Quais são os sete discos de Miles Davis que mostram suas principais fases musicais?
Miles Davis nasceu a 26 de maio de 1926 e, em 65 anos de vida, ajudou a redefinir — por vezes radicalmente — o significado da palavra jazz. Sua discografia nuclear passa de 60 discos. A discografia ampliada, contando material inédito lançado após sua morte em 1991, reedições remasterizadas e sessões integrais reconstituídas, chega a várias centenas de títulos. Para quem não dispõe de tempo para se embrenhar nesse labirinto, a seleção de sete discos que se apresenta aqui oferece uma entrada segura e honesta nas principais fases de um músico que passou a vida liderando revoluções.
O começo pelo bebop: aprendizado com Charlie Parker
Miles Davis chegou a Nova York vindo de St. Louis para estudar na Juilliard School of Music. Gravou sua primeira sessão em 24 de abril de 1945, com apenas 18 anos, sob a liderança de Herbie Fields. Poucos meses depois, Charlie Parker o convidou para substituir Dizzy Gillespie em seu quinteto. O bebop que Parker praticava era veloz, anguloso e entrecortado por reviravoltas inesperadas — esteticamente o oposto do registro distendido e melancólico pelo qual Miles ficaria conhecido. Ainda assim, o estágio foi decisivo. Uma ideia de seus resultados pode ser encontrada na compilação Complete Savoy and Dial Recordings, com gravações de Miles como sideman entre 1945 e 1946.
Birth of the Cool (1949-50, Capitol)
O primeiro grande marco da carreira própria de Miles. Três sessões gravadas em 1949 e 1950 foram parcialmente lançadas em single na época e só chegaram reunidas ao público em 1957, com o título Birth of the Cool. O noneto reunido para essas gravações incluía Gerry Mulligan, Lee Konitz e Gil Evans entre os colaboradores, com Mulligan e Evans responsáveis pela maior parte dos arranjos. O produtor Pete Rugolo, da Capitol, havia ouvido a formação ao vivo em setembro de 1948 no clube Royal Roost — e apostou. A reedição de 1998, intitulada The Complete Birth of the Cool, acrescentou ao disco original uma gravação daquela apresentação ao vivo. O rapaz que entrara no jazz pela porta do bebop de Charlie Parker assinava aqui a sua primeira obra-prima e fundava o cool jazz.
Miles Davis and the Modern Jazz Giants (1954 e 1956, Prestige)
Após o auspicioso início, a vida de Miles tomou caminhos difíceis. O vício da heroína devorou-lhe as finanças, bloqueou oportunidades de atuação e inibiu a inspiração. O contrato com a Prestige, assinado em 1951, devolveu-lhe alguma direção, mas a heroína continuou a embotá-lo. No início de 1954, Miles conseguiu se libertar da dependência. Na véspera do Natal daquele ano, liderou uma sessão que anunciava o retorno à primeira divisão, ao lado de Thelonious Monk, Milt Jackson, Percy Heath e Kenny Clarke. A sessão foi publicada inicialmente em dois LPs de 10 polegadas e só em 1959 reunida num LP de 12 polegadas — com o acréscimo incongruente de uma sobra do quinteto com John Coltrane gravada em 1956 — e batizada como Miles Davis and the Modern Jazz Giants. Foi a primeira e a última vez que Miles gravou com Monk: as personalidades altamente idiossincráticas dos dois gênios entraram em conflito aberto.
Os quartetos da Prestige: Cookin’, Relaxin’, Workin’ e Steamin’
Em 1955, Miles Davis formou seu primeiro quinteto duradouro, reunindo John Coltrane no saxofone tenor, Red Garland no piano, Paul Chambers no contrabaixo e Philly Joe Jones na bateria. A combinação do cada vez mais cool Miles com o intenso e torrencial Coltrane poderia parecer fadada à incompatibilidade — e gerou, em vez disso, uma estranha alquimia. Para cumprir o contrato com a Prestige antes de migrar para a Columbia, Miles e o quinteto gravaram duas sessões em maio e outubro de 1956 que renderam quatro LPs: Cookin’, Relaxin’, Workin’ e Steamin’, lançados pela Prestige entre 1957 e 1961. Todos os quatro são de alto nível. A escolha de Cookin’ como representante da fase deve-se, segundo a fonte, simplesmente à ilustração original de Phil Hays na capa.
Miles Ahead (1957, Columbia)
Na Columbia, Miles retomou a parceria com o arranjador Gil Evans para gravar uma obra-prima do jazz orquestral. Desta vez, em vez do noneto de Birth of the Cool, a dupla contou com 19 músicos. O álbum assume a forma de uma suíte orquestral em 12 partes, em que uma peça do compositor clássico Léo Delibes se emparelha sem atrito com peças do universo jazz. A parceria Miles e Evans continuaria nos álbuns Porgy and Bess (1958) e Sketches of Spain (1959-60). Conta-se que Miles não apreciou a foto original da capa do LP, que mostrava uma mulher e uma criança caucasianas a bordo de um veleiro, e a Columbia a substituiu por uma imagem de Miles a tocar trompete nas edições seguintes.
