Nem todo medo de envelhecer é vaidade

Há um espelho apoiado sobre a cômoda. A moldura é simples, a superfície limpa. Diante dele, um pente e um frasco de creme fechados, intocados. Ao lado, um calendário de papel com vários dias já riscados, formando uma espécie de caminho em direção a um ponto que ninguém nomeia em voz alta.

No reflexo, não há rosto. Só a moldura vazia. É como se a própria imagem tivesse dado um passo para fora, hesitante. O medo de envelhecer, muitas vezes, parece isso: não a recusa da passagem do tempo em si, mas o susto de perceber que, enquanto os dias seguem riscados no papel, o espaço de ser levado a sério começa a se borrar.

O medo que mora atrás do espelho

É fácil reduzir o medo da idade ao medo de rugas. A indústria inteira se apoia nisso. Mas, na prática, o que muita gente teme não é a pele que muda, e sim o efeito invisível que essa mudança provoca no olhar dos outros.

O receio não é só ver um rosto diferente no espelho. É sentir que, daqui a pouco, qualquer frase mais contundente será lida como “amargura de velho”. Que o cansaço vai ser tratado como falta de vontade. Que a tristeza vai receber a etiqueta de “coisa da idade”, e não de vida concreta acontecendo.

Há um ponto em que a pessoa começa a perceber pequenas desautorizadas: a opinião interrompida porque “você não entende como é hoje”, a preocupação minimizada com um “ah, você é muito sensível”, a dor física que ganha um rótulo automático de frescura ou de “falta do que fazer”.

É aí que o medo de envelhecer troca de roupa. Deixa de ser vaidade e passa a ser pavor de ver, pelas rugas de fora, suas rugas de dentro — o que sente, o que pensa, o que teme — perderem peso na balança de qualquer conversa.

O motor silencioso: perder o direito de ser levado a sério

Ao longo da vida adulta, grande parte das pessoas se acostuma a ocupar um lugar em que sua palavra ainda organiza algo: decisões em casa, caminhos no trabalho, conselhos entre amigos. A identidade vai se amarrando a isso: ser alguém cuja presença ainda orienta, esclarece, move.

Quando os anos passam, esse lugar começa a mudar de forma. Não é só que a função profissional termina ou que os filhos montam a própria casa. É também que, pouco a pouco, certas dimensões da experiência deixam de ser consideradas legítimas.

Uma pessoa de quarenta, cinquenta anos que fala de exaustão é vista como alguém sobrecarregado. Uma pessoa de setenta que fala a mesma coisa corre o risco de ouvir: “tem que se ocupar mais”, “não pensa tanto”, “isso é porque você fica sozinho”. O mesmo sentimento, duas leituras. Uma leva a cuidado, outra a correção.

Esse descompasso vai deixando marcas. A cada vez que um medo é tratado como exagero, uma dor como manha, um esquecimento como piada, a mensagem silenciosa se repete: “depois de certa idade, o que você sente pesa menos que a paciência de quem escuta”.

O pavor que acompanha esse entendimento não é teatral. Ele se infiltra devagar, na forma de um pensamento que quase não se diz: “quando eu chegar lá, será que alguém ainda vai acreditar no que eu digo sobre mim?”.

Impacto relacional: entre a piada e o apagamento

O medo de não ser levado a sério começa a interferir na maneira como a pessoa se coloca. Tem conversa que já nasce pela metade, editada. Em vez de dizer “estou com medo”, troca por “ando meio preocupado, bobagem minha”. Antes de contar sobre uma tristeza mais funda, engole a frase e comenta o tempo, a novela, o preço das coisas.

Nas relações, instala-se um jogo silencioso. Quem está envelhecendo testa, aqui e ali, a possibilidade de se mostrar mais inteiro. Se percebe desdém, correção automática, riso deslocado, volta imediatamente ao papel de quem não dá trabalho: fala pouco, agradece muito, pede menos ainda.

Para quem convive, pode parecer que “não liga para essas coisas”, que “leva na boa”. A cena concreta, porém, é outra: alguém que aprendeu a esconder as rugas internas — dúvidas, fragilidades, perguntas sem resposta — para não ver sua experiência reduzida a “louca”, “dramática”, “difícil”.

O calendário, enquanto isso, segue ganhando riscos. Cada dia cortado é também mais um lembrete de que o tempo está avançando em direção a um estágio em que, na fantasia de muitos, sentir profundamente passa a ser quase um inconveniente social.

Olhar mais justo: rugas por dentro, não como exagero, mas como verdade

O espelho vazio sobre a cômoda diz muito desse processo. Não é só um reflexo que falta; é a sensação de que uma parte da identidade, a que foi construída como alguém que pensa, decide, interpreta o próprio mundo, está começando a perder contorno aos olhos dos outros.

O pente e o creme fechados, ali na frente, lembram uma preparação suspensa. Como se a pessoa estivesse diante da própria imagem, mas hesitasse em se aproximar dela com cuidado, com tempo, com curiosidade. Não porque não queira ver as marcas do tempo, mas porque teme descobrir que, depois de certo ponto, ninguém mais estará disposto a enxergá-las com seriedade.

Há dores de hoje que já vêm misturadas com esse medo do amanhã. O incômodo com um esquecimento pontual não é só pelo que se perde agora, mas pelo que parece anunciar: a possibilidade de ver suas palavras futuras tratadas como falhas de uma máquina velha, e não como tentativas legítimas de continuar dizendo quem se é.

O medo de envelhecer, assim, deixa de ser apenas uma questão de aparência. Torna-se um pedido mudo: que, quando as rugas se aprofundarem — na pele, na memória, no humor, no jeito de caminhar —, o olhar ao redor ainda reconheça ali um alguém inteiro, e não apenas um conjunto de sintomas a serem tolerados ou administrados.

Enquanto isso, na superfície calma da cômoda, o calendário riscado, o espelho sem rosto, o creme fechado e o pente quieto seguem dizendo, em silêncio, que o tempo passa para fora e para dentro. E que o verdadeiro pavor não é ver o corpo mudar, mas imaginar que, justamente quando tudo dentro se torna mais fundo, mais frágil e, muitas vezes, mais verdadeiro, possa faltar ao redor a disposição simples e rara de escutar aquilo como algo que ainda importa.


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