O que aconteceu com o Parque da Água Branca após a concessão privada?
Há pouco mais de três anos, o Parque da Água Branca, na zona oeste de São Paulo, foi entregue à Reserva Novos Parques Urbanos em uma concessão de 30 anos, junto com os parques Villa-Lobos e Cândido Portinari. O valor do contrato foi de pouco mais de R$ 60 milhões. Desde então, o parque passou por transformações profundas que dividem frequentadores, especialistas e o próprio sistema jurídico da cidade.
O que mudou dentro do parque
Um dos eventos mais visíveis é a Casacor, mostra de decoração que ocupa o parque por metade do ano. Em 2025, a instalação começou no fim de março. A desmontagem só deve terminar em setembro. Obras acontecem inclusive à noite, com barulho e movimentação de material que chegam a atrapalhar o serviço de equoterapia realizado no local.
Frequentadores denunciam que parte da instalação da Casacor está em área de proteção permanente (APP). Uma academia ao ar livre também teve seu espaço deslocado para uma trilha de angicos, igualmente em APP.
O Museu Geológico (Mugeo), que ficava dentro do parque, foi fechado antes da concessão e transferido para o Instituto Biológico, na Vila Mariana, como reserva técnica, sem visitação ao público. O imóvel passou a funcionar como escritório da responsável pela Casacor. O Aquário do parque permanece fechado até hoje, assim como o bosque de leitura.
O caso da Fazenda Churrascada
Outro ponto de controvérsia é a Fazenda Churrascada, que teria sido autorizada como evento temporário de seis meses, mas acabou com um contrato de locação de 54 meses. Regina Lima, ex-conselheira e integrante de movimento de frequentadores do parque, compara o modelo ao de um shopping: “A concessionária virou uma grande imobiliária.”
A ação civil pública e a investigação do MPSP
Uma ação civil pública questiona a instalação da Casacor em 2025. A alegação principal é que o evento foi executado sem as licenças obrigatórias, tanto ambientais quanto urbanísticas e patrimoniais. O advogado Roberto Cosso, que acompanha o caso, aponta supressão de vegetação nativa, estruturas em APP e cercamento de áreas públicas como evidências do problema.
Em maio de 2025, a juíza da 5ª Vara da Fazenda Pública determinou que a prefeitura e os responsáveis informem se houve assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) e se o estudo histórico do paisagismo e da vegetação do parque já foi iniciado. O Ministério Público de São Paulo também vai investigar a concessão de parques estaduais na cidade.
O que diz a concessionária
Questionada pela reportagem do Metrópoles, a Reserva Novos Parques Urbanos nega que o parque foi loteado entre diversas empresas. A concessionária afirma respeitar a vocação do local e as questões ambientais.
Por que isso importa para quem frequenta o parque
O Parque da Água Branca é um dos principais espaços de lazer gratuito da zona oeste de São Paulo. Usado para caminhadas, atividades ao ar livre, equoterapia e acesso à cultura, o parque concentra um público diverso que depende desse tipo de espaço público para parte importante de sua rotina. As mudanças em curso alteram não apenas a paisagem, mas o acesso cotidiano a um bem que era, até recentemente, plenamente disponível.
O parque que virou imobiliária
Existe uma diferença entre administrar um bem público e explorá-lo. A fronteira entre as duas coisas costuma ser tênue no papel e muito clara na prática. No caso do Parque da Água Branca, essa fronteira parece ter sido atravessada com passos largos.
Três anos após a concessão à Reserva Novos Parques Urbanos, o parque da zona oeste de São Paulo apresenta um cenário que seus frequentadores mais antigos reconhecem com dificuldade. O Museu Geológico saiu e seu espaço virou escritório privado. O Aquário fechou. O bosque de leitura está inacessível. Uma churrascaria que tinha autorização temporária de seis meses fixou raízes por 54. E um evento de decoração ocupa parte relevante do parque por metade de cada ano, com obras que seguem inclusive à noite.
A Casacor não é um evento qualquer. É uma das maiores mostras de decoração do Brasil. E ela se instalou, segundo uma ação civil pública em curso, sem as licenças ambientais, urbanísticas e patrimoniais exigidas. Parte das estruturas ocupa áreas de proteção permanente. A equoterapia, serviço social que beneficia crianças, passou a conviver com barulho de obras e a tensão de cavalos assustados.
Regina Lima, ex-conselheira e voz ativa entre os frequentadores do parque, sintetizou o modelo com uma imagem simples e precisa: a concessionária virou uma grande imobiliária. Não há muito como contestar a descrição. Quando o retorno financeiro de uma concessão pública vem principalmente da locação de espaços para eventos e empresas, a lógica não é mais a de um parque urbano. É a de um terreno bem localizado na parte mais rica da cidade.
E a localização importa. A zona oeste de São Paulo concentra renda, infraestrutura e acesso. O Água Branca está no miolo dessa região. Sua conversão gradual em espaço de consumo e exposição de marcas não é neutra. Ela favorece quem pode pagar para estar dentro do evento e empurra para fora quem usava o parque como caminho, como sombra, como lugar de rotina.
O Ministério Público vai investigar. A Justiça já pediu informações. Uma ação civil pública tramita. Isso significa que o debate não acabou, mas também não garante que o parque volte a ser o que era. Significa que alguém ainda discute em voz alta o que um espaço público deve ser, para quem existe e quem tem o direito de decidir sobre ele.
Essa é a tensão real da pauta. Não é uma disputa técnica sobre licenças. É uma pergunta sobre a cidade: quem tem direito ao espaço comum quando o espaço comum passa a ter valor de mercado?
O museu fechou.
O aquário fechou.
O bosque de leitura fechou.
A churrascaria ficou.
O evento de decoração ficou.
O escritório privado ficou.
O Parque da Água Branca ainda existe.
O que era o parque, vai sendo negociado.
Fonte / referência: matéria original
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