Como um bailarino do Vidigal chegou ao posto mais alto do The Australian Ballet?
Davi Ramos nasceu e cresceu no Vidigal, comunidade da Zona Sul do Rio de Janeiro. Hoje, ele ocupa o posto de Principal Artist do The Australian Ballet, uma das companhias de dança clássica mais tradicionais da Austrália. Com essa conquista, tornou-se o primeiro homem preto e brasileiro a alcançar esse nível dentro da companhia australiana.
A história não começou com o balé. Antes das sapatilhas, havia a capoeira. Foi durante esse período que uma professora percebeu o potencial do menino e sugeriu que ele experimentasse aulas de dança clássica. A mãe levou o filho para estudar no Lyceu Escola de Dança, em Botafogo, no Rio de Janeiro. O que era um experimento virou profissão.
O momento em que o balé deixou de ser atividade e virou projeto de vida
Por volta dos 15 anos, Davi conta que passou a enxergar a dança de outra forma. “Ali deixou de ser só uma atividade e virou um objetivo. Eu percebi que, através da dança, eu podia construir um futuro completamente diferente”, afirmou o bailarino.
Foi também nessa fase que nasceu o sonho de alcançar o posto de Principal Artist, considerado o nível mais alto dentro de uma companhia de balé. Mesmo vindo de uma realidade distante dos grandes centros da dança clássica mundial, ele nunca abandonou esse objetivo.
Uma carreira construída entre continentes
A trajetória internacional de Davi passou por Londres e Amsterdã, e incluiu uma passagem pelo Dutch National Ballet antes de chegar ao The Australian Ballet. Cada etapa foi parte de uma construção artística e pessoal que culminou no cargo mais alto da companhia onde hoje atua.
Ao longo desse caminho, ele relata que precisou lidar com pressões específicas por ocupar ambientes onde raramente via pessoas parecidas com ele. A sensação, segundo o próprio Davi, era de precisar estar constantemente impecável para ser reconhecido da mesma forma que outros bailarinos.
Representatividade dentro de um ambiente historicamente pouco diverso
Para Davi, a conquista ultrapassa o reconhecimento individual. “Ser o primeiro homem preto e brasileiro a chegar a esse lugar dentro do The Australian Ballet mostra que mudanças são possíveis mesmo em um ambiente historicamente pouco diverso”, declarou.
Ele mantém uma relação próxima com o Vidigal e afirma carregar as origens com orgulho. “Foi lá que eu aprendi a lutar, a sonhar e a não desistir”, disse.
Uma referência para crianças negras e periféricas
Vivendo na Austrália e ocupando um dos cargos mais prestigiados da dança clássica mundial, Davi afirma que quer ser referência para crianças negras e periféricas que sonham em ocupar espaços historicamente elitizados. “Quero que essas crianças olhem para mim e pensem: ‘se ele conseguiu, talvez eu também consiga'”, declarou.
A família, especialmente a mãe, teve papel central em toda a trajetória, assim como professores e mentores que acompanharam a formação artística e pessoal do bailarino ao longo dos anos.
O corpo que não estava previsto naquele palco
Existe um tipo de conquista que carrega mais de uma história. A de Davi Ramos, bailarino brasileiro nascido no Vidigal que se tornou Principal Artist do The Australian Ballet, é uma delas. Na superfície, é a trajetória de um artista talentoso. Por dentro, é também a história de um corpo que o balé clássico, ao longo de séculos, não imaginou ali.
A dança clássica tem uma relação complicada com a diversidade. O repertório, a estética, os critérios de seleção e os postos de prestígio dentro das grandes companhias internacionais carregam uma herança de exclusão racial que raramente é discutida com clareza. Quando Davi afirma que precisava estar constantemente impecável para ser reconhecido da mesma forma que outros bailarinos, ele não está descrevendo apenas pressão profissional. Está descrevendo algo que quem nunca precisou provar sua adequação numa sala de outro modo não sente da mesma forma.
O caminho até o topo começou de forma quase acidental. Capoeira na infância, uma professora que enxergou potencial, uma mãe que levou o filho para o Lyceu Escola de Dança em Botafogo. Desse encaminhamento aparentemente casual nasceu uma carreira que passaria por Londres, Amsterdã, pelo Dutch National Ballet e, finalmente, pelo The Australian Ballet, onde Davi ocupa hoje o posto mais alto possível dentro de uma companhia de balé.
Há algo significativo no fato de ser o primeiro. Não porque a história dependa disso para ter valor, mas porque o primeiro revela onde estávamos antes. Ser o primeiro homem preto e brasileiro num posto desses, numa companhia desse porte, não é um dado menor. É um dado que diz algo sobre o balé e sobre o quanto espaços de prestígio artístico são também espaços de pertencimento social disputado.
Para adultos que acompanham a cultura brasileira há décadas, essa história tem uma textura particular. Ela se insere numa conversa mais longa sobre o que o Brasil produz artisticamente, sobre como esse talento circula pelo mundo e sobre quem ocupa, ou não, os palcos mais reconhecidos. A trajetória de Davi não é isolada, mas ela tem um peso próprio. E ele mesmo não abre mão das origens. Carregar o Vidigal, na fala do bailarino, não é nostalgia. É estrutura de caráter.
O que essa história oferece ao olhar adulto e atento é menos um conto de superação e mais uma questão aberta: quantas trajetórias como essa não chegaram até aqui por falta da professora que percebe, da mãe que leva, da escola que existe? O talento não é raro. As condições para desenvolvê-lo, sim. E esse é o ponto que permanece depois da leitura.
Começou com capoeira.
Uma professora viu algo diferente.
A mãe levou para o Lyceu.
Ai está o momento em que uma vida muda de rumo.
Davi Ramos cresceu no Vidigal.
Hoje é Principal Artist do The Australian Ballet.
O primeiro homem preto e brasileiro a ocupar esse posto.
Ele conta que, aos 15 anos, o balé parou de ser atividade e virou objetivo.
“Através da dança, eu podia construir um futuro completamente diferente.”
Passou por Londres, Amsterdã, Dutch National Ballet.
Chegou ao topo.
E carrega o Vidigal com orgulho.
“Foi lá que eu aprendi a lutar, a sonhar e a não desistir.”
Algumas histórias mudam de eixo num detalhe pequeno.
Uma professora que presta atenção.
Uma mãe que acredita.
E um menino que não descarta o sonho.
Fonte / referência: matéria original
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