Dia-a-dia 15 de julho de 2026

Golpe de IA usa voz e imagem de famosos para vender remédios falsos: como identificar

Anúncios criados com inteligência artificial imitam a voz e a imagem de personalidades conhecidas para vender remédios com promessas falsas. Entenda como funciona o golpe e como não cair.

Como funciona o golpe de IA que usa voz e imagem de famosos para vender remédios?

Um tipo de fraude digital vem se espalhando nas redes sociais: anúncios criados com inteligência artificial que imitam a voz e a imagem de personalidades conhecidas para promover remédios com promessas impossíveis, como a cura do Alzheimer.

Quem deu o alerta público mais recente foi a atriz Fernanda Montenegro. Em um vídeo publicado nesta segunda-feira, dia 13, ela denunciou o uso não autorizado de sua imagem e de sua voz em propagandas de um suposto remédio para idosos. A publicação foi compartilhada pela filha, Fernanda Torres, ampliando o alcance do aviso.

“Quero denunciar aqui o uso do meu nome, da minha pessoa, na propaganda de um remédio para idosos. Remédio esse que cura até Alzheimer. Sou usada como locutora e usuária”, afirmou a atriz. E completou: “O uso invasor dessa dimensão na vida de um ser humano é um crime!”

O caso de Drauzio Varella e o que ele revela sobre o golpe

Nos comentários do vídeo de Fernanda Montenegro, seguidores relataram ter visto anúncios semelhantes com outras personalidades. O médico Drauzio Varella é um dos nomes mais citados.

Em reportagem para o Fantástico, Varella explicou como o esquema funciona por dentro: “Existe um curso dado pela internet para ensinar os falsários a imitar a minha voz por inteligência artificial e a criar as imagens para vender remédios falsos.”

O médico também relatou a dificuldade de retirar os anúncios do ar: foi necessário contratar um escritório de advocacia. Notificações diretas às plataformas, segundo ele, não recebiam nem resposta.

A orientação de Varella é direta: “O Código de Ética Médica proíbe que médicos façam propaganda de medicamentos. Toda vez que você vir meu nome ligado a um medicamento, é mentira. Cai fora, porque isso é golpe.”

Quais são os sinais de um golpe de IA em anúncios de saúde?

  • O anúncio usa voz ou imagem de médico, artista ou personalidade conhecida para vender um produto
  • O produto promete curas absolutas ou tratamentos para doenças graves sem respaldo médico reconhecido
  • O produto é voltado especificamente para idosos e usa linguagem emocional para gerar urgência
  • Não há referência a registro em órgão sanitário, bula ou fabricante identificável
  • A personalidade nunca confirmou publicamente o uso ou a indicação daquele produto

Por que esses golpes funcionam e a quem eles miram

A lógica do golpe é simples: usar um rosto ou uma voz de confiança para vender algo que ninguém compraria de um desconhecido. A inteligência artificial tornou isso mais fácil, mais barato e mais difícil de detectar visualmente.

Anúncios voltados para saúde de idosos são um alvo frequente porque exploram uma preocupação real e legítima de muitas famílias. A promessa de cura do Alzheimer, por exemplo, atinge diretamente quem convive com a doença ou tem medo dela.

Reconhecer o padrão é a defesa mais eficaz. Se um anúncio usa o nome ou a imagem de um médico para recomendar um remédio, a resposta padrão deve ser desconfiança. Médicos não fazem propaganda de medicamentos. Quando parecem estar fazendo, é fraude.

A voz que não é sua: quando a IA se torna instrumento de golpe

Fernanda Montenegro descobriu o golpe no celular. Não em uma reunião com advogados, não em um comunicado de assessoria. No celular, como qualquer pessoa. Abriu o aparelho e encontrou a própria voz recomendando um remédio que nunca usou, para uma doença que jamais mencionou. Isso tem um nome técnico: deepfake de áudio e imagem. Mas o efeito prático é mais antigo: alguém usando a credibilidade de outra pessoa para enganar quem confia nela.

O caso não é isolado. Drauzio Varella relatou ao Fantástico que há cursos na internet ensinando a imitar sua voz com inteligência artificial especificamente para vender remédios falsos. Precisou contratar um escritório de advocacia para tentar retirar os anúncios do ar. As plataformas, segundo ele, não respondiam nem às notificações de que o conteúdo era falso.

Isso revela duas camadas do problema. A primeira é técnica: a IA chegou a um ponto em que imitar uma voz conhecida virou produto ensinável, vendável, acessível a quem tiver interesse. A segunda é estrutural: as plataformas que hospedam esses anúncios ainda não respondem com a velocidade nem com a responsabilidade que o dano exige.

O alvo preferido desse tipo de fraude é, com frequência, quem tem mais de 50 anos. Não porque esse público seja ingênuo, mas porque os golpistas sabem que saúde é um campo onde a urgência emocional faz a guarda baixar. A promessa de cura do Alzheimer não é aleatória. Ela mira em uma dor real: a de quem convive com a doença, cuida de alguém com a doença ou simplesmente tem medo do que pode vir.

O dado mais revelador da fala de Varella é a instrução que ele deu: toda vez que aparecer o nome dele ligado a um medicamento, é mentira. Não talvez. Não merece verificação. É mentira. O Código de Ética Médica proíbe que médicos façam propaganda de medicamentos. Isso não é sutileza. É uma linha clara.

O que esse episódio coloca em pauta não é a fragilidade do público mais velho diante da tecnologia. É a responsabilidade das plataformas digitais, a necessidade de mecanismos mais ágeis de denúncia e remoção, e a importância de um reflexo simples que pode ser aprendido: quando uma voz conhecida vende um remédio em anúncio de rede social, o reflexo correto é a desconfiança, não a crença.


A voz era dela.
Mas a fala não era.
O rosto era dela.
Mas o anúncio, não.
O remédio curava Alzheimer.
O médico confirmou:
curso na internet
ensina a imitar voz com IA.
Médico não faz propaganda de remédio.
Se parece que faz,
é golpe.


Fonte / referência: matéria original