Cultura e Lazer 24 de maio de 2026

Jorge Drexler: ser feliz é um ato de resistência, e a música prova isso

O compositor uruguaio Jorge Drexler fala sobre raízes, candombe, Gonzaguinha e a ideia de que viver sem vergonha de ser feliz é, hoje, uma forma de resistência.

O que Jorge Drexler diz sobre ser feliz e por que isso é um ato de resistência?

Jorge Drexler tem uma resposta clara para essa pergunta, e ela começa com uma canção de Gonzaguinha. O compositor uruguaio, um dos grandes nomes da música ibero-americana contemporânea, escolheu o clássico “O Que É o Que É?” para traduzir ao espanhol e levar a uma das rodas de samba mais tradicionais do Rio de Janeiro, o Samba do Trabalhador. O resultado se chama “Qué Será Que Es?”, e o gesto tem peso.

A letra de Gonzaguinha diz “viver e não ter a vergonha de ser feliz”. Drexler tomou essa frase como manifesto. Em um mundo com conflitos intensos e polarização crescente, ele defende que celebrar a felicidade é uma necessidade e, ao mesmo tempo, um ato de resistência.

O álbum Taracá e o retorno às raízes uruguaias

Drexler completou 60 anos em 2024 e lançou Taracá, álbum inspirado no candombe, ritmo tradicional do Uruguai reconhecido como Patrimônio Imaterial da Humanidade. O disco nasceu de um processo pessoal intenso: após 30 anos morando na Espanha e depois de perder os dois pais, o artista sentiu a necessidade de reconectar com suas raízes.

Durante esse retorno, encontrou um grupo chamado Rueda de Candombe, que adaptou o ritmo para um formato próximo da roda de samba brasileira. Foi esse encontro que definiu o caminho sonoro do disco.

A conexão de Jorge Drexler com o Brasil

Drexler fala português com fluência e tem uma relação profunda com a música brasileira. Em 2003, Paulinho Moska o convidou para vir ao Rio de Janeiro, e desde então o artista construiu colaborações com um número expressivo de músicos brasileiros. Ele conta que é mais fácil citar com quem ainda não trabalhou do que listar com quem já colaborou.

Em 2005, Drexler ganhou o Oscar de Melhor Canção Original com “Al Otro Lado del Río”, música composta para o filme Diários de Motocicleta, do diretor brasileiro Walter Salles. A vitória foi celebrada no Brasil como uma conquista coletiva. Décadas depois, quando o filme Ainda Estou Aqui, também de Salles, venceu o Goya de Melhor Filme Ibero-Americano, foi Drexler quem subiu ao palco para ler o discurso do diretor.

A adaptação de “O Que É o Que É?” foi feita com autorização da família de Gonzaguinha. Drexler a descreve como uma obra de engenharia de canção perfeita: estrofes em tonalidade menor, reflexivas, que desembocam em um refrão feliz e celebratório.

Bad Bunny, reggaeton e a expansão da língua espanhola

Drexler é fã assumido de Bad Bunny, a quem chama de “gênio”. Durante a pandemia, gravou uma versão de “Yo Perreo Sola” em milonga, só com violão, e mostrou ao artista porto-riquenho, que aprovou. A versão virou parte do repertório ao vivo de Drexler.

Para o uruguaio, Bad Bunny representa uma concentração rara de talento, comparável ao que aconteceu na música popular brasileira nos anos 1960 com Chico Buarque, João Gilberto, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Drexler observa que, graças ao reggaeton e à logística de distribuição norte-americana, a língua espanhola chegou a mais lugares do que em qualquer outro momento da história, nem mesmo na época do Dom Quixote o idioma tinha esse alcance.

Ele também declara admiração pelo funk carioca, citando o minimalismo do gênero como uma qualidade artística legítima. Para Drexler, o problema não está na sexualidade da música, mas na falta de empatia.

Sonhos ainda por realizar

Drexler revela que sonha em lançar um álbum em português, mas não de forma mimética. Pensa em trazer sua visão para o idioma, com milongas e candombes cantados em português, da mesma forma que Caetano Veloso fez com Fina Estampa. Dois nomes aparecem como colaborações ainda desejadas: Gilberto Gil e Maria Bethânia.

Por que essa conversa importa?

Drexler não está apenas falando de música. Está falando de como a cultura pode funcionar como resposta ao desânimo coletivo. A escolha de traduzir Gonzaguinha, de levar o candombe ao Samba do Trabalhador, de cobrir Bad Bunny com um violão, de ler o discurso de Walter Salles no Goya: cada gesto desses é uma afirmação de que fronteiras culturais existem para ser cruzadas com respeito e curiosidade.

E no centro de tudo, a frase que Gonzaguinha escreveu décadas atrás e que Drexler escolheu carregar para o mundo em espanhol: viver sem ter vergonha de ser feliz.

