Infarto em mulheres de 45 a 55 anos: risco maior de morte
Qual é o risco de morte após infarto para mulheres entre 45 e 55 anos?
Mulheres entre 45 e 54,9 anos têm risco significativamente maior de morte após infarto do que homens da mesma faixa etária. Essa é a conclusão de um estudo do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGCS) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), que analisou cerca de cinco mil pacientes internados por infarto agudo do miocárdio na rede pública de Curitiba entre 2008 e 2015. A mortalidade total do grupo estudado foi de 29,5%.
Em resumo: mulheres na meia-idade, entre 45 e 54,9 anos, formam um subgrupo de alta vulnerabilidade cardiovascular. Segundo a pesquisa da PUCPR, elas morrem mais após um infarto do que homens da mesma faixa etária, mesmo quando apresentam menos fatores de risco clássicos. O fenômeno é descrito pelos pesquisadores como paradoxo de gênero e aponta para a necessidade de abordagens clínicas diferenciadas para esse grupo.
O que a matéria mostra
A matéria publicada no Viva.com.br em 26 de abril de 2026, assinada por Bianca Bibiano, traz os principais achados do estudo coordenado pelo médico cardiologista José Rocha Faria Neto, coordenador do PPGCS da PUCPR. A pesquisa identificou que, embora as mulheres costumem sofrer infarto em idades mais avançadas do que os homens, o comportamento do grupo de meia-idade foge ao padrão esperado.
Segundo o texto, a idade média das mulheres no momento do infarto foi de 60,3 anos, enquanto para os homens foi de 65,1 anos, ou seja, aproximadamente cinco anos de diferença. No entanto, as mulheres entre 45 e 54,9 anos apresentaram mortalidade pós-infarto superior à dos homens da mesma faixa, independentemente do histórico médico. A matéria afirma que esse grupo tende a apresentar menos fatores de risco clássicos, o que em tese deveria resultar em melhor prognóstico, mas o resultado observado foi o oposto.
Faria Neto é citado na matéria ao descrever o fenômeno como paradoxo de gênero e ao alertar para a escassez de dados sobre o tema no sistema público de saúde brasileiro. O pesquisador aponta que reduzir essas disparidades exige investimento em educação médica continuada, maior compreensão das barreiras ao tratamento e intervenções voltadas aos determinantes sociais da saúde.
Quais fatores aumentam o risco de mortalidade pós-infarto em mulheres nessa faixa etária?
A matéria aponta três grupos de explicações possíveis: fatores hormonais, já que o período coincide com a perimenopausa e o início da menopausa; aspectos vasculares e psicossociais; e a presença de sintomas atípicos, como fadiga extrema, náuseas e dor na mandíbula, que contribuem para subdiagnóstico e subtratamento.
O texto informa ainda que outros estudos com mulheres brasileiras indicam que obesidade abdominal, diabetes, hipertensão e inflamação sistêmica aumentam significativamente o risco de eventos cardiovasculares e mortalidade. Esses dados são mencionados pelo especialista como contexto adicional, sem integrar diretamente os achados do estudo da PUCPR.
Como a mamografia pode contribuir para a saúde cardiovascular feminina?
A matéria apresenta um achado relevante de outro estudo, divulgado pela European Society of Cardiology com 123.762 mulheres sem doença cardiovascular conhecida. Segundo o texto, a presença de cálcio nas artérias mamárias, identificável por mamografia, está associada a maior risco de infarto, insuficiência cardíaca, AVC e morte.
A médica radiologista Vivian Milani, especialista em mamas da Fundação Instituto de Pesquisa e Estudo de Diagnóstico por Imagem (FIDI), é citada pela matéria ao afirmar que calcificações arteriais mamárias identificadas no exame podem contribuir para o encaminhamento precoce das pacientes para investigação clínica complementar. A relação entre achados mamográficos e doenças cardiovasculares, segundo o próprio texto, ainda está em discussão entre especialistas.
Dados da FIDI referentes ao período de 2019 a 2026 mostram que a maior parte dos exames de imagem é realizada por mulheres em idade adulta, com 7,8 milhões de pacientes, enquanto o público idoso soma 4,9 milhões. O raio-X de tórax aparece com mais de 2 milhões de exames realizados por mulheres e pode indicar sinais indiretos de comprometimento cardiovascular em estágios mais avançados, segundo a matéria.
Por que o sistema de saúde precisa tratar esse grupo de forma diferenciada?
O texto informa que mulheres no início da meia-idade formam um subgrupo de alta vulnerabilidade que exige atenção específica do sistema de saúde. A escassez de dados sobre o tema no Brasil, especialmente no sistema público, é apontada como um problema concreto por Faria Neto.
