Cultura e Lazer 17 de outubro de 2026

Arlete Salles, 88 anos: ‘Não é a hora de ir pra casa’ — e ela está em cartaz para provar

Aos 88 anos e com sete décadas de ofício, Arlete Salles estreia seu primeiro monólogo, enfrenta o etarismo e deixa claro que aposentadoria ainda não faz parte dos seus planos.

Por que alguém com 88 anos ainda quer trabalhar — e o que Arlete Salles tem a dizer sobre isso

Arlete Salles começou a trabalhar com radionovela aos 15 anos. Hoje, aos 88, está em cartaz em São Paulo com o monólogo Mande Notícias do Mundo de Lá, no Teatro Renaissance. Sete décadas de carreira e nenhum sinal de que vai parar.

Em entrevista ao Terra, ela falou sobre etarismo, sobre a pressão para deixar os palcos e sobre a decisão, inédita na carreira, de fazer um espetáculo sozinha no palco.

A questão da idade: identidade privada, não número público

Arlete Salles admite que, por muitos anos, evitava falar a própria idade. Não era negação por vaidade, mas por uma convicção mais profunda: a de que a identidade de uma pessoa é particular e não deveria ser o critério pelo qual o trabalho é avaliado.

“Gostaria que fossem ao teatro não assistir a uma mulher de 88 anos, mas assistir a uma atriz”, disse ela. A frase resume o incômodo que ainda sente com o etarismo no meio cultural: ser reduzida à idade em vez de ser reconhecida pelo ofício.

A aposentadoria que ainda não chegou

Questionada sobre parar, ela foi direta. “Tem uma hora que a gente tem de admitir que é a hora de ir pra casa. Essa hora ainda não chegou pra mim e ainda vai demorar um pouquinho.”

Ela citou Fernanda Montenegro como exemplo de como é possível continuar com inteligência e adequação ao momento. Para Arlete, o ponto não é provar resistência física, mas manter-se conectada ao ofício enquanto houver sentido nisso.

O monólogo que ela quase não fez

Arlete confessou que nunca gostou do gênero. Recusou convites ao longo de décadas. O medo de ficar sozinha no palco pesava mais do que o interesse pelo formato.

A virada veio com o texto de Carlos Jardim. Ela estava no ar na novela Três Graças, da Globo, interpretando dona Josefa, quando recebeu o material. Enrolou, adiou, mas acabou lendo. “Me diverti muito e me emocionei muito com o texto”, disse.

No espetáculo, ela vive Eulália, uma mulher que chega ao velório de uma amiga e, praticamente sozinha no local, mergulha em uma conversa sobre amizade, lealdade, memória e a linha tênue entre a vida e a morte. “É um desafio tão grande que vou sair dessa experiência mais forte como atriz”, afirmou.

Informações sobre o espetáculo

  • Local: Teatro Renaissance, Alameda Santos, 2233, Jardim Paulista, São Paulo (próximo à Estação Consolação do Metrô)
  • Temporada: De 17 de outubro a 20 de dezembro de 2026
  • Horários: Sextas, às 19h30; Sábados, às 19h; Domingos, às 17h
  • Ingressos: De R$ 73,00 a R$ 147,00
  • Acessibilidade: Teatro totalmente acessível para cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida

Arlete Salles não está no palco apesar dos 88 anos. Está no palco porque escolheu estar, porque o texto a convenceu, porque o desafio a interessa. Essa distinção, ao que parece, é exatamente o que ela quer que o público entenda.

A atriz, não a idade

Existe uma forma de etarismo que se disfarça de admiração. É quando alguém diz “parabéns” não pelo trabalho, mas pela resistência em continuar existindo ativamente aos 80 e tantos anos. Como se a mera presença em cena já fosse um feito extraordinário, independente do que se faz ali.

Arlete Salles conhece bem essa armadilha. Ao longo de sete décadas de carreira, aprendeu a identificar o momento em que deixa de ser tratada como atriz e passa a ser tratada como símbolo de longevidade. E, ao que tudo indica, prefere a primeira condição.

A frase que ela deu ao Terra condensa isso com precisão cirúrgica: “Gostaria que fossem ao teatro não assistir a uma mulher de 88 anos, mas assistir a uma atriz.” Não é modéstia. É uma reivindicação. A de que o critério de avaliação seja o ofício, não o calendário.

O monólogo Mande Notícias do Mundo de Lá chegou a ela como um desafio de formato, não como uma missão existencial sobre envelhecimento. Ela detestava monólogos. Recusou o gênero por décadas. O que a fisgou foi o texto de Carlos Jardim: o trânsito entre drama e comédia, a discussão sobre o eterno, a amizade diante de um caixão. A qualidade da obra, não a oportunidade de provar alguma coisa.

Isso importa porque inverte a lógica que costuma enquadrar histórias como a dela. O enquadramento habitual seria: “Aos 88 anos, ela ainda está no palco.” O enquadramento que ela propõe é outro: “Uma atriz decidiu, pela primeira vez na carreira, enfrentar o palco sozinha porque encontrou um texto à altura desse risco.”

A diferença entre os dois enquadramentos é enorme. No primeiro, a idade é o sujeito da frase. No segundo, a decisão artística é.

O etarismo no mercado cultural opera exatamente nessa troca de sujeitos. Ele retira da pessoa experiente a autoria sobre suas escolhas e substitui pela narrativa da superação ou da resistência biológica. A pessoa não decide, ela sobrevive. Não cria, ela persiste. Não desafia o formato, ela serve de exemplo.

Arlete Salles recusa esse papel com elegância e sem discurso. Não se apresenta como ativista da longevidade. Não faz sermão sobre etarismo. Simplesmente age de acordo com a própria lógica, que é a de uma profissional que escolhe os projetos por critério artístico e ainda encontra nos palcos motivo suficiente para continuar.

A menção a Fernanda Montenegro é reveladora nesse sentido. Ela não a cita como símbolo de resistência, mas como exemplo de como continuar com inteligência: adaptando o formato, mantendo a excelência. É uma perspectiva de ofício, não de missão.

O que Arlete Salles oferece ao debate sobre trabalho sênior não é um manifesto. É uma prática. E práticas, quando bem executadas, dizem mais do que qualquer declaração.


Foram convidados ao teatro
ver uma mulher de 88 anos.

Ela queria que vissem
uma atriz.

A diferença
cabe numa vida inteira
de ofício.

E um monólogo
que ela quase recusou.


Fonte / referência: matéria original