Dinheiro & Direitos 20 de maio de 2026

94% dos profissionais de finanças cogitam mudar de empresa, aponta estudo

Mesmo com alta estabilidade contratual, a quase totalidade dos profissionais de finanças no Brasil avalia uma troca de empresa. O estudo Talent Trends 2026, da Michael Page, explica o que está por trás desse movimento.

Por que a maioria dos profissionais de finanças está pensando em mudar de empresa?

A resposta não é insatisfação imediata. É algo mais calculado: a percepção de que há espaço para crescer, aprender e viver melhor em outro lugar. É isso que aponta o estudo Talent Trends 2026, realizado pela consultoria Michael Page, com profissionais do setor financeiro no Brasil.

Segundo o levantamento, 94% dos profissionais de finanças afirmam estar abertos a novas oportunidades, mesmo em um setor que registra um dos mais altos índices de estabilidade contratual do mercado: 93% atuam sob contrato permanente e 99% trabalham em tempo integral.

O que está mudando na lógica de carreira

Por décadas, a decisão de mudar de emprego esteve ligada a um gatilho claro: a insatisfação com o atual. O estudo da Michael Page sugere que essa equação mudou. Hoje, profissionais trocam de empresa não porque estão mal, mas porque identificam possibilidades melhores.

No Brasil, 78% dos profissionais financeiros pretendem mudar de empresa nos próximos três anos. Desses, 43% já consideram essa movimentação nos próximos 12 meses.

Ricardo Basaglia, CEO da Michael Page Brasil, resume o movimento: “O profissional de finanças hoje não reage ao mercado, ele antecipa movimentos. Existe estabilidade, mas também uma consciência clara de valor e de possibilidade de crescimento.”

Salário ainda importa, mas dividiu espaço

Remuneração continua sendo fator relevante: 52% dos entrevistados a citam como critério de decisão. Mas outros elementos ganharam peso semelhante ou superior.

  • 54% apontam cultura organizacional como fator decisivo
  • 71% elegem equilíbrio entre vida pessoal e profissional como principal valor no trabalho
  • 70% citam remuneração logo em seguida
  • 26% mencionam bem-estar como critério relevante

O resultado é que empresas do setor financeiro passaram a enfrentar dificuldade de retenção mesmo sem deterioração das condições de emprego. A concorrência se tornou mais sutil e mais exigente.

Inteligência artificial acelerou a transformação

O estudo identifica outro vetor importante nessa reorganização: o avanço da inteligência artificial dentro das áreas financeiras.

Segundo o levantamento, 68% dos profissionais já utilizam IA regularmente, contra 52% registrados no ano anterior. Os impactos relatados são expressivos: 79% apontam aumento de produtividade, 84% percebem melhora na qualidade do trabalho e 70% afirmam conseguir focar em atividades de maior valor estratégico.

Ao mesmo tempo, o estudo revela uma lacuna: 43% dos profissionais trabalham sem diretrizes claras sobre o uso da IA. Para Basaglia, o desafio atual não é mais adotar a ferramenta, mas estruturar seu uso de forma estratégica.

Transparência e desenvolvimento passaram a ser exigidos

A pesquisa aponta ainda que candidatos do setor financeiro passaram a exigir mais clareza nos processos seletivos. 55% esperam transparência salarial já nas descrições das vagas, além de informações objetivas sobre benefícios e localização.

Na agenda de desenvolvimento, os números também são expressivos: 50% pretendem buscar novas competências em 2026 e 47% planejam investir em certificações.

Um movimento que vai além do setor financeiro

O comportamento observado entre profissionais de finanças acompanha uma tendência mais ampla. O estudo State of Data 2026, realizado em parceria com a Bain & Company, indica que 71,6% dos profissionais de dados buscariam outro emprego diante de um retorno obrigatório ao regime 100% presencial. Já um levantamento da WeWork com a Offerwise mostrou que 64% dos trabalhadores aceitariam trocar de emprego por uma rotina com melhor qualidade de vida, mesmo que isso implicasse redução salarial.

Os dados apontam para uma reorganização ampla das prioridades no trabalho: flexibilidade, cultura, desenvolvimento e qualidade de vida tornaram-se variáveis tão decisivas quanto o salário na disputa por profissionais experientes.

A quieta inquietação dos profissionais que já não precisam fugir para querer ir embora

Durante muito tempo, a mudança de emprego tinha um nome claro: fuga. Alguém saía de uma empresa porque a situação havia se tornado insustentável. O chefe era difícil, o salário havia ficado para trás, o ambiente tinha azedado. A mobilidade era o remédio de uma situação ruim.

O estudo Talent Trends 2026, da Michael Page, descreve outro tipo de movimento. Profissionais de finanças com contratos estáveis, em regime de tempo integral, bem acomodados nas condições objetivas do emprego, estão cogitando ir embora. Noventa e quatro por cento deles, segundo o levantamento. Não porque estejam mal. Mas porque percebem que poderiam estar melhor.

Essa diferença é mais profunda do que parece.

A lógica antiga da retenção funcionava por subtração: remova as causas de insatisfação e o profissional fica. A lógica nova exige adição contínua: ofereça crescimento, cultura organizacional coerente, equilíbrio e desenvolvimento, ou o profissional simplesmente atualizará o currículo. Não com raiva. Com método.

O estudo aponta que 71% dos entrevistados elegem equilíbrio entre vida pessoal e profissional como principal valor no trabalho, à frente até da remuneração, citada por 70%. Cultura organizacional aparece como fator decisivo para 54% dos respondentes. Esses não são dados sobre insatisfação. São dados sobre o que as pessoas passaram a valorizar quando pararam de sobreviver e começaram a escolher.

Para adultos com mais de 50 anos que atuam no setor financeiro, esse cenário tem uma dimensão particular. São profissionais que acumularam conhecimento técnico, construíram redes, atravessaram crises e aprenderam a ler o mercado antes que ele se movesse. O estudo cita exatamente esse perfil quando Ricardo Basaglia, CEO da Michael Page Brasil, afirma que o profissional de finanças hoje antecipa movimentos em vez de reagir a eles.

Essa capacidade de antecipação é uma vantagem acumulada, não um traço geracional vago. E é justamente ela que costuma ser subestimada quando o mercado discute retenção: a experiência de quem já viu ciclos completos é um ativo real, não uma relíquia.

O avanço da inteligência artificial dentro das áreas financeiras acrescenta outra camada a esse quadro. O levantamento aponta que 68% dos profissionais já usam IA regularmente, contra 52% no ano anterior. Para quem tem repertório acumulado, a IA não substitui o julgamento. Ela libera tempo para exercê-lo. Setenta por cento dos profissionais ouvidos dizem conseguir focar em atividades de maior valor estratégico depois da adoção dessas ferramentas.

A tensão que o estudo ilumina não é entre estabilidade e aventura. É entre conformidade e consciência de valor. E essa é uma tensão que não tem idade.

O profissional de 55 anos que revisa o currículo não está em crise. Está fazendo uma conta. E, segundo o levantamento, está fazendo essa conta junto com quase todos os seus colegas de setor.


94% dos profissionais de finanças estão cogitando mudar de empresa.

Não porque estão mal.
Mas porque percebem que podem estar melhor.

Essa diferença muda tudo.

Salário ainda importa. Mas equilíbrio entre vida e trabalho aparece agora à frente na lista de prioridades.

Cultura organizacional, desenvolvimento, qualidade de vida.

O profissional experiente não foge mais.
Ele calcula.


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