A saúde cardiovascular feminina exige atenção diferenciada justamente porque os sinais podem ser mais silenciosos e os sintomas do infarto nas mulheres não seguem o padrão clássico amplamente conhecido. Doenças cardiovasculares seguem como a principal causa de morte no Brasil, com cerca de 400 mil óbitos anuais, segundo o Ministério da Saúde, afetando principalmente por infarto e AVC. Dentro desse quadro, os dados do estudo da PUCPR reforçam que mulheres de meia-idade representam um grupo que precisa de maior visibilidade clínica e epidemiológica.
O paradoxo que o sistema prefere não ver
Há uma suposição confortável de que o infarto é coisa de homem velho ou de mulher idosa. O estudo do PPGCS da PUCPR, com cerca de cinco mil pacientes atendidos na rede pública de Curitiba, não veio para confortar. Veio para mostrar que mulheres entre 45 e 54,9 anos morrem mais após um infarto do que homens da mesma faixa etária, mesmo quando apresentam menos fatores de risco clássicos. Os pesquisadores chamam isso de paradoxo de gênero. É uma expressão técnica para um problema que vai além da clínica.
O paradoxo começa nos sintomas. Fadiga extrema, náusea, dor na mandíbula não são os sinais que a cultura associa ao infarto. O infarto da imaginação coletiva vem com dor no peito, suor frio, homem de meia-idade agarrando o paletó. Quando a mulher de cinquenta anos sente a mandíbula doendo e o corpo pesado, ela tende a não reconhecer. O médico que a atende pode não reconhecer. O subdiagnóstico e o subtratamento, mencionados na matéria como fatores que contribuem para esse cenário, não surgem do nada. Surgem de um sistema construído com a fisiologia masculina como padrão.
Há também o momento biológico. A perimenopausa e o início da menopausa coincidem com essa faixa etária. A matéria aponta fatores hormonais, vasculares e psicossociais como possíveis explicações para a maior vulnerabilidade cardiovascular feminina nesse período. A sobreposição entre mudanças hormonais profundas e o momento em que o risco cardiovascular começa a subir cria uma janela de atenção que o sistema de saúde, segundo o próprio estudo, ainda não aprendeu a manejar adequadamente.
O cardiologista José Rocha Faria Neto, coordenador do estudo, afirma que a redução dessas disparidades exige investimento em educação médica continuada, compreensão das barreiras ao tratamento e intervenções voltadas aos determinantes sociais da saúde. A frase é densa. Por trás dela está a pergunta que o campo da saúde cardiovascular feminina ainda não respondeu com a urgência que o dado exige: por que mulheres que deveriam ter melhor prognóstico morrem mais?
A discussão sobre a mamografia como ferramenta auxiliar de rastreamento cardiovascular, trazida pela matéria a partir de um estudo da European Society of Cardiology com mais de 123 mil mulheres, aponta para uma possibilidade: usar exames que as mulheres já realizam para identificar sinais de risco que ainda não produziram sintoma. Calcificações arteriais mamárias associadas a risco de infarto e AVC podem estar visíveis num exame de rotina. Mas a relação, como o próprio texto ressalva, ainda está em discussão. Não é protocolo. É hipótese com evidência crescente.
O que o estudo da PUCPR torna difícil de ignorar é que a saúde cardiovascular feminina na meia-idade não é uma preocupação futura. É presente. E o Brasil, segundo os próprios pesquisadores, ainda tem escassez de dados sobre o tema no sistema público. Isso significa que a invisibilidade do problema não é acidental. É estrutural. E estruturas mudam quando dados chegam ao debate com a clareza que esse estudo traz.
Infarto em mulher de cinquenta anos
não tem a cara que o sistema aprendeu a reconhecer.
Não é dor no peito.
É mandíbula. É náusea. É cansaço que não passa.
Um estudo da PUCPR
com cerca de cinco mil pacientes
mostrou que mulheres entre 45 e 54,9 anos
morrem mais após um infarto
do que homens da mesma faixa etária.
Mesmo com menos fatores de risco.
Mesmo com o sistema achando que estão bem.
Os pesquisadores chamam de paradoxo de gênero.
É uma forma educada de dizer
que o padrão de atenção foi construído para outro corpo.
A mortalidade total do grupo estudado foi de 29,5%.
O infarto segue como uma das principais causas de morte no Brasil,
com cerca de 400 mil óbitos por ano,
segundo o Ministério da Saúde.
Mulheres de meia-idade não estão fora desse número.
Estão dentro, e com risco maior.
Diagnóstico tardio.
Sintoma ignorado.
Corpo tratado como se fosse mais jovem do que o risco sugere.
Cinquenta anos não é o começo da velhice.
Mas pode ser o começo de uma janela de risco
que o sistema ainda não aprendeu a ver.
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