Como o Forró dos Amigos usa a dança para combater a solidão em São Paulo
Há mais de 15 anos, o Forró dos Amigos reúne pessoas em espaços públicos de São Paulo com uma proposta que vai além de aprender a dançar. O coletivo usa o forró como ponto de partida para criar vínculos, combater a solidão e fortalecer o bem-estar emocional de quem chega.
O projeto nasceu de um gesto simples: Vanderson Bezerra pegou uma caixa de som e foi ao Parque Ibirapuera reunir amigos para começar o ano dançando. O encontro cresceu, ganhou frequência e virou comunidade.
Do Ibirapuera à Avenida Paulista: uma história de ocupação da cidade
Ao longo dos anos, o coletivo passou pelo Parque da Juventude, no antigo Carandiru, ocupou o Largo da Batata por um longo período e realizou encontros na Avenida Paulista. Cada mudança foi motivada por restrições ao uso do espaço público e ao som. Mesmo assim, o grupo nunca parou.
Atualmente, os organizadores trabalham para viabilizar o retorno dos eventos ao Largo da Batata, em Pinheiros.
A dança como ferramenta de saúde mental
O público do Forró dos Amigos é diverso, com presença marcante de pessoas entre 30 e 50 anos. Muitas chegam sozinhas e formam amizades duradouras dentro do coletivo.
Nos encontros, o forró funciona como espaço de acolhimento emocional. Há aulas abertas, apresentações musicais e muito forró pé de serra. O que se constrói ali, segundo os organizadores, é também um senso de pertencimento.
“A dança aproxima as pessoas num momento em que todo mundo vive correndo. Ela ajuda a desenvolver sensibilidades que muitas vezes ficam esquecidas no dia a dia”, afirma Edu Alves, um dos fundadores e produtores do coletivo.
Um projeto mantido pela própria comunidade
O Forró dos Amigos nunca contou com grandes estruturas de financiamento. Durante muitos anos, os próprios organizadores bancaram os custos. Em alguns eventos, chapelaria, venda de água e pequenas contribuições do público ajudavam a cobrir aluguel de som, tendas e logística.
“O projeto sempre foi muito difícil de manter. A gente não vive do Forró dos Amigos. É um coletivo criado com recurso próprio, movido pela vontade de espalhar o forró e criar encontros”, conta Edu.
Solidariedade, cultura nordestina e presença nas empresas
Em cada edição pública, uma ONG diferente é convidada a participar. O público contribui com um quilo de alimento, destinado às instituições parceiras.
O coletivo também construiu uma rede de parceiros que inclui moda, gastronomia e cultura popular nordestina, ajudando bandas, DJs e professores de dança a ganharem visibilidade em São Paulo.
Para Edu, defender o forró na capital paulista é também reconhecer a presença histórica da cultura nordestina na cidade: “São Paulo é um berço nordestino. Se a gente não movimenta o forró, a gente vai matando uma necessidade de um público que está aqui dentro de São Paulo.”
Hoje, o Forró dos Amigos também leva oficinas e encontros para unidades do SESC, empresas e projetos sociais, com foco em socialização, autoestima, resiliência e habilidades emocionais.
Mais do que um baile
O que começou como um encontro informal no Ibirapuera se tornou uma rede de apoio construída na base da música, do movimento e do cuidado coletivo. Para quem chega sozinho, o forró pode ser o começo de algo muito mais duradouro do que um passo de dança.
O forró como lugar: sobre encontro, pertencimento e a cidade que deixamos de habitar
Existe uma São Paulo que muita gente conhece de passagem: a cidade dos percursos utilitários, do trabalho, do transporte, da pressa. E existe outra, que aparece quando alguém coloca uma caixa de som num parque e começa a dançar.
