Quais são os filmes de surf que vale mesmo a pena assistir?
O surf hipnotiza. Não importa se você já esteve em cima de uma prancha ou se nunca chegou perto. Há algo nas ondas, na velocidade, no risco calculado e na liberdade que não cansa de aparecer no cinema. A lista de filmes sobre o tema é longa e, como toda lista, tem joias, curiosidades e algumas surpresas.
O colunista Pedro Bento, do portal IG Esporte, percorreu essa filmografia em um texto direto e pessoal. O resultado é um roteiro útil para quem quer começar a conhecer o gênero ou revisitar clássicos que fizeram história.
O mais popular no Brasil hoje: Tá Dando Onda
O filme mais conhecido no Brasil atualmente é um desenho animado. Lançado em 2007, Tá Dando Onda (Surf’s Up) conta a história de Cadu, um pinguim que quer largar o frio de sua ilha e virar surfista profissional. O filme ganhou novo público com o boom do surf brasileiro impulsionado por Gabriel Medina. Kelly Slater e Rob Machado aparecem como eles mesmos, na versão pinguim. É classificado como filme de família, mas funciona bem para qualquer idade.
O clássico de ação: Caçadores de Emoção
Point Break, de 1991, é provavelmente o mais conhecido fora do universo surf. Patrick Swayze lidera uma gangue de surfistas que rouba bancos mascarados com rostos de ex-presidentes americanos. Keanu Reeves é o agente do FBI infiltrado. Cheio de exageros e adrenalina, é divertido mesmo quando não convence. Mistura surf e skate e virou referência de cultura pop.
O início de tudo: Gidget e The Endless Summer
Gidget, de 1959, foi odiado pelos surfistas puristas da época que não queriam ver Malibu virar destino turístico. As cenas de surf são artificiais, quase cômicas. Mas foi esse filme que deu ao esporte sua primeira exposição em massa.
Sete anos depois, The Endless Summer (1966), de Bruce Brown, mostrou o outro lado: dois surfistas que saem em busca de ondas pelo mundo, passando por Austrália, Nova Zelândia, Taiti, Havaí, Senegal, Gana, Nigéria e África do Sul. Com orçamento pequeno e muito charme, virou um dos documentários de esporte mais influentes da história.
Os filmes que mudaram a cultura surf
Morning of the Earth (1972) apresentou as ondas da Indonésia ao mundo e criou o desejo de viver descalço e sem compromisso. Five Summer Stories, do mesmo ano, registrou a transição dos pranchões para as pranchinhas com trilha sonora dos Beach Boys e da banda Honk. São documentários que têm mais de história cultural do que de esporte.
Big Wednesday, de 1978, acompanha três amigos ao longo de anos: eles surfam, se casam, enfrentam a guerra do Vietnã e se distanciam. É mais drama do que filme de surf.
Favoritos dos que cresceram nos anos 80 e 90
North Shore, de 1987, acompanha um jovem do Arizona que vai surfar o Pipeline, no Havaí, com participação de Laird Hamilton. Segundo o colunista, é um dos favoritos dos mais velhos. Momentum Generation, de 1990, mostra jovens ícones morando juntos no Havaí. Kelly Slater e Rob Machado aparecem aqui também, dessa vez como eles mesmos.
Documentários que vão além do esporte
Dogtown and Z Boys (2001), narrado por Sean Penn, conta como surfistas de um bairro esquecido de Los Angeles inventaram o skate vertical nas piscinas vazias da cidade durante uma grande seca. Riding Giants (2004) cobre a evolução do surf de ondas gigantes. Surf Wise (2007) narra a história real de Doc Paskowitz, médico formado em Stanford que largou tudo, colocou a família num trailer e criou nove filhos surfando pelos Estados Unidos durante 25 anos.
Nord for Sola (2012) acompanha dois noruegueses que passam nove meses surfando acima do Círculo Polar Ártico. No processo, recolhem 30 toneladas de lixo que chegaram àquela praia isolada.
