A cena é discreta demais para receber nome: uma mesa, uma caneta, uma agenda aberta. De longe, parece vida em andamento. Horários preenchidos, pequenas anotações, lembretes de pagamento, mercado, retorno médico, café rápido com alguém, idas e vindas. Tudo organizado para que o dia passe. No centro disso tudo, porém, existe um lugar que não aparece no papel: o silêncio interno de quem já não sabe muito bem por que está acordando.
Não é preguiça, nem falta do que fazer. Muitas vezes é justamente o contrário: uma habilidade afinada de construir ocupação, de enfileirar tarefas, de encontrar sempre mais uma coisa para resolver. O dia fica cheio. A vida, não.
Quando o dia transborda e, por dentro, nada acontece
Há uma diferença funda entre estar sempre ocupado e sentir que algo está sendo de fato vivido. Quem olha de fora enxerga eficiência, disciplina, energia. Quem está por dentro sente sobretudo cansaço e uma espécie de deserto mudo, que nenhuma corrida ao banco ou ao supermercado consegue molhar.
Esse descompasso costuma se acentuar em épocas em que os papéis antigos começam a desmanchar. Aposentadoria, filhos que saem de casa, a morte de alguém, o fim de um casamento, a mudança de cidade. A rotina que antes vinha meio pronta, amarrada ao relógio do trabalho ou às necessidades dos outros, de repente se abre num espaço grande demais. O que antes era correria virou tempo.
Nessa fresta, o vazio aparece. Não como uma tragédia escandalosa, mas como um estranhamento miúdo: acordar sem ter certeza do para quê, cozinhar para um prato só, almoçar em silêncio, não ser mais esperado em lugar nenhum. O corpo então se agarra ao que sabe: preencher horários, criar pequenos compromissos, responder mensagens, aceitar qualquer deslocamento que ajude a atravessar a tarde.
O vazio não é ausência de atividades. É a percepção de que, se todas essas atividades fossem retiradas do dia, talvez quase nada de si mesmo permanecesse ali.
O esforço invisível de não encarar o silêncio
Por trás da agenda cheia, há um trabalho silencioso: evitar certos encontros com a própria vida. Não o encontro grandioso, de respostas definitivas, mas o encontro simples de sentar em uma cadeira sem televisão, sem celular, sem tarefa, e sentir o que ficou depois de tantas mudanças.
Muita gente descobre que não sabe mais ficar sozinha com o próprio tempo. O vazio traz perguntas que doem: quem sou agora que não sou mais “de tal lugar”, “de tal função”, “a mãe de”, “o chefe de”? Do que ainda gosto, quando ninguém me pede nada? O que desejo, quando a urgência não vem de fora?
Essas perguntas não precisam ser respondidas em voz alta, mas a simples possibilidade de que elas surjam torna o silêncio um território perigoso. A rotina, então, vira uma espécie de guarda-costas. Sair de manhã para resolver qualquer coisa, puxar um telefonema que não precisava acontecer naquele dia, inventar uma ida à rua para comprar um item que poderia esperar. Tudo ajuda a impedir que o rosto dê de frente com esse espelho mais nu.
Há também uma fidelidade ao conhecido. Tarefas repetidas, trajetos previsíveis, conversas circulares. Em vez de descansar, o tempo vira algo a ser domado, empurrado, rabiscado até o fim. A sensação de estar sempre fazendo alguma coisa dá um consolo provisório: enquanto se está em movimento, não se cai.
Quando os vínculos se tornam horários e não presenças
Essa forma de viver o dia mexe, sem alarde, com os vínculos. As relações ficam encaixadas entre compromissos, encaixotadas em horários, reduzidas a “vamos marcar” que nunca encontram espaço verdadeiro. Há encontros, sim. Mas, muitas vezes, são encontros que aliviam mais a ansiedade do relógio do que a fome de presença.
Com a casa mais vazia e os papéis sociais rareando, muitos laços que antes eram dados como certos vão se afrouxando. Colegas se distanciam quando o trabalho termina, vizinhos trocam de rua, a família segue outros fusos. A pessoa continua rodeada de contatos, mas já não se reconhece em quase nenhum lugar como alguém necessário. A agenda tenta, então, produzir uma espécie de pertencer artificial: o compromisso vira prova de existência.
Ao mesmo tempo, quem vê de fora essa figura sempre atarefada tende a supor que está “bem ocupada”, “cheia de coisas”, “super ativa”. Pouca gente enxerga que, por trás das idas à farmácia ou das longas manhãs organizando papéis, há uma tentativa sincera de não escorregar para uma solidão que assusta. O resultado é um desencontro profundo: o outro acredita que ali não há falta, e quem vive aquilo sente vergonha de admitir que, apesar de tudo, sente-se sozinho.
Esse pacto silencioso também interfere no jeito de estar com quem ainda permanece por perto. A presença pode ficar ansiosa, inquieta, como se houvesse sempre algo a ser feito depois. Até numa conversa íntima, o pensamento corre para a lista de pendências. E, quando o encontro termina, volta a mesma impressão: mais um dia passou, mas aquilo que mais dói continuou intocado.
Olhar com mais verdade para esse tipo de vazio
Não há mérito em sofrer calado, nem culpa em se proteger do que fere. Preencher o tempo, nesses casos, não é sinal de superficialidade, e sim um recurso humano diante de uma vida que mudou sem convite. Ao invés de condenar essa agenda lotada, talvez caiba reconhecê-la pelo que ela é: um jeito engenhoso de manter o chão minimamente firme enquanto o sentido se embaralha.
Também é injusto resumir essa realidade à palavra “solidão” como se ela explicasse tudo. Há quem esteja cercado de gente e, ainda assim, experimente essa vida vazia por dentro. O que falta, muitas vezes, não é companhia nem atividade, mas a sensação de que alguma parte essencial de si encontra lugar no mundo atual. De que existe, ainda, algum pedaço de futuro que conversa com o desejo.
Nomear essa diferença entre dia cheio e vida vazia não resolve a distância, mas muda o modo de se olhar. Em vez de se enxergar como “dramático” ou “inútil”, a pessoa começa a perceber que está atravessando uma fase em que as formas antigas de se sentir vivo se desfizeram, e as novas ainda não foram encontradas. A agenda, nesse meio-tempo, vira um abrigo improvisado.
Talvez o ponto mais honesto esteja aí: não no gesto heroico de abandonar todas as tarefas, nem no orgulho de manter tudo sob controle, mas na capacidade de admitir, nem que seja para si mesmo, que há um espaço em branco no meio do dia que nenhuma ocupação consegue alcançar. E que esse espaço não é defeito. É apenas o contorno daquilo que, por enquanto, permanece sem nome.
Entre o primeiro compromisso da manhã e o último risco da noite, permanece essa verdade discreta: nem todo cansaço vem de fazer demais; alguns nascem justamente de viver de menos.
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