Quais são três formas divertidas de manter o cérebro jovem?
Navegar por uma cidade sem usar o GPS, conversar com amigos sobre um livro ou simplesmente aprender algo novo. Essas atividades parecem banais, mas há décadas de pesquisa mostrando que elas constroem o que cientistas chamam de reserva cognitiva, um tipo de proteção que o cérebro acumula ao longo da vida e que pode retardar o declínio associado ao envelhecimento.
A boa notícia, como explica o psicólogo Alan Gow, da Universidade Heriot-Watt, em Edimburgo, é que não é preciso mudar radicalmente a rotina. Pequenas mudanças nos aspectos físico, social e mental já fazem diferença.
1. Exercitar a orientação espacial
O hipocampo é uma das primeiras regiões do cérebro afetadas pela Doença de Alzheimer, muitos anos antes de qualquer sintoma aparecer. E ele tem uma função central: a navegação espacial, ou seja, a capacidade de se localizar e encontrar caminhos.
Estudos mostram que motoristas de ambulância e de táxi apresentam algumas das menores taxas de mortalidade por Alzheimer entre diferentes profissões. Segundo pesquisadores, isso acontece porque esses trabalhadores exercitam continuamente o processamento espacial do cérebro. Taxistas que passaram anos memorizando ruas sem recorrer a mapas chegaram a desenvolver um hipocampo maior.
Um estudo com homens saudáveis que realizaram tarefas de navegação espacial por quatro meses revelou melhora nas habilidades de orientação e ausência da contração cerebral que normalmente ocorre com o envelhecimento. O grupo que não realizou a tarefa apresentou a retração esperada.
Na prática, isso significa que tentar chegar a um destino sem abrir o mapa do celular pode ser uma forma simples de exercitar essa área. O neurologista Dennis Chan, do University College London, que se especializa na detecção precoce do Alzheimer, reforça que quanto antes identificarmos os sinais de declínio cognitivo, mais rápido é possível agir. Desenvolver reserva cognitiva desde já é uma forma de se preparar.
Alguns videogames de navegação espacial desenvolvidos por pesquisadores também mostraram resultados positivos em estudos com idosos, mas o artigo original ressalva que isso não vale automaticamente para qualquer jogo comercial.
2. Manter uma vida social ativa
Diversas pesquisas indicam que pessoas mais socialmente ativas apresentam menor declínio cognitivo. Um amplo estudo observacional concluiu que quem permaneceu mais ativo socialmente durante a meia-idade e a velhice teve entre 30% e 50% menos risco de desenvolver demência. Os autores atribuem esse efeito ao aumento da reserva cognitiva.
Outro estudo, realizado com 1.923 participantes idosos, descobriu que os menos ativos socialmente desenvolveram demência, em média, cinco anos antes dos mais ativos.
A epidemiologista Pamela Almeida-Meza, do King’s College London, explica o mecanismo: “O fator protetor está na capacidade de dialogar, debater e compartilhar ideias. Essas conversas também podem exercer um efeito protetor sobre o cérebro.” Quando interagimos com outras pessoas, ativamos áreas ligadas à linguagem, à memória e ao planejamento.
Além disso, manter conexões sociais reduz fatores fisiológicos de estresse, e o estresse crônico está associado à perda de neurônios no hipocampo, justamente a área mais vulnerável ao Alzheimer.
3. Continuar aprendendo ao longo da vida
Um dos principais indicadores de bom envelhecimento cerebral é o número de anos dedicados à educação. Mas o aprendizado ao longo da vida, mesmo fora da escola formal, pode gerar os mesmos benefícios.
O cérebro responde bem a desafios e novidades porque isso fortalece as áreas mais vulneráveis ao envelhecimento. O aprendizado gera novos neurônios e fortalece os existentes, um processo conhecido como neuroplasticidade. “É precisamente essa plasticidade, e essa capacidade de regenerar novas células nervosas e sinapses, que confere às pessoas resiliência frente à Doença de Alzheimer”, afirma Dennis Chan.
