Envelhecer na favela: desafios e resistência
Quais são os desafios de envelhecer na favela no Rio de Janeiro?
Envelhecer na favela, no Rio de Janeiro, significa enfrentar obstáculos físicos, institucionais e simbólicos que raramente aparecem nas políticas públicas de envelhecimento. No Complexo do Jacarezinho e no Morro da Providência, idosos convivem com escadarias sem corrimão, falta de serviços de saúde, violência urbana e transporte precário. Ao mesmo tempo, constroem redes de cuidado coletivo que funcionam na ausência do Estado.
Em resumo: envelhecer na favela carioca implica restrições severas de mobilidade, acesso limitado à saúde e exposição à violência, especialmente em territórios como o Jacarezinho e a Providência. Apesar disso, os idosos dessas comunidades desenvolvem estratégias coletivas de apoio mútuo que sustentam sua autonomia e seu senso de pertencimento, segundo pesquisa publicada no Portal do Envelhecimento.
O que a matéria mostra
A matéria publicada no Portal do Envelhecimento, assinada por Fernando Henrique Ferreira de Oliveira, apresenta os resultados de uma pesquisa realizada com moradores idosos do Jacarezinho e da Providência, por meio de entrevistas semiestruturadas e análises qualitativas. O estudo foi conduzido em 2024 e mapeou tanto os obstáculos cotidianos quanto as estratégias desenvolvidas por esses moradores.
No Jacarezinho, onde vivem quase 30 mil pessoas, há apenas três estabelecimentos de saúde para atender toda a população. Em contraste, o texto informa que o IBGE mapeou 84 instituições religiosas no mesmo território. Na Providência, com 4.736 moradores, a matéria aponta ausência de unidades de saúde e escolas, além de ruas estreitas e aclives acentuados que se tornam obstáculos diários para quem tem mobilidade reduzida.
A Travessa Isa, no Jacarezinho, é descrita na pesquisa como exemplo direto desse problema: uma escadaria íngreme, sem corrimãos e com degraus irregulares. No Morro da Providência, a região da Pedra Lisa concentra passagens estreitas, pisos irregulares e escadas sem apoio. Dona Onda, 72 anos, relatou à pesquisa ter caído três vezes em um único ano. Bambu, 72 anos, morador cego, afirmou depender da família para sair de casa e disse sentir-se um peso.
A matéria também trata do impacto das operações policiais na vida dos idosos. Ipê, 68 anos, relatou que durante uma operação 28 pessoas foram mortas e que quem sai de casa não sabe se volta. O confinamento imposto pela violência institucional soma-se às restrições físicas do território, criando o que o texto chama de ‘dupla prisão’.
Na Providência, kombis e mototáxis cobram entre R$ 4 e R$ 5 para percorrer parte do trajeto, mas as áreas mais altas só são acessíveis a pé, pelas escadarias. Algumas delas receberam corrimãos recentemente, mas a solução ainda é descrita como pontual. ‘Melhorou onde tem, mas faltam muitos’, observou Estrela, moradora da comunidade.
Como a comunidade responde à ausência do Estado
A matéria afirma que, na ausência de serviços públicos, são os laços comunitários que garantem a sobrevivência. Ipê encontra na escola de samba um lugar de pertencimento. Jatobá, 70 anos, transformou seu bar em ponto de apoio: ‘Aqui a gente se agarra uns aos outros’. Moradores também desenvolvem rotas alternativas e sistemas de alerta sobre operações policiais.
O texto informa que Bambu se refere ao Jacarezinho como ‘o paraíso do Rio’, descrevendo as memórias que transformam as vielas em territórios existenciais. Jatobá relembra mutirões comunitários em que a casa foi construída coletivamente. Essas narrativas, segundo a pesquisa, expõem o risco de intervenções urbanas que tratam a favela como problema a corrigir, e não como lar a preservar.
Primavera, 65 anos, mulher negra, relatou ter sido rejeitada em uma vaga de emprego por ser ‘muito escura’, e disse que, após os 50 anos, quem é favelada já não vale nada no mercado de trabalho. Umbu, 71 anos, descreveu como enfrentou o olhar de desprezo de um patrão. A matéria aponta que gênero, raça e classe moldam experiências distintas do envelhecimento nesses territórios.
