Ser Mortal

4 Lições Surpreendentes

4 Lições Surpreendentes de ‘Ser Mortal’ Que Mudarão Como Você Vai Encarar a Vida e a Morte

Vivemos em uma era de milagres médicos. Graças aos avanços científicos, as pessoas vivem mais e com mais saúde do que em qualquer outro momento da história. No entanto, essa longevidade trouxe consigo um paradoxo desconfortável: apesar de vivermos mais, estamos terrivelmente despreparados e com medo de envelhecer e morrer.

A medicina moderna, focada em salvar vidas a qualquer custo, transformou o envelhecimento e a morte em “experiências médicas”. A morte passou a ser vista não como uma parte natural e inevitável da existência, mas como um fracasso da ciência e dos profissionais de saúde. Sentimos que falhamos com nossos pacientes quando eles morrem.

É nesse cenário que o livro “Ser Mortal”, do cirurgião e escritor Atul Gawande, surge como uma fonte de sabedoria profunda e, muitas vezes, contraintuitiva. Gawande desafia nossas suposições mais arraigadas sobre o fim da vida e oferece uma nova perspectiva, mostrando que é possível viver bem, com dignidade e propósito, até o fim.

Aqui estão quatro lições surpreendentes do livro que mudarão a maneira como você encara a vida, a velhice e a mortalidade.

Lição 1: Menos tratamento pode significar uma vida melhor — e mais longa.

Em nossa cultura de “lutar até o fim”, a ideia de reduzir ou interromper tratamentos agressivos contra uma doença terminal parece uma desistência. Contudo, Gawande apresenta evidências chocantes que viram essa lógica de cabeça para baixo.

Ele cita um estudo de 2010 do Massachusetts General Hospital com pacientes diagnosticados com câncer de pulmão em estágio IV. Os pesquisadores dividiram os pacientes em dois grupos: um recebeu o tratamento oncológico padrão, enquanto o outro recebeu o mesmo tratamento mais cuidados paliativos. O foco dos cuidados paliativos não era curar a doença, mas garantir o bem-estar do paciente, controlando sintomas como dor e náusea e oferecendo apoio emocional.

As descobertas demoliram décadas de dogma médico. Os pacientes que receberam cuidados paliativos não apenas sofreram menos e tiveram uma qualidade de vida melhor, como também interromperam a quimioterapia mais cedo. E o mais chocante de tudo: eles viveram 25% mais do que o grupo que recebeu apenas o tratamento padrão.

A lição é profundamente contraintuitiva: ao evitar os efeitos debilitantes de tratamentos agressivos e, em última instância, fúteis, os pacientes não apenas melhoraram sua qualidade de vida, mas também a prolongaram.

Em outras palavras, nossa tomada de decisão na medicina falhou tão espetacularmente que chegamos ao ponto de infligir danos ativamente aos pacientes em vez de confrontar o assunto da mortalidade. Se as discussões sobre o fim da vida fossem um medicamento experimental, a FDA o aprovaria.

Lição 2: Nossas prioridades mudam quando o futuro parece finito (e não tem a ver com idade).

O que você mais valoriza na vida? Sua resposta provavelmente depende de quanto tempo você acredita que ainda tem. Gawande apresenta a pesquisa da psicóloga Laura Carstensen, que revela como nossa percepção do tempo molda nossas prioridades e motivações.

A teoria de Carstensen sugere que:

  • Quando o horizonte de tempo parece longo e aberto, como na juventude, nosso foco é expandir. Buscamos adquirir mais conhecimento, fazer novas conexões, acumular experiências e construir um futuro. Estamos dispostos a adiar a gratificação.
  • Quando o horizonte de tempo se contrai, seja pela idade avançada ou por uma doença grave, nossas prioridades mudam drasticamente para o presente. O foco se desloca para o bem-estar emocional. Valorizamos passar tempo com a família e amigos próximos, saborear os prazeres do dia a dia e encontrar significado nos relacionamentos que já temos.

O ponto crucial é que essa mudança não é sobre a idade cronológica, mas sobre a perspectiva. Gawande cita estudos realizados em Hong Kong durante períodos de grande incerteza, como a transferência do controle para a China ou a epidemia de SARS. Nesses momentos, quando a vida parecia frágil, os jovens passaram a ter as mesmas prioridades dos mais velhos: focar em conexões emocionalmente significativas.

Essa descoberta expõe uma falha fundamental em muitas instituições para idosos. Elas são projetadas para um público cujos desejos mudaram, mas continuam a operar sob a lógica da expansão, ignorando a necessidade humana fundamental de conforto, companhia e significado no presente.

