Por que professores aposentados continuam lecionando?
Alguns já têm a aposentadoria anotada no contracheque há anos. Mesmo assim, estão na sala de aula toda manhã. Professores com 62, 65 e até 76 anos relataram ao Estadão os motivos que os fazem continuar ensinando muito depois de atingir o direito ao descanso.
A resposta não é simples e não cabe em uma só frase. Vínculo com os alunos, vontade de aprender, orgulho pelos projetos construídos ao longo de décadas e a necessidade de renda adicional aparecem juntos, misturados, como costuma acontecer com qualquer decisão que uma pessoa toma de verdade.
O vínculo com os estudantes como motor principal
Ronaldo Carrilho, 65 anos, é professor de Física do Curso Anglo em São Paulo há mais de 40 anos. Começou como plantonista em 1983 e hoje é gerente pedagógico da unidade. Para ele, o conteúdo das aulas até se repete, mas a experiência nunca é a mesma.
“É como uma banda que faz vários shows. O repertório é o mesmo, mas a interação com o público é sempre diferente”, compara. “A aula é assim. O lugar, o ser humano do lado e o desafio de ensinar são outros. É isso que me motiva a continuar.”
Carrilho cita também o reconhecimento que chega de formas inesperadas: médicos que o atenderam e que foram seus alunos, que o reconhecem em laboratórios e consultórios. “Às vezes, eu estou em um laboratório, entra o médico e fala: ‘Carrilho, você é do Anglo? Ah, então eu tive aula com você.'”
O orgulho de ver o que se construiu
Carlos Alberto De Simone, 62 anos, professor e coordenador de Educação Física do Colégio Bandeirantes em São Paulo, está na escola há 34 anos. Chegou em 1992 com a missão de criar uma cultura esportiva. Hoje, a escola mantém equipes masculinas e femininas em handebol, basquete, voleibol, futsal, xadrez e tênis de mesa do 6º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio.
“O prazer em ver se concretizando o que a gente construiu lá atrás me faz continuar trabalhando”, diz ele.
Aprender junto com as novas gerações
Regilaine Moraes, 56 anos, é professora do Ensino Fundamental no Colégio Ábaco em São Bernardo do Campo. Começou aos 16 como auxiliar de classe. Diz que não pretende ficar parada no tempo e que competir com a internet e os jogos eletrônicos exige criatividade e dinamismo constantes.
Monika Kuszka, 65 anos, ensina História no Colégio Mobile em São Paulo e coloca a inteligência artificial como um dos seus desafios atuais. “Se eu estivesse aposentada, fazendo tricô, talvez eu não estivesse preocupada com a IA. Mas hoje eu estou e quero aprender”, afirma.
Denise Rampazzo, 63 anos, doutora em Educação e professora no curso de Pedagogia do Instituto Singularidades em São Paulo, resume o que a mantém ali: “Educar é formar pessoas, inserir neste mundo de forma respeitosa, saber se relacionar com o outro, trocar olho no olho.”
Quando parar começa a fazer sentido
Nem todos resistem indefinidamente. Marcos Montagnoli, 76 anos, professor de Alemão do Colégio Rio Branco em Campinas, está aposentado desde os 65. Pensou em parar aos 70. Não parou. Mas reconhece: “Precisa parar uma hora. A idade está pedindo tréguas.”
Ele vê na aposentadoria efetiva a chance de estar mais perto do primeiro neto, previsto para nascer em novembro e que viverá em Paris com a filha. A vida esperou por ele. Ele ainda está terminando o semestre.
O que esses professores mostram sobre trabalho e propósito depois dos 50
A matéria publicada pelo Estadão revela que a decisão de continuar lecionando após a aposentadoria raramente é só financeira e raramente é só vocacional. É uma combinação: o prazer de estar com os alunos, o orgulho do que foi construído, a vontade de não parar de aprender e, sim, a renda que o trabalho ainda oferece.
Para adultos 50 e tantos que ainda estão no mercado de trabalho ou que pensam no que fazer depois, esses relatos oferecem algo mais concreto do que conselho: mostram como o trabalho pode continuar sendo fonte de identidade, de aprendizado e de presença no mundo, enquanto fizer sentido continuar.
A aula que não termina: professores aposentados e o que o trabalho ainda oferece
Existe uma imagem bem estabelecida da aposentadoria: o descanso merecido, a praia, o neto no colo, o tempo de sobra finalmente chegando. É uma imagem legítima. Mas há professores que a conhecem bem e a deixam esperando na fila.
Aos 65, 76, até depois dos 40 anos de carreira, eles ainda estão na sala de aula. Não porque não possam sair. Porque ainda não querem.
O Estadão ouviu esses educadores e o que apareceu nas conversas não foi um único motivo, mas uma trama de razões que se sobrepõem: o vínculo com os alunos, o orgulho de ver projetos florescendo, a vontade de continuar aprendendo, a necessidade real de renda adicional. Nenhuma dessas razões cancela as outras. Todas coexistem, como costuma acontecer com qualquer escolha de vida que não é simples.
Ronaldo Carrilho, professor de Física há mais de 40 anos, usa uma metáfora que diz bastante: a sala de aula é como uma banda em turnê. O repertório se repete, mas o público é sempre outro. E é nessa interação que o trabalho continua sendo vivo. Não é a matéria que muda. É o encontro.
Denise Rampazzo fala em formar pessoas. Carlos De Simone aponta para as equipes esportivas que existem hoje porque ele estava lá em 1992 e decidiu construir algo. Marcos Montagnoli, com 76 anos, ainda está terminando o semestre porque o primeiro neto vai nascer em Paris e ele não pode ir agora. A vida e o trabalho se embaralharam de um jeito que não tem solução limpa.
O que esses relatos iluminam vai além da dedicação individual. Eles mostram que o trabalho, quando é feito com sentido, não para de oferecer coisas: reconhecimento, aprendizado, pertencimento, identidade. Monika Kuszka, professora de História aos 65 anos, diz que está estudando inteligência artificial porque está em sala de aula. Se estivesse aposentada, talvez não estivesse. O trabalho a mantém curiosa. Não o contrário.
Isso levanta uma pergunta que não está explícita na reportagem, mas que atravessa cada relato: o que exatamente a aposentadoria oferece que justifica largar tudo isso? Para alguns, a resposta chega. Para outros, ainda demora.
Não se trata de romantizar o desgaste. Os professores reconhecem que a rotina de corrigir provas e preparar aulas cobra seu preço. Que o corpo pede trégua. Que há um momento em que o descanso não é fuga, é necessidade. Marcos Montagnoli o sabe. Diz isso sem drama.
Mas o que esses homens e mulheres entre 56 e 76 anos estão mostrando, com a sua presença continuada nas salas de aula de São Paulo, Campinas e São Bernardo do Campo, é que a relação entre trabalho e propósito não tem uma data de vencimento automática. Que adultos com décadas de experiência ainda têm o que oferecer, o que aprender e o que decidir. Sem precisar de nenhuma narrativa heroica para justificar isso.
Aposentado desde os 65.
Ainda dando aula aos 76.
O semestre não acabou.
O neto nasce em Paris em novembro.
Ele não vai poder ir.
A aula
espera.
A vida
também.
Fonte / referência: matéria original
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