Como flores secas colhidas na calçada se tornam arte em Paraty?
Maria Victoria Prassel, argentina natural de Mar del Plata, chegou ao Brasil com seis anos quando a família se mudou para Florianópolis. Ficou por lá até 2011, quando uma viagem de Kombi com os pais e o irmão mais novo mudou tudo. O destino original era Canoa Quebrada, no Ceará. Paraty foi só uma parada recomendada por amigos. A família ficou um mês num camping. Nunca chegou ao Nordeste.
Hoje, quinze anos depois, Victoria tem um ateliê com a mãe no Centro Histórico de Paraty e comanda duas marcas: a Flores Secas Art e a Los Muñecos. As flores que usam nas peças são colhidas no quintal de casa e pelas calçadas da cidade, secas em prensas de madeira e transformadas em brincos, colares, quadros, porta-copos, bandejas e marcadores de página.
O processo: do quintal à prensa de madeira
A técnica de secagem por prensagem é simples, mas exige atenção ao tempo e à escolha das flores. As peças da Flores Secas Art usam flores colhidas diretamente em Paraty, o que dá às criações um caráter local. “As pessoas gostam muito de levar uma flor de presente. É um produto que deu certo e fica simbólico por ser uma flor de Paraty”, conta Victoria.
Esculturas que levam até 20 dias para ficar prontas
Na Los Muñecos, o processo é outro. Victoria cria esculturas e móbiles a partir de estrutura de metal, fita crepe, reaproveitamento de papel, tintas acrílicas, vitrais, tintas metalizadas e metais como cobre e bronze. Uma peça pode levar até 20 dias para ser finalizada.
“É trabalhoso, mas muito prazeroso ver uma peça pronta. Ver esse trabalho que eu demorei, teve todo um processo para terminar, e a peça está sendo levada para a decoração da pessoa é muito bom, muito gratificante”, afirma a artista.
Feiras, literatura e coletivo de mulheres
Há 15 anos atuando como artista plástica, Victoria expõe as peças em feiras regionais e eventos literários, incluindo a Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. Ela também integra o Atelier Entre Marés, mantido por um coletivo de oito mulheres no Centro Histórico da cidade.
A escolha de Paraty sobre o Sul não foi sentimental apenas. Teve razão prática. “Para quem decide trabalhar com Artes, a baixa temporada é muito dura lá. Não tinha esse movimento que tem aqui em Paraty”, explica Victoria, que se formou em técnico em Gestão Hoteleira mas escolheu as artes plásticas como caminho.
Por que isso interessa a quem faz ou aprecia artesanato?
A história de Victoria não é uma história de hobby casual. É a construção de dois negócios artesanais, lado a lado com a mãe, dentro de uma cidade com calendário cultural ativo. O material de partida são flores colhidas a pé, a técnica é acessível e o resultado vai de brinco a escultura de 20 dias. Para quem se interessa por artes manuais, decoração, criação autoral ou pela cena artesanal do litoral fluminense, o ateliê de Victoria é um retrato concreto de como essa prática funciona na vida real.
A viagem que não chegou ao destino
Existe um tipo de decisão que não se planeja. A família de Maria Victoria Prassel estava indo para Canoa Quebrada, no Ceará. Viajavam de Kombi, com pais, irmão mais novo e a Argentina inteira como pano de fundo na memória. Paraty era só uma parada recomendada por amigos. Ficaram um mês. Nunca foram para o Nordeste.
Essa espécie de desvio que vira destino tem algo de universal. Não é nostalgia, não é acidente. É o momento em que um lugar responde de um jeito que a rota prevista não consegue competir. Victoria tinha se formado em Gestão Hoteleira, a profissão esperava, e ela abriu mão dela para ficar numa cidade litorânea transformando flores colhidas na calçada em brincos, quadros e porta-copos.
A parceria com a mãe é parte central do projeto. As duas montaram o ateliê juntas, dividem as marcas, e a produção carrega essa dupla autoria de maneira concreta: são as duas que colhem, prensam, montam, vendem. Não é metáfora de afeto. É modelo de trabalho.
A escolha de Paraty também tem uma lógica que vai além do encantamento. Victoria explica com clareza que para quem trabalha com artes, a baixa temporada no Sul é economicamente pesada. Paraty tem movimento cultural o ano todo, incluindo a Flip, uma das principais feiras literárias da América Latina. O ateliê não está à margem disso. Victoria expõe nas feiras da cidade e integra o Atelier Entre Marés, um coletivo de oito mulheres no Centro Histórico.
O artesanato com flores secas tem uma característica que Victoria identifica com precisão: a flor funciona como presente. É pequena, bonita, cabe na mala, e carrega o símbolo de uma cidade específica. É produto e memória ao mesmo tempo. Já as esculturas da Los Muñecos exigem até 20 dias de trabalho, com metal, papel reutilizado, cobre, bronze e tinta. São peças de outra ordem, que vão para a decoração de quem valoriza o tempo embutido no objeto.
O que a história de Victoria mostra não é uma fuga para o artesanato. É a construção de dois negócios com identidade própria, em uma cidade que tem calendário, público e circulação cultural real. A viagem de Kombi não chegou ao Ceará. Chegou onde precisava.
Destino: Canoa Quebrada.
Pararam em Paraty.
Ficaram um mês.
Nunca foram ao Nordeste.
As flores eram da calçada.
A prensa era de madeira.
A mãe estava do lado.
O ateliê ficou.
Fonte / referência: matéria original
Publicar comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.