O que as políticas públicas precisam considerar
A matéria conclui que as políticas públicas precisam ir além do diagnóstico das carências e reconhecer os mecanismos comunitários que já sustentam a velhice nessas localidades. O texto afirma que soluções técnicas fracassam quando ignoram que uma rampa não é só acesso físico, mas dignidade, e que um ônibus adaptado não é só mobilidade, mas autonomia.
Mandacaru, 67 anos, sintetizou a perspectiva dos moradores ouvidos na pesquisa: ‘Aqui a gente não desiste’. A frase encerra o argumento central da matéria: envelhecer na favela é, antes de tudo, um ato político de existir.
A velhice que a cidade não vê
Quando se fala em envelhecimento no Brasil, a conversa costuma começar pelo dado demográfico: população que envelhece, sistema de saúde que precisa se adaptar, mercado que descobre o consumidor 50+. O que raramente entra nessa conversa é a pessoa idosa que mora no alto de um morro, depende de mototáxi para descer, e sabe que durante uma operação policial é melhor não sair de casa. Envelhecer na favela é uma experiência que desborda os limites do que a política pública costuma enxergar.
A pesquisa realizada no Jacarezinho e na Providência, publicada no Portal do Envelhecimento, não traz uma denúncia nova. Traz algo mais difícil: rostos, nomes e falas. Dona Onda, que caiu três vezes em um ano nas escadarias da Pedra Lisa. Bambu, que não sai de casa sem ajuda e diz sentir-se um peso. Primavera, rejeitada no mercado de trabalho por ser negra e favelada depois dos 50. Cada relato nomeia uma forma específica de exclusão que os indicadores gerais apagam quando calculam a média.
A tensão que atravessa esse território é antiga e conhecida: a força dos laços comunitários coexiste com a ausência do Estado. Jatobá transforma seu bar em ponto de apoio. Moradores criam sistemas de alerta sobre operações. Bambu chama o Jacarezinho de ‘o paraíso do Rio’ porque é lá que estão suas memórias, seus vizinhos, suas formas de ser. Essa coexistência entre precariedade e pertencimento não é uma contradição a resolver. É a realidade a partir da qual qualquer política deveria ser desenhada.
O problema, como a matéria aponta, é que as intervenções urbanas costumam tratar a favela como problema a corrigir, não como lar a preservar. Uma escadaria sem corrimão vira um dado de infraestrutura. Quando se instala o corrimão em um trecho e faltam outros, o dado melhora, mas a vida de Dona Onda continua em risco. A diferença entre o indicador e a experiência é onde mora a injustiça.
O envelhecimento em territórios de desigualdade socioespacial, como o Jacarezinho e a Providência, expõe uma questão que vai além do cuidado com o idoso: expõe o tipo de cidade que foi construída e para quem. Não há rampa onde nunca houve planejamento. Não há ônibus adaptado onde nunca houve linha regular. A velhice na favela torna visível o que a cidade sempre negou, e essa visibilidade é incômoda porque exige resposta.
Mandacaru diz que ali a gente não desiste. Não é romantismo. É uma constatação sobre o que sustenta a vida quando as instituições não chegam. A questão que fica é se vamos continuar tratando essa resistência como virtude dos moradores ou se vamos finalmente reconhecê-la como evidência de uma dívida pública que ainda não foi paga.
Envelhecer na favela
não é só questão de idade.
É subir ladeira com dor no joelho
porque não tem corrimão.
É esperar atendimento de saúde
em uma comunidade com 30 mil pessoas
e três estabelecimentos.
É ficar em casa durante operação policial
e não saber se quem saiu vai voltar.
Dona Onda, 72 anos, caiu três vezes
neste ano nas escadarias da Pedra Lisa.
Pede corrimão há muito tempo.
Bambu, 72, não sai sem ajuda.
Diz que se sente um peso.
Ele chama o Jacarezinho de paraíso.
Essas duas coisas existem juntas.
Não se cancelam.
A precariedade é real.
O pertencimento também é.
E política pública que não entende isso
começa pelo dado errado.
Mandacaru, 67 anos, resume:
‘Aqui a gente não desiste.’
Não é frase bonita.
É o que sustenta a vida
quando o Estado não aparece.
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