Kind of Blue (1959, Columbia)
Kind of Blue aparece na lista como um dos marcos da discografia de Miles Davis. Gravado em 1959 pela Columbia, o disco é um dos títulos mais citados na história do jazz — mas a matéria foi truncada antes de detalhar sua formação e contexto completos. O que se sabe: está entre as principais fases de Miles e compõe a seleção dos sete discos fundamentais para quem quer entender esse músico de muitos rostos.
Por que ouvir Miles Davis hoje?
Há muitos músicos talentosos com longas e louváveis carreiras que não alteraram em nada o curso da história da música. Miles Davis pertence a uma categoria mais rara: a dos criadores que desbravaram novos caminhos e que ficaram associados a mais de uma revolução. Sua produção só desacelerou a partir de 1975, por problemas de saúde. Após sua morte, em 1991, a discografia continuou a crescer com material inédito, bootlegs, reconstituições de sessões históricas e reedições remasterizadas. Um século depois de seu nascimento, a obra permanece viva e acessível nas plataformas digitais.
O músico que nunca chegou ao mesmo lugar duas vezes
Há uma certa injustiça no modo como a história trata os grandes criadores. Depois que a obra se consolida, ela vira monumento. E monumento não se questiona, não surpreende, não incomoda. Fica lá, firme e distante, para ser reverenciado de longe. Miles Davis passou a vida inteira fugindo dessa armadilha.
Nascido em 26 de maio de 1926, ele entrou no jazz pela porta mais quente possível: o quinteto de Charlie Parker, em pleno furor do bebop. Era 1945, Miles tinha 18 anos e vinha de uma família de classe média-alta de St. Louis, filho de dentista, matriculado na Juilliard School of Music, uma das mais prestigiadas escolas de música de Nova York. A combinação de origem social confortável com o ambiente fervilhante dos clubes de Harlem e do Village poderia ter produzido um músico bem-comportado e bem-resolvido. Não foi o que aconteceu.
O que aconteceu foi Birth of the Cool. Gravado em 1949 e 1950, o disco fez o exato oposto do que se esperava de alguém que havia se formado no caldeirão do bebop. Era denso, meditativo, construído com notas esparsas e arranjos sofisticados. Gerry Mulligan e Gil Evans assinavam boa parte da orquestração. O noneto que se reuniu para as sessões soava a algo que ainda não tinha nome. Em 1957, quando o material foi enfim lançado como um disco completo, o nome já estava dado: cool jazz. Miles tinha inventado uma linguagem nova enquanto todo mundo ainda estava aprendendo a falar a anterior.
Mas a vida não é só música e a década seguinte foi dura. O vício da heroína devorou anos, finanças e oportunidades. O talento não desaparece com a dependência, mas fica embotado, enredado, incapaz de se organizar. Em 1954, Miles conseguiu se libertar. E voltou — não com prudência, não com humildade, não com o passo medido de quem precisa provar algo a alguém. Voltou com Thelonious Monk ao piano, Milt Jackson no vibrafone e uma sessão gravada na véspera do Natal que soou como recomeço.
O quinteto com John Coltrane que veio logo depois é talvez o capítulo mais fascinante da história. Coltrane era torrencial, intenso, expansivo. Miles era contido, econômico, feito de silêncios tão expressivos quanto as notas. Era difícil imaginar que essas duas forças produzissem coisa boa juntas. E produziram quatro discos extraordinários: Cookin’, Relaxin’, Workin’ e Steamin’, gravados às pressas em 1956 para cumprir um contrato com a Prestige antes de Miles migrar para a Columbia. Quatro discos gravados em dois dias de sessão, com a leveza de quem não está tentando fazer história. É claro que fizeram.
Na Columbia, a parceria com Gil Evans se aprofundou. Miles Ahead, lançado em 1957, era jazz orquestral com 19 músicos. Uma suíte em 12 partes que colocava Léo Delibes ao lado de composições do universo jazz sem que a costura aparecesse. Porgy and Bess e Sketches of Spain viriam a seguir, cada um ampliando o vocabulário sem perder o fio.
E depois veio Kind of Blue, em 1959. Um dos discos mais ouvidos na história do jazz. Uma obra que continua a encontrar novos ouvintes, geração após geração, como se tivesse sido feita ontem.
O que une todos esses momentos não é um estilo, não é uma escola, não é uma fórmula. O que une é a recusa de repetir. Miles Davis não foi um músico fiel a um som. Foi um músico fiel a uma postura: a de que o próximo disco precisa ir para algum lugar onde ele ainda não esteve.
Cem anos depois do seu nascimento, essa postura ainda é rara. E é por isso que ouvir Miles Davis hoje não é exercício de nostalgia. É lição de atitude.
Miles Davis aprendeu com Charlie Parker.
Depois fundou o cool jazz.
Depois formou um quinteto com John Coltrane.
Depois gravou jazz orquestral com 19 músicos.
Depois fez Kind of Blue.
Cada vez que parecia que tinha chegado a algum lugar, ele partia de novo.
Cem anos depois do seu nascimento, sete discos contam essa história.
Basta apertar o play.
Fonte / referência: matéria original
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