Quando a dor é não se sentir esperado em canto nenhum

Na entrada de algumas casas, o cenário se repete: um cabideiro com três ganchos, dois casacos pendurados, um espaço vazio no meio. Logo abaixo, um banco simples e um par de sapatos alinhado, prontos para sair. Tudo em ordem, tudo no lugar. E, ainda assim, uma pergunta pairando no ar: sair para onde, se em lugar nenhum alguém parece estar, de fato, esperando pela sua chegada?

Há uma solidão adulta que não nasce da falta de contatos, mas da perda íntima dessa certeza simples: em algum lugar, hoje, alguém conta com a minha presença.

Quando a ausência não desorganiza nada

Essa solidão não costuma ser reconhecida nos diagnósticos rápidos. Não é, necessariamente, o isolamento total, a casa sempre vazia, o telefone mudo. Ela se esconde em cenas discretas.

A roupa separada em cima da cama e, na última hora, devolvida ao cabide. O sapato colocado perto da porta e empurrado de volta para debaixo do banco. O convite que existe, mas carrega um subtexto: “se não puder ir, não tem problema nenhum, a gente se vira igual”.

Do lado de fora, parece liberdade: ninguém depende de você, ninguém te prende a compromisso. Do lado de dentro, a sensação é outra: se eu não for, nada se desorganiza. Se eu faltar, o encontro continua inteiro. Minha presença não é peça que fecha a roda; é acréscimo simpático, facilmente dispensável.

Com o tempo, esse padrão vai pesando. Não é uma dor que grita. É um incômodo que corrói por baixo a vontade de se arrumar, de sair, de ocupar cadeira. Como se a cada gesto o corpo perguntasse, em silêncio: “para quem, exatamente, eu estou indo?”.

O motor silencioso: de eixo a opcional

Boa parte da vida adulta é passada em lugares onde a presença ainda parece central. Em casa, com filhos pequenos ou pais que precisam de ajuda. No trabalho, em que decisões passam pela sua mesa. Em grupos em que você é referência de escuta, de humor, de organização.

Nesses períodos, sentir-se esperado não exige esforço. Alguém precisa que você esteja lá: para abrir a porta, conduzir a reunião, cozinhar o almoço, segurar uma conversa difícil. O pertencimento se apoia no fazer, na utilidade, no papel desempenhado.

Quando os papéis mudam — filhos crescem, trabalho termina ou perde a urgência, círculos se reorganizam —, algo mais sutil também se altera. A pessoa deixa de ser ponto de partida de encontros e passa a ser presença que cabe, mas não é pressuposto.

A frase “não se preocupa, se não puder, tudo bem” começa a aparecer com frequência demais. De início, soa como cuidado com seu cansaço. Depois de repetida, começa a ecoar outra coisa: com ou sem você, a estrutura está garantida.

Devagar, essa soma de episódios vai virando narrativa interna. Não é mais “hoje não dependo de mim”. É “eu, de modo geral, não sou presença necessária em vida nenhuma”. E essa crença passa a orientar, em silêncio, cada escolha de aparecer ou se recolher.

Impacto relacional: disponível, mas encolhido

Quem vive essa forma de solidão, em geral, continua presente. Responde mensagens, atende telefonemas, ajuda quando pedem, faz o que é necessário. A disponibilidade prática se mantém. O que encolhe é a disposição de se colocar como alguém que também espera ser esperado.

Na hora de combinar algo, a frase vem pronta: “qualquer coisa vocês me avisam”. Ao oferecer ajuda, a condicionante aparece: “se faltar alguém, eu entro”. Dificilmente surge um “eu quero ir”, “quero estar”, “me esperem também”.

De fora, isso pode parecer sutileza de quem não quer atrapalhar, delicadeza de espírito, maturidade. Em parte, pode até ser. Mas muitas vezes é também defesa: se eu não me coloco como eixo de nada, não corro o risco de descobrir que, na prática, ninguém ajustaria a rota por minha causa.

Na convivência, essa lógica vai afinando o tom de voz, os gestos, os pedidos. A pessoa passa a opinar menos, rir mais baixo, evitar insistir em qualquer desejo. Vai se especializando em caber em qualquer brecha, ao custo de acreditar cada vez menos que possa, um dia, ser o motivo principal de um encontro.

Olhar mais justo: o gancho vazio e o par de sapatos alinhado

A imagem do cabideiro com um gancho vazio entre dois casacos diz algo sobre esse lugar. O espaço existe, está ali, preparado para sustentar o peso de mais uma peça. Não é falta de estrutura. É falta de alguém que se imagine pertencendo àquela posição do meio, não apenas à borda.

O par de sapatos alinhado sob o banco também fala. Não são sapatos abandonados, gasto nenhum, vida nenhuma. São sapatos em condição de uso, prontos para caminhar, mas parados. Representam uma existência ainda capaz de sair, encontrar, circular, que permanece em espera porque quem a vive deixou de acreditar que sua presença seja aguardada em algum canto.

Nesse cenário, o telefone pode estar cheio de nomes e grupos. As mensagens podem chegar com frequência. Mas, se nenhuma delas carrega essa camada silenciosa de expectativa — “quando você vem?”, “estamos te esperando para começar” —, a sensação íntima é de ser sempre adicional, nunca eixo.

Com o passar dos anos, isso pesa mais. A autonomia tão valorizada vira, às vezes, pretexto para o afastamento: “você é tão independente”, “sei que você não gosta de se sentir preso em compromisso”. O elogio se mistura ao recado: não contamos com você como parte fixa da cena.

Entre o orgulho de dar conta de si e o desejo de ser levado em conta, a pessoa vai tentando equilibrar-se. E, muitas vezes, resolve a conta pelo apagamento: diminui expectativas, podas desejos, adapta o calendário para caber no papel de quem sempre pode ir — mas não é, em quase nenhum lugar, presença cuja falta bagunce o roteiro.

O resultado não é só tristeza. É um certo empobrecimento da própria ideia de existir. Deixar de se sentir esperado em canto nenhum, dia após dia, vai gastando a coragem de se mostrar inteiro. O mundo segue, as conversas seguem, as casas seguem. O cabideiro segue preso à parede. Mas, no gancho vazio e nos sapatos parados, há sempre essa pergunta silenciosa à espreita: quem, hoje, de fato conta comigo para que alguma coisa faça sentido?


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