A felicidade como gesto político: o que Jorge Drexler nos ensina ao cruzar fronteiras com uma canção

Jorge Drexler chegou ao Samba do Trabalhador, uma das rodas de samba mais tradicionais do Rio de Janeiro, para cantar um clássico de Gonzaguinha em espanhol. Ele sabia que havia risco naquilo. Entrar em território patrimonialmente carregado com uma versão estrangeira poderia soar como intromissão. Mas ele foi, e a catarse aconteceu.

A canção escolhida foi “O Que É o Que É?”, e o verso que guiou tudo foi este: viver e não ter a vergonha de ser feliz. Drexler não escolheu essa música por acidente. Escolheu porque, nesse momento do mundo, celebrar parece um ato suspeito. A polarização, os conflitos, o peso do noticiário criam uma pressão silenciosa para que a alegria seja contida, adiada ou justificada. Drexler recusou essa pressão e chamou a recusa pelo nome: ato de resistência.

Isso não é ingenuidade. Drexler nasceu em 1964 e viveu a ditadura uruguaia nos anos 1970. O clipe que lançou para sua versão da canção de Gonzaguinha usa filmes em Super-8 que seu pai gravou entre 1973 e 1978, período de opressão, quando adultos tentavam manter as crianças fora do ambiente de medo. A felicidade, ali, era uma estratégia de proteção. Hoje, ele a converte em estratégia cultural.

O álbum Taracá também nasce desse lugar. Com 60 anos, morando há 30 na Espanha, Drexler sentiu a necessidade de voltar. A perda dos pais acelerou isso. Ele descreve dois processos que levam à reconexão com raízes: ter um filho e perder os pais. Nos dois casos, algo essencial é perturbado e exige resposta. A resposta de Drexler foi um disco de candombe, ritmo uruguaio reconhecido como Patrimônio Imaterial da Humanidade, gravado com um grupo que havia levado esse ritmo para o formato de roda de samba brasileira.

A trajetória de Drexler no Brasil é ela mesma uma história de fronteiras cruzadas com cuidado. Não entrou pelo caminho da indústria, como Shakira e Bad Bunny fizeram pelo norte. Entrou pelo sul, pelos músicos, quando Paulinho Moska o chamou ao Rio de Janeiro em 2003. Desde então, construiu um repertório de colaborações que hoje é difícil de enumerar. Ganhou o Oscar de Melhor Canção Original em 2005, por uma música em um filme de Walter Salles, e a vitória foi celebrada no Brasil como se fosse coletiva. Vinte anos depois, quando Salles venceu o Goya com Ainda Estou Aqui, foi Drexler quem subiu ao palco para ler o discurso do diretor.

Essa fidelidade ao longo do tempo diz algo sobre o que Drexler valoriza: a relação humana construída devagar, com respeito ao que é de outro. O mesmo princípio aparece na admiração por Bad Bunny. Para Drexler, o porto-riquenho é um gênio comparável aos músicos brasileiros dos anos 1960. Não hesita em dizer isso. E foi além: gravou uma versão de “Yo Perreo Sola” em milonga, mostrou ao próprio Bad Bunny, e o artista aprovou. A versão entrou no repertório ao vivo.

Drexler ainda sonha em gravar um álbum em português, não por mimética, mas trazendo sua própria voz para o idioma, como Caetano fez em Fina Estampa. Gilberto Gil e Maria Bethânia aparecem como colaborações desejadas. São sonhos de quem ainda tem muito a fazer.

O que a trajetória de Drexler oferece não é uma lição sobre envelhecimento. Oferece algo mais útil: o exemplo de um artista maduro que navega entre tradição e contemporaneidade sem nostalgia paralisante e sem ansiedade de atualização. Ele se permite admirar Bad Bunny e cobrir o funk carioca ao mesmo tempo em que traduz Gonzaguinha e registra o candombe. A maturidade, aqui, é repertório em movimento, não arquivo empoeirado.

E no centro de tudo, a frase que Gonzaguinha escreveu e que Drexler escolheu levar para o mundo em espanhol: viver sem ter vergonha de ser feliz. Em tempos difíceis, isso ainda precisa ser dito. E cantado.


Gonzaguinha escreveu:
viver e não ter a vergonha de ser feliz.

Jorge Drexler traduziu para o espanhol.
levou para uma roda de samba no Rio.
com permissão da família.
com candombe no ritmo.
com respeito no gesto.

Ele sabia que dava medo.
Entrar em território patrimonial com uma versão estrangeira.
Mas foi.

E chamou isso pelo nome:
um ato de resistência.

Em um mundo onde a alegria parece precisar de justificativa,
Drexler decidiu cantar.

Simplesmente cantar.


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