Como a inteligência artificial está mudando os modelos de negócio das produtoras de filmes
Como a inteligência artificial está mudando os modelos de negócio das produtoras de filmes?
A resposta curta: de forma irreversível. A inteligência artificial deixou de ser uma promessa no horizonte da indústria audiovisual brasileira e passou a operar no dia a dia de produtoras, agências e plataformas. Custos caindo pela metade, velocidade muito maior e uma capacidade de personalização que nenhuma equipe humana conseguiria sustentar sozinha. Esse é o cenário descrito por executivos e produtores ouvidos pelo Valor Econômico.
O filme feito em um dia que o cliente preferiu
A história que resume o momento foi contada por Rafael Nasser, CEO da WPP Production, empresa global que unificou todas as equipes de produção do grupo em uma única plataforma. Um filme publicitário foi produzido em um único dia, inteiramente por inteligência artificial. O cliente pediu para refazer do jeito tradicional, com equipe, set e câmera. Quando as duas versões ficaram prontas, ele escolheu a de IA. O filme foi para o ar.
Para Nasser, a mudança não está apenas nas ferramentas. “Produção deixou de ser execução e virou criação em escala”, afirma. Segundo ele, a IA permite personalizar 50 mil versões de uma mesma mensagem, para 50 mil pessoas diferentes, ao mesmo tempo.
O que a IA viabiliza que antes era impossível
Para Paulo Barcellos, CEO da O2 Filmes, a transformação mais significativa não é a substituição do que já existia, mas a viabilização do que antes era inviável. Animação em publicidade, projetos de custo proibitivo, formatos híbridos: tudo isso entra no orçamento quando a IA reduz a barreira de produção.
Em 2024, a O2 criou a Bot, seu braço de inovação e IA. Um dos projetos em desenvolvimento é “Motoboys do Sertão”, filme planejado para ser gravado em Imax durante o Rally dos Sertões em 2027. A história é baseada em fatos reais: em 1997, dois entregadores de pizza de Curitiba correram o Rally com as próprias motos de trabalho, sem equipe e sem recursos. Um deles cedeu sua gasolina para o líder da corrida, que só venceu graças a esse gesto. Na versão atualizada do projeto, os protagonistas são entregadores de aplicativo, o que abre espaço para marcas de tecnologia e logística entrarem na narrativa de forma orgânica.
Uma nova camada de produção audiovisual
Krysse Mello, sócia e produtora executiva da Barry Company e da Spritz AI, defende que o debate ainda é tratado de forma simplificada. Para ela, o impacto vai além de baratear ou substituir equipe. “A IA está criando uma nova camada de produção audiovisual que pode aumentar muito a qualidade narrativa e visual das obras”, afirma, incluindo formatos híbridos que combinam cenas reais e geradas por IA.
Segundo Mello, as produtoras têm dois caminhos: resistir, tratando a IA como ameaça, ou entendê-la como mais uma linguagem, como antes foram o digital, o 3D e o motion graphics. Foi por isso que o grupo Barry Company abriu a Spritz.AI, núcleo dedicado a projetos próprios e de outras produtoras.
Infraestrutura, não tendência
Marcia Branco, sócia e produtora executiva da Miss Sunshine Films, prefere observar o que já é fato. Para ela, a IA deixou de ser tendência e virou infraestrutura. Todas as produtoras terão que incorporá-la, independentemente do tamanho. O que muda é o que se espera delas: ideia, direção, linguagem, processos e capacidade de execução continuam sendo os diferenciais.
Branco prevê dois movimentos simultâneos: grandes estruturas absorvendo tecnologia e escala, enquanto produtoras independentes ganham relevância com propostas mais artesanais.
O limite que a IA não cruza
Francesco Civita, CEO da Prodigo Filmes, reconhece a utilidade da IA para testar cenas e desenvolver linguagens visuais. Mas aponta um limite: “O olhar humano continua sendo o que dá sentido e alma a qualquer projeto.” Civita também alerta para a ausência de regulamentação específica para o uso de IA no audiovisual brasileiro. Enquanto isso não acontece, o mercado opera em zona cinzenta.
A plataforma que saiu na frente
Enquanto o setor ainda debatia ameaça ou oportunidade, a Human, plataforma brasileira especializada em IA para o setor criativo, já entregava campanhas 100% produzidas com IA para grandes anunciantes como Google, Boticário, Trident e Cogna. Inaugurada em março de 2024, cresceu de 300 alunos em seu primeiro curso para mais de 20 mil profissionais formados um ano depois. A receita saltou de R$ 370 mil em 2024 para R$ 15 milhões em 2025. No dia 23 de maio, a empresa abre seu primeiro espaço presencial com aulas na Vila Madalena, em São Paulo.
O nome da empresa é uma declaração de princípio. “O ativo é o humano”, diz Nando Blum, fundador e CEO. “A criatividade se transforma, mas continua essencialmente humana.”