Histórias reais e uma nova ameaça
Soul Surfer (2011) conta a história de Bethany Hamilton, surfista que perdeu um braço num ataque de tubarão e voltou a competir. A Onda de 100 Pés (2021) mostra como o americano Garrett McNamara transformou a vila de pescadores de Nazaré, em Portugal, na capital mundial das ondas gigantes.
O mais recente da lista é The Surfer (2024), com Nicolas Cage. Um homem volta à Austrália depois de anos para recomprar sua antiga casa e levar o filho ao mar. Os surfistas locais não aceitam forasteiros. O filme testa, de forma crescente, o limite da sanidade do protagonista.
Por que esses filmes ainda funcionam?
A resposta mais honesta é simples: o mar não cansa de ser filmado. E há algo nesse conjunto de histórias que vai além da onda. Fala de desejo de liberdade, de escolhas que contrariam o esperado, de amizades que resistem ao tempo e de lugares no mundo que existem independente de qualquer agenda.
Quem assiste tem pelo menos uma vontade: ir à praia.
O surf no cinema não é sobre esporte. É sobre o que a gente decide fazer com a vida.
Existe uma cena recorrente nos filmes de surf: alguém larga tudo. O médico formado em Stanford coloca a família num trailer. O pinguim foge da ilha fria. O agente do FBI se infiltra e acaba gostando mais do lado de dentro. Sempre tem alguém que decide, em algum momento, que o modo padrão de viver não serve.
Isso explica por que o cinema de surf tem uma força que vai além do esporte. Não é a onda que hipnotiza. É o que a onda representa: uma escolha deliberada de se colocar em risco por algo que vale a pena.
O colunista Pedro Bento listou no IG Esporte um conjunto de filmes que atravessa décadas. Vai de 1959, com Gidget irritando os surfistas puristas de Malibu por dar visibilidade demais às ondas, até The Surfer de 2024, onde Nicolas Cage é humilhado e roubado por locais que não aceitam quem vem de fora. É uma linha do tempo irregular, mas coerente. O surf começa como nicho agressivo e fechado, vai se tornando cultura de massa, depois filosofia de vida, depois aventura global, e por fim volta a ser território disputado.
Há algo que une filmes tão diferentes quanto Five Summer Stories, de 1972, e Nord for Sola, de 2012: a ideia de que o mar exige presença. Não dá pra surcar uma onda de longe. Não dá pra viver a experiência de fora. O cinema sobre surf, no fundo, é sempre um convite para estar lá.
Isso faz sentido particular para quem já acumulou décadas de experiência e tem, de certa forma, mais clareza sobre o que merece atenção e o que não merece. O adulto que cresceu ouvindo os Beach Boys na trilha de Five Summer Stories, que viu Caçadores de Emoção no cinema e saiu querendo fazer algo imprudente, que talvez tenha assistido North Shore num sábado à tarde com dezessete anos, carrega uma relação afetiva com esse universo que não é nostalgia. É repertório.
E repertório é coisa que se usa. Para escolher o próximo documentário. Para planejar uma viagem a Nazaré. Para convencer um filho ou neto a assistir junto. Para entrar no mar com cinquenta e tantos anos sem precisar de justificativa.
Os filmes de surf não pedem permissão. Mostram alguém fazendo uma escolha radical e deixam o espectador com aquele incômodo produtivo de quem sabe que tem praias que ainda não viu e ondas que ainda não tentou.
O surf, como disse Bento no fim do seu texto, é a certeza de que estar no mar, sozinho ou com amigos, pegar uma onda, qualquer manobra, é uma das melhores coisas do mundo. Não como lição de vida. Só como fato.
Em 1959
um filme de surf irritou os surfistas
porque mostrou o mar para todo mundo.
Em 1966
dois caras foram dar a volta ao mundo
por mais cinquenta dólares.
Em 2024
Nicolas Cage volta para casa
e os locais não deixam ele surfar.
O mar nunca muda.
As pessoas é que mudam
o que acham que merecem.
Fonte / referência: matéria original
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