Dinheiro & Direitos 3 de agosto de 2026

Por que os brasileiros estão trocando mais de emprego

Salário já não é o único motivo para trocar de emprego no Brasil. Propósito, desenvolvimento e cultura da empresa entram na conta. Os números e as razões por trás da tendência.

Por que os brasileiros estão trocando mais de emprego?

Quatro empresas em seis anos. Cinco em seis. Uma aberta, fechada e recomeçada em outro setor. O perfil de quem muda de emprego com frequência deixou de ser exceção e passou a descrever uma fatia crescente do mercado de trabalho brasileiro. A prática tem até nome em inglês: job hopping. E os dados mostram que ela está se espalhando por diferentes faixas etárias e níveis de carreira.

O que dizem os números

Dados da consultoria Michael Page mostram que 44% dos brasileiros buscam ativamente outra oportunidade de emprego, enquanto 39% consideram deixar o emprego atual. Uma pesquisa do Ministério do Trabalho e Emprego aponta que a rotatividade é especialmente alta entre jovens: entre pessoas de 25 a 29 anos, 25,3% deixam o emprego antes de completar um ano. Na faixa de 18 a 24 anos, esse percentual sobe para 38,2%.

Segundo o levantamento do Ministério, baixos salários, longas jornadas e poucas oportunidades de desenvolvimento profissional estão entre os principais fatores que explicam esse comportamento.

Salário não é mais o único motivo

Especialistas ouvidos na reportagem apontam que a lógica da troca mudou. Para o consultor Lucas Oggiam, diretor executivo da Michael Page Brasil, o aumento da rotatividade tem causas diversas: em parte, são decisões voluntárias dos profissionais; em parte, refletem demissões ligadas ao cenário econômico, como cortes de custos e reestruturações.

A pesquisadora Maira Blasi, especializada em futuro do trabalho, avalia que a estabilidade no emprego perdeu espaço para outras vantagens. Para ela, a expansão do ensino superior e do acesso à internet ampliou o contato com diferentes referências de carreira. Ao mesmo tempo, as próprias empresas reduziram suas garantias de estabilidade, com demissões em massa, contratação como pessoa jurídica e projetos mais curtos.

Propósito, cultura e ambiente de trabalho entram na conta

Outros fatores passaram a pesar na decisão de sair. A busca por ambientes de trabalho mais inclusivos, a possibilidade de conciliar vida pessoal e trabalho e a insatisfação com lideranças são apontados como motivos relevantes. Segundo Blasi, depois da pandemia, a vida fora do trabalho ganhou mais peso nas escolhas profissionais.

Flexibilidade e políticas de diversidade tornaram certas empresas mais atrativas. A própria sensação de estar em um ambiente tóxico passou a ser tratada como motivo suficiente para buscar outro caminho.

O que pensam os recrutadores

A frequência de trocas não é necessariamente vista como problema por quem contrata. Para Oggiam, o que interessa aos recrutadores é entender as razões por trás das mudanças. Profissionais em início de carreira tendem a ser avaliados com mais tolerância às trocas rápidas. Já para quem está em posições mais seniores, trajetórias mais longas ainda são valorizadas, mesmo em setores com alta rotatividade, como tecnologia.

Especialistas recomendam permanecer pelo menos um ano em cada organização, mas destacam que o mais importante é ficar tempo suficiente para entregar resultados e conseguir explicar o impacto do próprio trabalho.

O que muda para quem tem mais experiência

A tendência do job hopping não é exclusiva dos mais jovens, mas tem características diferentes conforme a etapa da carreira. Profissionais mais experientes tendem a ter trajetórias mais longas e a pesar com mais cuidado as trocas, considerando plano de carreira, crescimento concreto e alinhamento com seus objetivos de vida. A pergunta que orienta a mudança deixou de ser apenas “vou ganhar mais?” e passou a ser “esse lugar me leva aonde quero chegar?”

A estabilidade que ninguém mais promete

Durante décadas, o contrato implícito entre empregado e empregador funcionou assim: você entrega lealdade e constância, a empresa entrega segurança e progressão previsível. Esse acordo não foi rompido por uma geração impaciente. Ele foi esvaziado pelos dois lados ao mesmo tempo, e o job hopping é uma consequência direta disso.

Os dados trazidos pela reportagem são reveladores. Quarenta e quatro por cento dos brasileiros buscam ativamente outra oportunidade. Trinta e nove por cento consideram sair do emprego atual. O levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego mostra que a rotatividade é mais alta entre os jovens, mas o movimento não para por aí: ele atravessa faixas etárias, setores e níveis hierárquicos, ainda que com ritmos diferentes.

A pesquisadora Maira Blasi oferece uma leitura estrutural do fenômeno: a expansão do ensino superior e do acesso à internet abriu um leque de referências que antes simplesmente não existia para a maioria dos trabalhadores brasileiros. As pessoas passaram a comparar. E ao comparar, passaram a escolher de forma diferente. Ao mesmo tempo, as empresas foram enfraquecendo suas próprias promessas, com demissões em massa, pejotização e projetos cada vez mais fragmentados. Quem não promete estabilidade não pode cobrar lealdade.

O que se observa nos relatos da matéria é uma reconfiguração do que significa construir carreira. Para as profissionais ouvidas, a troca de emprego não foi fuga de situações ruins, foi busca por algo que o lugar atual não oferecia: crescimento, propósito, alinhamento com valores pessoais, possibilidade de conciliar trabalho e vida. Nenhuma dessas motivações é frívola. São critérios adultos, tomados com consciência das trocas envolvidas, inclusive financeiras.

Isso importa de forma particular para quem tem mais anos de trajetória. Adultos com décadas de carreira acumulada carregam repertório, clareza sobre o próprio perfil e menor tolerância a ambientes que não reconhecem isso. A pergunta que orienta a decisão de sair, para esse grupo, costuma ser mais precisa e mais exigente: não basta o salário ser maior, o caminho precisa fazer sentido.

O consultor Lucas Oggiam observa que executivos em posições de alta liderança ainda tendem a construir trajetórias mais longas. Mas a lógica que sustentava essa permanência está sendo renegociada. O que os especialistas convergem em dizer é que não existe mais um tempo ideal fixo para permanecer em um emprego. O critério relevante passou a ser a capacidade de demonstrar impacto, não o número de anos no mesmo lugar.

O job hopping não é desordem. É a resposta de trabalhadores que, em vez de aguardar por uma estabilidade que o mercado deixou de oferecer, decidiram construir a própria trajetória de dentro para fora. A estabilidade não desapareceu como desejo. Ela mudou de forma: virou plano de carreira claro, metas tangíveis, crescimento possível e, sobretudo, coerência entre o que a pessoa faz e o que a pessoa quer ser.


Você não fugiu do emprego.
Você fugiu da estagnação.

Salário igual.
Sem perspectiva.

Um lado parou de prometer.
O outro parou de esperar.

44% dos brasileiros
buscam outra oportunidade
agora mesmo.

Troca de emprego
não é instabilidade.
É cálculo.


Fonte / referência: matéria original