O que muda para quem assiste, produz ou investe
A transformação em curso no audiovisual não é um debate interno do setor. Ela chega ao consumidor na forma de conteúdo mais personalizado, campanhas mais rápidas e projetos que antes nunca chegariam às telas. Para quem acompanha cinema, publicidade e cultura visual, entender essa mudança é entender como o que se vê está sendo feito, e por quem.
O olhar que a máquina ainda não tem
Há uma cena que define o momento. Um cliente pede um filme. A produtora entrega dois: um feito do jeito tradicional, com equipe, set, câmera e todos os rituais conhecidos; outro produzido em um único dia, inteiramente por inteligência artificial. O cliente olha para os dois e escolhe o de IA. O filme vai ao ar.
Não é ficção científica. É um relato real de Rafael Nasser, CEO da WPP Production, publicado pelo Valor Econômico em maio de 2026. E o que torna esse relato revelador não é a tecnologia em si. É a reversão silenciosa de uma hierarquia que parecia inabalável: a do processo humano como garantia de qualidade.
O mercado de produção audiovisual brasileiro está vivendo uma das suas maiores reorganizações internas desde a chegada do digital. A diferença é que desta vez a mudança não é de suporte, não é de formato, não é de distribuição. É de lógica. Como diz Paulo Barcellos, CEO da O2 Filmes, a IA não veio substituir o que já se fazia. Veio viabilizar o que nunca se conseguiu fazer. E essa distinção importa muito.
Durante décadas, a produção audiovisual operou sob uma equação conhecida: mais qualidade exigia mais tempo, mais equipe, mais dinheiro. A IA rompe essa equação sem cerimônia. Custos caem pela metade. A velocidade multiplica. A personalização atinge uma escala que nenhuma estrutura humana conseguiria sustentar. O que era inviável pelo orçamento, como a animação em publicidade, entra no cardápio. O que era exclusivo das grandes estruturas começa a circular em produtoras independentes.
Mas há uma tensão que atravessa todos os depoimentos colhidos pela reportagem. A IA amplia o que é possível fazer. Não garante o que vale fazer. Francesco Civita, CEO da Prodigo Filmes, coloca com precisão: o olhar humano continua sendo o que dá sentido e alma a qualquer projeto. Nando Blum, fundador da Human, vai na mesma direção ao nomear sua empresa com a palavra que a tecnologia não consegue reproduzir. O ativo, diz ele, é o humano.
Essa tensão entre escala e sentido é o núcleo cultural do que está acontecendo. A IA consegue personalizar 50 mil versões de uma mensagem para 50 mil pessoas ao mesmo tempo. Mas quem decide o que essa mensagem quer dizer, para quem ela importa, qual é a história que vale contar, continua sendo um julgamento humano. Um julgamento formado por repertório, experiência, bom gosto e intenção.
É justamente aí que o público com mais anos de vida tem uma posição que raramente é reconhecida. Quem passou décadas consumindo cinema, publicidade, televisão, teatro e cultura visual tem um repertório para distinguir o que emociona do que apenas impressiona. Sabe quando uma história tem alma. Sabe quando uma marca está fingindo. Sabe quando um filme, independentemente de como foi feito, chega ou não chega.
O projeto “Motoboys do Sertão”, que a O2 prepara para gravar em Imax durante o Rally dos Sertões em 2027, é um exemplo desse equilíbrio. A história é real: dois entregadores de Curitiba que correram o Rally em 1997 com as próprias motos de trabalho, sem equipe, sem recursos. Um deles cedeu sua gasolina para o líder da corrida. A tecnologia entra para viabilizar a produção. Mas o que justifica a produção é a história. E a história existe porque alguém a reconheceu como digna de ser contada.
Krysse Mello, da Barry Company, diz que a IA está criando uma nova camada de produção audiovisual capaz de aumentar a qualidade narrativa e visual das obras. Marcia Branco, da Miss Sunshine Films, resume a questão com clareza: ideia, direção, linguagem, processos e capacidade de execução continuam sendo os diferenciais. A IA é infraestrutura. O que corre dentro dela ainda depende de quem sabe para onde ir.
O tsunami chegou. A frase é de Civita. E as produtoras que entenderem que surfar uma onda não é o mesmo que saber para onde nadar vão descobrir que o debate sobre ameaça ou oportunidade era a pergunta errada. A pergunta certa é mais antiga e continua sem resposta automática: o que vale a pena fazer?
O cliente pediu um filme.
A produtora entregou dois.
Um feito do jeito tradicional.
Outro feito em um dia, por inteligência artificial.
O cliente olhou os dois.
Escolheu o de IA.
O filme foi ao ar.
Isso não é tendência.
Já aconteceu.
E a pergunta que o setor audiovisual brasileiro não consegue mais evitar não é se a IA vai chegar.
É o que fazer agora que ela já está aqui.
A resposta, por enquanto, depende de algo que a máquina ainda não fabrica:
saber o que vale a pena contar.
Fonte / referência: matéria original



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