Qual filme brasileiro na Netflix transforma comida, desejo e violência em obra-prima?
O filme é Estômago, longa-metragem de estreia do diretor curitibano Marcos Jorge, lançado em 2007 e disponível na Netflix. Coprodução brasileiro-italiana, o filme usa a gastronomia como fio condutor de uma trama que navega entre comédia, sobrevivência, desejo e violência com uma precisão pouco comum no cinema nacional.
A narrativa acompanha Raimundo Nonato, personagem do ator João Miguel, um nordestino saído da Paraíba em busca de vida melhor no Sul do país. Sem dinheiro nem perspectiva clara, ele descobre que seu talento na cozinha é moeda de troca e, ao mesmo tempo, instrumento de ascensão e de conflito.
A comida como linguagem de poder
Em Estômago, comer não é um ato inocente. Cada prato carrega uma relação de força. Raimundo começa lavando louça em troca de não apanhar, dorme num cubículo nos fundos de uma birosca sem salário e sobe na vida graças ao seu dom culinário, que chama a atenção de Giovanni, personagem de Carlo Briani, dono de um restaurante sofisticado.
É Giovanni quem o apresenta à alquimia das iguarias requintadas, incluindo um romeu-e-julieta rebatizado de Anita e Garibaldi, em homenagem a heróis da Revolução Farroupilha e da unificação da Itália, com o queijo minas substituído por gorgonzola e o preço multiplicado por dez. A cena resume bem o espírito do filme: arte, esperteza e humor negro servidos no mesmo prato.
O anti-herói que se move à revelia da própria vontade
Raimundo é um anti-herói em sentido preciso. As coisas não acontecem por sua iniciativa, mas a reboque dela. Há uma passividade ativa no personagem que João Miguel conduz com rara economia expressiva. Ao longo da história, ele é chamado de Parmalat, por ser muito claro, e de Alecrim por Bujiú, personagem de Babu Santana, líder de uma trupe num ambiente que se revela muito mais hostil que a birosca de Zulmiro.
A narrativa é construída em analepse, com cenas que iluminam o passado enquanto o presente se fecha ao redor do protagonista. A fotografia de Toca Seabra intensifica esse peso: os enquadramentos são descritos pela crítica como lúgubres, capazes de transformar ambientes comuns em espaços de opressão.
Humor negro e desconforto intencional
O diretor Marcos Jorge recorre a um humor que, como ele mesmo sabe, não agrada a todos. Há na obra ecos das sátiras do cineasta italiano Marco Ferreri (1928-1997), com sexo, glutonaria e violência coexistindo sem moderação aparente. É um humor que incomoda porque não poupa ninguém, nem o espectador.
O roteiro foi adaptado do conto Presos pelo Estômago, do livro Pólvora, Gorgonzola e Alecrim, de Lusa Silvestre. Marcos Jorge assina o roteiro ao lado de Silvestre, Cláudia da Natividade e Fabrizio Donvito.
Um filme que chegou na hora certa
Estômago estreou em um momento particularmente fértil do cinema brasileiro, anos depois do desmonte da Embrafilme e da chamada retomada do cinema nacional. No mesmo período, despontaram obras como O Céu de Suely (2006), de Karim Aïnouz, e Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), de Marcelo Gomes, filme em que João Miguel também protagonizou.
A recepção positiva do público consolidou Marcos Jorge como um realizador a ser acompanhado e estabeleceu o filme como referência do que o cinema nacional é capaz de produzir quando tem liberdade criativa e disposição para o risco.
Para quem ainda não assistiu, Estômago está disponível na Netflix. O aviso é o mesmo que acompanha o filme desde o lançamento: não é para todos os gostos. E essa é exatamente a razão para colocá-lo na fila.
O que a comida tem a ver com poder? Estômago sabe a resposta
Existe uma razão para a expressão popular dizer que a melhor maneira de conquistar alguém passa pelo estômago. Comer é um ato social, político e simbólico muito antes de ser uma necessidade fisiológica. O cinema brasileiro raramente explorou esse terreno com a coragem e a precisão que Marcos Jorge demonstrou em Estômago, lançado em 2007 e disponível hoje na Netflix.
O filme acompanha Raimundo Nonato, nordestino da Paraíba que chega ao Sul sem dinheiro e sem plano, e descobre que seu talento na cozinha é a única moeda que tem valor real naquele mundo. Mas Estômago não é uma história de superação. Não há pedagogia, nem lição de vida embalada para consumo fácil. O que há é uma observação cruel e precisa sobre como o talento, quando exercido sem autonomia, se transforma em servidão disfarçada de oportunidade.
Raimundo sobe na vida pelo prato. E o prato, em Estômago, carrega o peso de todas as relações que o cercam: com Zulmiro, o comerciante sem escrúpulos; com Giovanni, o restaurateur refinado que sabe quanto vale um bom cozinheiro e quanto custa não pagar por isso; com Íria, a prostituta que troca seus encantos por comida e guarda seus afetos com a mesma lógica profissional. Comer e desejar se confundem. Saciar e controlar também.
A força do filme está justamente em não separar essas dimensões. A fotografia de Toca Seabra deixa os ambientes pesados, como se a luz fosse racionada da mesma forma que o salário de Raimundo. A narrativa em analepse constrói o presente a partir de fragmentos do passado, e quando o desfecho chega, tudo faz sentido de um jeito que incomoda, porque o espectador percebe que, na verdade, sabia o tempo todo.
Há na obra o espírito das sátiras do italiano Marco Ferreri: sexo, gula e violência sem moderação aparente. Mas Marcos Jorge faz isso com humor negro e inteligência sobre o Brasil, sobre a mobilidade social que promete muito e entrega pouco, sobre a exploração que se disfarça de reconhecimento. Raimundo não é herói nem vítima passiva. É um anti-herói que se move no limite entre o que aguenta e o que decide fazer quando chega ao fim da paciência.
Para um público que viveu o suficiente para reconhecer esse tipo de jogo, o filme funciona como um espelho incômodo. Não porque fala de envelhecimento, mas porque fala de sobrevivência, de ambição, de como o talento pode ser ao mesmo tempo a maior virtude e a maior armadilha de uma pessoa. Isso não tem idade. Tem experiência.
Um homem chega ao Sul sem dinheiro.
Sua única moeda: saber cozinhar.
Com isso, consegue cama, trabalho, respeito.
E, no final, aprende o que acontece quando alguém decide cobrar o que lhe é devido.
Estômago (2007) está na Netflix.
Não é para todos os gostos.
Essa é exatamente a razão para assistir.
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