Um estudo longitudinal conduzido por Almeida-Meza e colegas acompanhou participantes desde a infância até o final dos 60 anos e descobriu que a reserva cognitiva crescia por meio de atividades enriquecedoras, como educação formal e lazer estimulante. Quem desenvolveu essa reserva apresentou menor declínio da memória, mesmo entre os que tinham pontuações cognitivas mais baixas na infância.
As formas práticas são variadas: tentar a jardinagem, que já foi associada à preservação da função cognitiva, participar de um clube do livro, comentar com um amigo o que está lendo, ou simplesmente escolher uma rota diferente para caminhar.
O que fica claro no final
Qualquer atividade que desafie o cérebro é benéfica. Não é necessário um programa rigoroso ou tecnologia sofisticada. A orientação espacial, as conexões sociais e o aprendizado contínuo são três caminhos acessíveis que, combinados, constroem um cérebro mais resiliente, tornam o declínio mais lento e, no processo, tornam a vida mais interessante.
O atalho que o cérebro adora e o preço que cobramos depois
Há uma ironia no centro da vida contemporânea: nunca foi tão fácil não pensar. O GPS decide o caminho. O algoritmo decide o que assistir. A autocomplete decide o que digitar. Cada conveniência é, em si mesma, uma pequena vitória da eficiência sobre o esforço. E o cérebro, que é um órgão criado para economizar energia, aplaude cada uma dessas soluções.
O problema é que esse aplauso tem um custo diferido. Segundo a matéria publicada pela BBC Future, o que os pesquisadores chamam de reserva cognitiva, essa capacidade protetora que o cérebro acumula ao longo da vida, é construída justamente pelo esforço que preferimos evitar. Não o esforço penoso, árido, de decorar tabelas ou resolver equações. O esforço vivo, curioso, social, espacial. O esforço de encontrar o caminho sem abrir o mapa. O esforço de sustentar uma conversa que vai a algum lugar. O esforço de aprender algo que não estava nos planos.
Isso tem uma dimensão especialmente relevante para adultos na segunda metade da vida. Não porque envelhecer seja sinônimo de declínio inevitável, mas porque, como aponta a epidemiologista Pamela Almeida-Meza, do King’s College London, à medida que envelhecemos a rotina se consolida e as oportunidades de aprender diminuem naturalmente. A vida se organiza em torno do conhecido. O que foi construído sustenta. O que foi abandonado definha.
O neurologista Dennis Chan, do University College London, traz um dado que deveria mudar a conversa sobre envelhecimento cognitivo: análises cerebrais post-mortem revelaram que alguns idosos tinham extensas alterações associadas ao Alzheimer no tecido cerebral, mas nunca apresentaram sintomas em vida. A hipótese é que o andaime cerebral dessas pessoas era robusto o suficiente para compensar os danos. Estilo de vida parece ter tido papel importante nisso.
Não é uma promessa de imunidade. É uma indicação de que o que fazemos ao longo dos anos molda a capacidade do cérebro de resistir. E que essa resistência não vem de remédios ou protocolos, mas de coisas reconhecíveis: caminhar por ruas desconhecidas, jantar com amigos que discordam de você, aprender a plantar tomates ou ler um autor que nunca havia interessado antes.
Há algo quase paradoxal nisso. O lazer que parece inútil pode ser exatamente o que protege. A conversa que parece frívola pode ser o que retarda. O detour que parece perda de tempo pode ser o que preserva o mapa mental por mais alguns anos.
A vida ativa não é um plano de saúde. É simplesmente uma vida mais inteira. E o efeito protetor, segundo a ciência, vem de lambuja.
O GPS encontra o caminho.
Você não precisa pensar.
E é exatamente aí que começa o problema.
O cérebro prospera com desafio.
Declina com conforto excessivo.
Três coisas simples constroem o que pesquisadores chamam de reserva cognitiva:
Caminhar sem mapa.
Conversar de verdade.
Aprender algo novo.
Não precisa ser difícil.
Precisa ser real.
Fonte / referência: matéria original
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