Como viajar de forma descontraída depois dos 50?
Rui Piçarra tem quase 100 países visitados e uma convicção que vai na contramão da era dos roteiros digitais: quanto menos informação prévia, melhor a viagem. O viajante português, que está na faixa dos 50 anos, intensificou suas viagens depois da pandemia e hoje defende o que chama de vagabundear como modelo ideal de exploração do mundo.
O que significa vagabundear numa viagem?
Para Rui, vagabundear é circular por um lugar sem agenda rígida, sem checar o TripAdvisor para cada refeição, sem seguir a lista dos patrimônios da Unesco. É perguntar para as pessoas na rua onde comer, o que vale ver, por que aquilo existe daquele jeito. É recuperar uma experiência que ficou mais rara depois que o Instagram e o Google Maps passaram a estruturar o olhar do viajante antes mesmo de ele embarcar.
Na entrevista ao podcast Conversas do Fim do Mundo, Rui conta que começou a viajar com mais intensidade durante a pandemia, quando descobriu podcasts sobre viagens e se deparou com comunidades de viajantes portugueses que compartilhavam histórias em grupos online. Foi a partir dessas trocas que ele passou a contar países e a planejar destinos mais incomuns.
De 50 para quase 100 países em três anos
Há três anos, Rui tinha 50 países visitados. Hoje está em 97. Faltam três para a marca que ele chama de bonita. Mas o número, curiosamente, não é o que mais importa no relato dele. O que aparece com mais força é a qualidade da experiência: as viagens de bicicleta pelo Caminho de Santiago, pelas margens do Danúbio, pelos países bálticos, pelo Vietnã e pela Coreia do Sul. Destinos escolhidos não pela lista, mas pelo prazer de pedalar e de se perder.
O problema com saber tudo antes de chegar
Rui menciona um livro da Lonely Planet chamado The World, que traz os destaques de cada país do planeta. Foi através dele que percebeu que lugares como Afeganistão e Iraque, frequentemente reduzidos a imagens de conflito, têm paisagens e culturas únicas que raramente aparecem na cobertura convencional. Ele visitou o Afeganistão e descreve uma geografia brutal, com montanhas que são o início dos Himalaias, vales profundos e pessoas de olhos claros que surpreendem quem chega carregado de estereótipos.
A crítica ao excesso de informação prévia aparece com clareza: quando tudo já foi fotografado, avaliado e postado, a sensação de descoberta diminui. O reflexo de tirar o celular do bolso para resolver qualquer dúvida de viagem, segundo ele, tornou o ato de viajar mais impessoal.
Por que a mentalidade de vagabundear interessa a quem viaja depois dos 50?
Quem tem 50 anos ou mais viveu parte da vida adulta antes do Google Maps, antes do Instagram, antes do TripAdvisor. Conhece, na prática, o que era perguntar para estranhos, se perder numa cidade sem GPS e descobrir um restaurante por indicação oral. Essa memória de viagem não é nostalgia vazia. É um repertório que pode ser reativado com consciência e prazer.
Viajar sem roteiro fechado não exige juventude. Exige disposição, curiosidade e alguma tolerância ao imprevisto. Três qualidades que a maturidade, quando bem vivida, costuma afinar.
O que Rui Piçarra leva de cada destino
Do Afeganistão, ele traz a geografia e uma conversa inesperada com um talibã que perguntou qual era a melhor imagem da infância dele. Do Iraque, a imagem de Mossul em reconstrução e de jovens que sobreviveram a ataques e agora planejam negócios. De cada destino, a percepção de que o mundo que aparece na televisão é uma fração pequena do mundo real.
Para ele, tentar se colocar no lugar do outro é parte do que faz viajar valer a pena. Não é turismo de compaixão. É curiosidade genuína sobre como outros povos organizam a vida, interpretam a história e resistem às circunstâncias.
Planejar com leveza: o equilíbrio possível
Rui não rejeita o planejamento. Gosta do processo de pesquisar e investigar destinos. O que ele resiste é ao excesso de estrutura que elimina o espaço para o inesperado. O modelo que descreve como ideal é ter tempo suficiente para que a viagem respire, para que um desvio de rota seja possível, para que uma conversa com um desconhecido leve a algum lugar que não estava no roteiro.