O Forró dos Amigos nasceu exatamente nessa fresta. Vanderson Bezerra não fundou uma escola de dança. Não abriu uma academia. Pegou um equipamento de som, foi ao Parque Ibirapuera e chamou amigos para começar o ano dançando forró. O que veio depois de mais de 15 anos de encontros mensais, migrações por espaços públicos e uma comunidade que se reinventa a cada edição, diz muito sobre o que falta na vida de muita gente e sobre como a cultura popular pode preencher esse espaço de formas que a terapia individual, sozinha, nunca conseguiria.
A solidão que o coletivo enfrenta não é a solidão do isolamento absoluto. É a solidão da cidade cheia: aquela sensação de estar rodeado de gente e não pertencer a nenhum lugar. O público do Forró dos Amigos é majoritariamente formado por pessoas entre 30 e 50 anos. Muitas chegam sozinhas. Muitas acabam ficando, não apenas pela dança, mas pelas amizades que surgem ali.
Isto é significativo. Porque há uma percepção comum, e bastante equivocada, de que pessoas nessa faixa etária já têm suas redes sociais consolidadas, seus vínculos estabilizados, sua vida emocional resolvida. A experiência do Forró dos Amigos sugere o contrário: há uma demanda real, cotidiana e urgente por espaços de convivência que não sejam mediados pelo consumo, pelo desempenho ou pelo screen.
O forró, nesse sentido, oferece algo que poucos contextos urbanos ainda conseguem: o contato físico regulado por um ritmo compartilhado. A dança a dois exige presença. Exige escuta corporal. Exige uma forma de atenção ao outro que a vida digital raramente provoca. Não é acidente que Edu Alves, um dos fundadores, fale em desenvolver sensibilidades esquecidas no dia a dia. O forró, como prática coletiva, acessa algo que muitas pessoas haviam deixado adormecido.
O projeto também revela uma contradição do espaço público brasileiro. Ao longo de mais de uma década, o coletivo precisou migrar do Ibirapuera para o Parque da Juventude, do Parque da Juventude para o Largo da Batata, do Largo da Batata para a Avenida Paulista. Cada mudança foi motivada por restrições, proibições, disputas de uso do território urbano. Um coletivo sem fins lucrativos, mantido à custa própria, que distribuía alimentos a ONGs e gerava renda para músicos e professores, precisou circular pela cidade como nômade cultural.
A persistência do Forró dos Amigos diante disso tudo não é heroísmo. É teimosia legítima de quem acredita que a cidade é um bem comum e que a cultura popular tem direito de existir nela sem pedir licença toda semana.
Para adultos 50 e tantos anos, a pauta do Forró dos Amigos ressoa de forma particular. Não porque essa geração precise de um grupo terapêutico disfarçado de baile. Mas porque sabe, por experiência própria, o que é construir vínculos ao longo do tempo, o que é perder espaços que amava, o que é manter viva uma prática cultural que o mercado não considera rentável o suficiente. A cultura nordestina que o coletivo defende em São Paulo, com Dominguinhos e Luiz Gonzaga como referências explícitas, é também memória viva, circulando pelo corpo de quem dança e pela cidade que ainda resiste em abrigar esse tipo de encontro.
Mais do que um baile de forró, o que o coletivo construiu é um modelo de presença coletiva: simples, insistente, movido pela vontade de que as pessoas se encontrem de verdade. Numa época em que a conexão virou palavra de ordem digital, isso tem um peso que vai além da dança.
Uma caixa de som.
Um parque.
Um cara chamando os amigos para dançar forró.
Isso foi há mais de 15 anos.
O que virou depois?
Uma comunidade inteira.
Pessoas que chegavam sozinhas e ficaram.
Ongs que receberam alimentos.
Bandas que ganharam palco.
Uma cidade que aprendeu que o forró também é lugar de cuidado.
O Forró dos Amigos não tem grande financiamento.
Não tem sede fixa.
Já foi expulso de vários parques.
Mas ainda está na rua.
Todo mês.
Com a caixa de som ligada.
Fonte / referência: matéria original
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