém da família. Nada parece extraordinário. Mas a qualidade da presença ali muda.
Em muitas casas, o passado ocupa a cadeira principal. Histórias repetidas surgem com o mesmo tom de autocrítica, sem espaço para o que se sente hoje sobre aquilo. Fica-se preso à narrativa de erro, não à experiência do presente.
O futuro, encolhido, vai perdendo cor. Planos se tornam tímidos: “ver no que dá”, “não dar trabalho”, “só não piorar”. Às vezes, o único projeto declarado é “não ficar o dia inteiro deitado”. O resto é mantido em suspenso, como se nada mais pudesse ser realmente inaugurado.
Nos relacionamentos, essa revisão infinita do passado pode afastar sem intenção. Fica difícil estar inteiro diante de alguém quando grande parte da energia mental está amarrada ao que não tem conserto. As conversas podem girar em torno do que já foi, ou cair em silêncios cheios de coisas não ditas, não porque não haja assunto, mas porque há uma espécie de cansaço de si.
Ao mesmo tempo, quem convive muitas vezes não percebe a dimensão dessa batalha interna. Vê só a resistência, o “sempre foi assim”, a aparente teimosia em não olhar para frente. Do lado de dentro, o que se tenta proteger é uma identidade já abalada. Mudar agora parece ameaçador demais: se eu poderia ter sido diferente, o que faço com tudo o que já vivi como sou?
Um olhar mais justo para o que ainda existe
Talvez justiça, aqui, não seja absolvição nem condenação. Seja apenas admitir que cada escolha antiga foi feita com o repertório, os medos e as certezas possíveis daquele momento. Visto de hoje, parece simples. Visto de dentro, naquela época, não era.
O tempo não devolve o que foi vivido, mas ele oferece algo mais discreto: a chance de mudar a forma como se habita o que sobrou. Não se reescreve a cena de vinte anos atrás, mas se decide, ainda que de modo imperfeito, como se senta à mesma mesa riscada hoje.
Presença, neste ponto da vida, raramente é um estado amplo e pleno. É mais honesto entendê-la como pequenos intervalos em que o automático da culpa e da comparação é interrompido. Um gole de água bebido com atenção. A luz da tarde entrando pela janela e sendo realmente vista, ainda que por alguns segundos. Um diálogo em que, por instantes, o assunto não seja o que faltou, mas o que, de fato, está em cima da mesa agora.
Esses momentos não apagam erros, não drenam perdas, não rejuvenescem o corpo. Mas devolvem alguma autoria sobre o tempo que resta. Em vez de usar o relógio apenas para marcar o que foi desperdiçado, ele volta a ter uma função mais simples: contar o que ainda está acontecendo.
Há uma maturidade particular em reconhecer: não vou recuperar o que se perdeu. Entre o lamento e a desistência, existe um meio-termo menos vistoso e mais humano, onde se continua ajustando o passo com o que há. Sem espetáculo de superação, sem urgência de reinvenção.
No fim, talvez o tempo se pareça mesmo com uma mesa antiga: marcada, irrecuperável em alguns pontos, bonita em outros, funcional apesar das falhas. Não se apaga o que está riscado. Mas ainda se escolhe, dia após dia, o que se coloca sobre ela. Às vezes é pouco. Ainda assim, é real, é presente e é o que, de fato, existe.
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