Esse equilíbrio entre preparação mínima e abertura máxima é, talvez, o que separa uma viagem de um checklist turístico.
A arte de se perder com intenção
Rui Piçarra tem quase 100 países visitados e defende que a melhor coisa que um viajante pode fazer é saber o mínimo possível antes de chegar a algum lugar. Num tempo em que o Google Maps traça o caminho, o TripAdvisor escolhe o restaurante e o Instagram já mostrou a foto do pôr do sol antes de você embarcar, essa postura parece quase subversiva. Mas é, acima de tudo, honesta.
O conceito que ele usa é simples: vagabundear. Circular sem agenda rígida. Perguntar para as pessoas. Deixar que a viagem aconteça em vez de executá-la como um projeto com entregáveis. Ele fala isso não como romantismo de turista entusiasta, mas como alguém que viajou de bicicleta pelo Caminho de Santiago, pelas margens do Danúbio, pelos países bálticos, pelo Vietnã, pela Coreia do Sul, e que esteve no Afeganistão e no Iraque sem transformar esses destinos em aventura de risco calculado para consumo nas redes.
Há algo relevante nessa distinção. O mundo digital criou uma nova categoria de viagem: a viagem documentada antes de acontecer. Você chega a uma cidade sabendo exatamente qual esquina fotografar, qual mercado visitar, qual prato pedir. A experiência foi curada por outros antes de você ter pisado no lugar. O que se perde, segundo Rui, é a sensação de descoberta. Aquele momento em que você não sabe o que vai encontrar atrás da esquina e, por isso, vai até lá com curiosidade genuína.
Essa tensão entre a eficiência do roteiro e a riqueza do imprevisto não é nova. Mas ela ganhou uma dimensão nova com a ubiquidade dos algoritmos de viagem. E ela ressoa de forma particular para quem tem 50 anos ou mais, não porque esse público seja nostálgico por natureza, mas porque tem um repertório concreto de como era viajar antes. Não como memória saudosa, mas como parâmetro de comparação.
Quem viajou nos anos 1980 ou 1990 sabe o que é perguntar para um desconhecido onde comer. Sabe o que é chegar a uma cidade sem reserva confirmada e encontrar alguma coisa. Sabe o que é se perder de verdade, sem o ponto azul do mapa que diz onde você está. Isso não precisa ser romantizado como tempo melhor. Mas pode ser reconhecido como uma forma de presença que o excesso de orientação digital tende a substituir.
Rui conta que evita visitar certos monumentos e patrimônios da Unesco não por descaso, mas porque prefere usar o tempo de outra forma. Prefere o que ainda não foi processado, traduzido e empacotado para consumo turístico. Prefere a conversa com um estranho a mais uma foto de fachada. Essa escolha não é acessível a qualquer viajante, depende de tempo, de familiaridade com o improviso, de uma certa confiança na própria capacidade de se orientar sem instrução. Mas quando está disponível, muda a qualidade da experiência de forma radical.
O que Rui descreve é, no fundo, uma postura diante do desconhecido. Não de ingenuidade, mas de abertura. Ele foi ao Afeganistão com consciência dos riscos e saiu com a percepção de que o país é geograficamente fabuloso e que as pessoas, ao contrário do estereótipo, surpreendem pela recepção calorosa. Não porque seja um destino seguro ou fácil, mas porque a realidade do lugar é mais complexa do que a imagem que chega até nós pelos meios convencionais.
Viajar assim, com intenção de se deixar surpreender, é uma escolha que a maturidade pode tornar mais rica e menos ansiosa. Não porque adultos mais velhos sejam naturalmente mais sábios, mas porque quem já viveu o suficiente para acumular perspectiva tende a trocar o checklist pela conversa. E às vezes é nessa troca que a viagem de fato começa.
Ele tem quase 100 países visitados.
E o conselho dele é: saiba o mínimo possível antes de chegar.
O Instagram já mostrou o pôr do sol.
O TripAdvisor já escolheu o restaurante.
O Google Maps já traçou o caminho.
E a sensação de descoberta foi embora junto.
Rui Piçarra chama o que ele faz de vagabundear.
Circular sem agenda. Perguntar para as pessoas.
Chegar sem saber o que vai encontrar atrás da esquina.
Isso não é falta de planejamento.
É uma decisão sobre o que você quer que uma viagem seja.
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