Lição 3: Os verdadeiros inimigos da velhice são o tédio, a solidão e o desamparo.

Por que tantos lares de idosos, mesmo os mais bem equipados e seguros, parecem lugares tristes e sem vida? A resposta, segundo o Dr. Bill Thomas, um médico que se tornou diretor de uma casa de repouso em Nova York, é que eles são projetados para garantir a saúde e a segurança, mas ignoram completamente o que torna a vida digna de ser vivida.

Thomas diagnosticou que os residentes sofriam de três “pragas”: tédio, solidão e desamparo. A vida institucionalizada, com suas rotinas rígidas e falta de espontaneidade, era a causa direta dessas aflições. Sua solução foi radical e brilhante.

No que ficou conhecido como “Eden Alternative”, Thomas decidiu injetar vida descontrolada na Chase Memorial Nursing Home. Contra todas as regras e a resistência inicial da equipe, ele introduziu quatro cães, dois gatos e cem periquitos, além de centenas de plantas e uma horta.

A genialidade do Eden Alternative foi seu ataque direto às Três Pragas. A espontaneidade dos animais imprevisíveis aniquilou o tédio. A presença constante e a interação com outros seres vivos destruíram a solidão. Mais profundamente, a necessidade de os animais serem alimentados, as plantas regadas e os pássaros cuidados proporcionou um propósito genuíno, combatendo diretamente o desamparo esmagador que define a vida institucional.

Essa ideia se conecta à filosofia de Josiah Royce, que argumentava que a vida só tem sentido quando nos dedicamos a uma causa maior que nós mesmos. Estar seguro e vivo não é suficiente. Precisamos de um propósito, de algo pelo qual valha a pena viver.

Lição 4: Idolatramos a independência, mas é um ideal destinado ao fracasso.

A cultura ocidental moderna venera o “eu independente”. A autonomia não é apenas valorizada; é o objetivo final. Mas, como Gawande demonstra, essa reverência nos deixa despreparados para a realidade inevitável da vida: mais cedo ou mais tarde, todos nós nos tornaremos dependentes.

Ele contrasta duas histórias para ilustrar esse ponto:

  • Alice, a avó de sua esposa, era a personificação do ideal americano. Viúva, ela morou sozinha por décadas, cortava a própria grama e sabia consertar o encanamento. No entanto, após algumas quedas, a família a convenceu a se mudar para uma excelente instituição de vida assistida. Lá, apesar de estar segura e bem cuidada, Alice tornou-se profundamente infeliz. Ela havia perdido o controle sobre sua própria vida, seu tempo e, acima de tudo, seu lar.
  • Sitaram, o avô de Gawande na Índia, viveu uma realidade completamente diferente. Ele viveu até os 110 anos cercado e reverenciado por sua família. Embora frágil e dependente para muitas tarefas, ele nunca perdeu sua autoridade. O papel da família não era garantir sua segurança a todo custo, mas permitir que ele vivesse como desejava, mantendo seu lugar de honra e propósito.

Nosso culto cultural ao “eu independente” não é um valor benigno; é o projeto arquitetônico das prisões que construímos para nossos idosos. Porque não toleramos a ideia de uma dependência digna, projetamos sistemas que se fixam na segurança acima de tudo. A trágica ironia é que, em nossa busca para manter os idosos seguros, nós os despojamos da autonomia e do propósito que fazem suas vidas parecerem independentes em primeiro lugar, deixando-os, nas palavras de Alice, “encarcerados por serem velhos”.

Conclusão: Autores de Nossas Próprias Histórias

As lições de “Ser Mortal” nos forçam a fazer uma pergunta fundamental: qual é o verdadeiro objetivo da medicina e, em última análise, da vida? Se a resposta não é meramente a sobrevivência ou a segurança, então o que é?

Gawande sugere que o objetivo é o bem-estar. E o bem-estar reside na capacidade de continuar a ser o autor da própria história, de moldar nossos dias de acordo com nossas prioridades, mesmo quando nosso corpo e nossa mente nos impõem limites. Seja escolhendo qualidade de vida em vez de tratamentos fúteis, priorizando a conexão em vez do acúmulo, cuidando de outro ser vivo ou definindo os próprios termos de dependência, cada lição é um poderoso lembrete de que nosso objetivo final é permanecer os autores de nossas próprias histórias.

A verdadeira questão não é como ter um bom final, mas como viver bem o fim. Se o seu tempo fosse limitado, o que seria mais importante para você?

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