Quando a solidão é não se sentir esperado em canto nenhum

Quando a solidão é não se sentir esperado em canto nenhum

Na entrada da casa, um cabideiro de parede segura três ganchos. Em dois, casacos pendurados, cheios de uso. No do meio, nada. Abaixo, um banco simples e um par de sapatos alinhado, prontos para sair, mas parados. A cena é calma, quase arrumada demais. E, ainda assim, carrega uma pergunta silenciosa: ir para onde, se em lugar nenhum alguém espera, de verdade, pela sua chegada?

Há uma solidão adulta que mora exatamente aí. Não é a ausência de contatos, de nomes no telefone, de grupos em aplicativos. É a falta dessa certeza miúda e funda: hoje, em algum canto, alguém conta mesmo com a minha presença.

O vazio de não se sentir esperado

Essa solidão não costuma fazer barulho. Não vira discussão, não aparece em cena dramática. Ela se revela em pequenos gestos repetidos: a roupa separada e depois guardada de novo, o sapato colocado ao lado da porta e empurrado discretamente de volta para debaixo do banco.

Há convites que a pessoa até poderia aceitar, encontros abertos, atividades em que caberia. Mas, por dentro, a sensação é outra: se eu for ou não, nada se desorganiza. Ninguém está realmente contando com a minha presença para que aquela noite faça sentido.

O telefone toca, mas quase sempre para assuntos práticos: um favor, uma dúvida, um recado. Poucas vezes alguém liga só para dizer “vem”, com esse subtexto simples e raro: “vai ser diferente se você estiver aqui”. Com o tempo, a ausência dessa expectativa alheia começa a corroer também a expectativa própria de aparecer inteira.

O motor silencioso: de eixo a opcional

Em muitos momentos da vida, a pessoa já foi centro de alguma coisa: da casa, do trabalho, de um grupo de amigos. Sua presença organizava planos, segurava conversas, decidia rotas. Ali, sentir-se esperada vinha quase como consequência natural do papel que ocupava.

Com os anos, esse lugar vai mudando. Os filhos crescem e montam suas próprias rotinas. O trabalho se aposenta ou se reinventa sem precisar tanto da mesma mão. Os grupos se espalham. Nada disso é exatamente surpresa; faz parte do curso esperado das coisas.

O que dói não é apenas deixar de ser o eixo prático. É a sensação de deixar também de ser presença considerada quando algo é imaginado. A repetição do “a gente se vira”, “não se preocupa”, “fica tranquilo, se você não puder não tem problema nenhum” vai deixando a marca de que, na verdade, nada depende mais da sua chegada.

Devagar, isso se transforma em narrativa interna: eu não sou ponto de partida de nenhum encontro, sou, na melhor das hipóteses, complemento simpático. A partir daí, o medo de se oferecer cresce. Melhor não perguntar se pode ir, para não ouvir um “claro, se quiser” que, embora educado, confirma a sensação de que você nunca é a peça que falta.

Impacto relacional: disponibilidade sem reivindicação

Quem vive essa forma de solidão raramente desaparece de vez. Continua disponível. Responde quando chamam, ajuda quando pedem, diz “claro” sempre que alguém lembra seu nome. A diferença é que quase nunca se coloca como alguém que também precisa e deseja ser contado.

Nas relações, isso aparece de maneira sutil. Quando estão montando um plano, ela diz logo: “se faltar alguém, me avisa”, como se fosse reserva de elenco, não parte do elenco fixo. Quando perguntam se quer participar de algo, responde: “se precisar de mim, eu vou”, deixando nas mãos dos outros a decisão de incluí-la ou não. Raramente fala “eu quero ir”.

Do lado de fora, pode soar altruísmo: pessoa que não exige nada, que não cobra presença, que entende as limitações dos outros. Por dentro, muitas vezes é medo de testar a realidade: se eu disser que quero, será que alguém vai ajustar o plano por minha causa? Ou vou descobrir, de forma incontornável, que tudo segue igual comigo ou sem mim?

Esse cuidado extremo para não atrapalhar acaba encolhendo, junto, a própria alegria. Rir alto demais parece exagero, opinar com firmeza parece invasão, insistir por companhia parece peso. A pessoa passa então a existir em volume baixo, acreditando que, assim, ao menos garante um lugar que não incomoda.

Olhar mais justo: o gancho vazio e os sapatos alinhados

O cabideiro com um gancho vazio entre dois casacos pendurados conta uma história sobre pertencimento. Não falta estrutura, não falta parede, não falta espaço. Falta algo mais sutil: a crença de que aquele lugar do meio também é de alguém, não só intervalo entre presenças dos outros.

O par de sapatos alinhado, pronto para uso, mas parado, fala de uma vida que ainda tem fôlego para ir, para encontrar, para ocupar mesa. O problema não está na capacidade de caminhar, mas na sensação de que não há porta esperando pelo barulho desses passos.

Quando isso se estende por muito tempo, a autoestima não cai em tom de grande tragédia. Ela vai descendo um degrau por vez. A pessoa começa a medir suas escolhas pela lógica do mínimo impacto: onde posso estar sem mudar nada para ninguém? O que posso dizer que não exige resposta? Como posso sentir sem que isso precise caber em agenda alheia?

Na velhice, essa sensação encontra um terreno ainda mais delicado. O mundo encolhe: menos saídas, menos compromissos, menos gente da mesma geração. O valor da presença se desloca do fazer para o simplesmente estar. E é justamente aí que muitos deixam de se sentir esperados. Como se, tendo perdido parte da utilidade prática, tivessem perdido também o direito de serem presença aguardada.

O telefone segue com contatos. Os grupos seguem existindo. A casa segue cheia, às vezes. Mas, por dentro, o que falta é aquela certeza pequena: em algum lugar, hoje, alguém conta com a minha chegada ao ponto de estranhar, de verdade, se eu não aparecer.

Enquanto essa certeza não encontra abrigo, o sapato continua alinhado, o casaco continua pendurado, o gancho do meio continua vazio. E a pessoa, disponível, segue encolhendo a própria vontade de existir inteira, para caber no espaço exato de quem acredita não ser, em canto nenhum, presença realmente esperada.


Publicado

em

por

Tags:

Deixe um comentário