Pai e filho de jipe pela África: a história de Nuno e Lucas em uma viagem de 10 mil km

Aventura offroad em família

Como um pai e um filho transformaram um jipe empoeirado em passaporte para o mundo

Durante a pandemia, enquanto a maioria das pessoas reorganizava as estantes e assistia a séries, Nuno Ferreira e seu filho Lucas foram à garagem tirar o pó de um todo-o-terreno da família. O que começou com passeios curtos perto de casa foi crescendo em distância, em audácia e em experiência acumulada.

Em 2024, os dois já tinham percorrido 10 mil quilômetros pela Europa. E recentemente chegaram de uma longa viagem por África: partiram de Alverca, em Portugal, cruzaram Marrocos, o Sahara Ocidental, a Mauritânia, e chegaram ao Senegal, a poucos quilômetros da fronteira com a Gâmbia. A viagem levou cerca de um mês.

Da garagem a Dakar: como a ideia foi ganhando forma

A dupla deu à expedição africana o nome de Alverca-Dakar. Sabiam desde o início que iriam além da capital senegalesa, mas o nome tinha força e era reconhecível. No fim, Dakar acabou sendo o único destino de que não gostaram. Nuno descreveu a experiência na cidade como péssima, em razão da alta densidade populacional e de um episódio tenso numa portagem da autoestrada.

Sem moeda local e sem poder pagar com cartão, os dois ficaram presos numa cabine de pedágio. O portageiro, sem os conhecer, pagou a passagem do próprio bolso, não apenas aquela, como as seguintes. O valor equivalia, segundo Nuno, a um décimo do salário do homem. No dia seguinte, pai e filho foram devolver o dinheiro em quatro vezes, com considerável acréscimo.

O que é preciso saber antes de partir

A experiência de Nuno e Lucas não é um roteiro formatado, mas contém lições práticas que qualquer viajante de aventura deve considerar.

  • Dinheiro em espécie é indispensável. No Senegal, cartão de crédito e débito raramente funcionam. Praticamente tudo é pago em moeda local e em cash, incluindo abastecimentos de combustível.
  • O combustível varia muito por país. Em países como a Mauritânia e o Senegal, o litro estava entre 1 € e 1,20 € enquanto em Portugal a referência era superior a 2 €. A Líbia, mencionada na conversa, chegaria a um cêntimo por litro.
  • O tempo na estrada é relativo. Um mês pareceu longo ao sair de Portugal. Ao longo do caminho, a dupla encontrou viajantes que estavam há três meses na rota, com planos de continuar. Perspectiva muda tudo.
  • Pontos de parada como o Zebra Bar existem. No norte do Senegal, perto de Saint-Louis, há locais que funcionam como entrepostos para viajantes de todo-o-terreno: reabastecimento de água, combustível, alimentos e espaço para acampar.

Os encontros que ninguém planeja

Parte do que faz uma viagem dessas valer está nas pessoas encontradas pelo caminho. Nuno e Lucas mencionam Jean, um francês de 70 anos que viajava sozinho pela África há meses em um Toyota. Ao fim da conversa, Jean já havia sido convidado para passar dois ou três dias em Alverca.

Há também um casal polonês com dois cães a caminho da África do Sul, e um espanhol de Barcelona. Todos com histórias fora do comum, todos com alguma forma de ter reorganizado a vida para dar espaço ao movimento.

Lucas, percussionista e baterista desde os 13 anos, levou guitarras na bagagem. Em acampamentos, as músicas atraíam outros viajantes sem aviso. Numa noite no Zebra Bar, o grupo improvisado reuniu poloneses, espanhóis e portugueses em torno do fogo.

A próxima parada já está sendo planejada

O jipe ainda está na garagem com poeira e bagagem para arrumar. Mas o próximo destino já está em discussão: a Mauritânia novamente, desta vez para percorrer o interior sobre dunas, em região sem estradas e sem localidades. Milhares de quilômetros apenas sobre areia.

A aventura de Nuno e Lucas não começou com um plano ambicioso. Começou com a decisão simples de tirar um carro do esquecimento e ver até onde ele levava.

O jipe como argumento: quando viajar é uma forma de habitar o mundo

Há uma cena que Nuno Ferreira conta com precisão e que resume bem o que acontece quando se sai da rota conhecida. Preso em uma portagem no Senegal, sem moeda local, sem cartão aceito e com a polícia observando, ele e o filho Lucas estavam prestes a ser levados a uma esquadra. O porteiro da cancela, sem os conhecer de nada, pagou a passagem do próprio bolso. E não cobrou na hora. Combinou um encontro para o dia seguinte.

Essa cena não é sobre aventura no sentido grandiose do termo. É sobre o que acontece quando você coloca o corpo em um lugar onde seus sistemas habituais de proteção não funcionam. Sem aplicativo, sem cartão, sem protocolo. Só a situação e o outro.

Nuno e Lucas começaram a viagem durante a pandemia, o período em que muita gente descobriu que a mobilidade que considerava garantida havia sido suspensa. Tirar o pó de um todo-o-terreno foi uma resposta ao fechamento. Não uma resposta elaborada, apenas a mais disponível. E de passeio curto em passeio curto, de deserto espanhol em deserto marroquino, a coisa foi crescendo até virar expedição de um mês pela África Ocidental.

O que é notável na trajetória deles não é o heroísmo. É a gradação. A ideia de que a competência para viagens intensas se constrói em etapas, cada uma um pouco além da anterior. Isso não é trivial. Boa parte das pessoas que deseja fazer algo fora do ordinário adia indefinidamente porque acredita que precisa estar pronta de uma só vez. A história de pai e filho mostra outra lógica: começa pequeno, erra pequeno, aprende, vai mais longe.

A presença de Lucas, músico de profissão desde os 13 anos, acrescenta uma dimensão que vai além do roteiro. As guitarras levadas na bagagem não eram item de primeiro socorro. Eram uma forma de carregar uma linguagem própria para dentro de um mundo desconhecido. E o que aconteceu nas noites de acampamento, com viajantes de vários países se reunindo em torno da música, mostra que o encontro humano tem uma gramática que prescinde de idioma comum.

Há também Jean, o francês de 70 anos que viaja sozinho pela África há meses em um Toyota. Nuno e Lucas o mencionam com a naturalidade de quem encontrou alguém que simplesmente escolheu uma forma de existir no mundo. Setenta anos, sozinho, sem data de retorno fixada. Não como exceção trágica nem como façanha extraordinária. Como uma possibilidade concreta.

Isso importa. A narrativa dominante sobre viagens de aventura ainda tende a reservar o protagonismo para os jovens, como se a disposição para o desconhecido tivesse prazo de validade. O que a história de Nuno e Lucas sugere, ao lado de Jean e dos casais poloneses e espanhóis com quem cruzaram, é que o mapa do viajante de todo-o-terreno é demograficamente mais amplo do que se imagina.

A próxima expedição já está sendo desenhada: Mauritânia, interior, dunas, sem estradas. O jipe ainda está sujo na garagem. E isso, talvez, seja o detalhe mais honesto de toda a história.


Na pandemia, um pai e um filho tiraram um jipe do esquecimento.

Començaram com passeios curtos.
Depois, dois desertos em Espanha.
Depois, Marrocos.
Depois, 10 mil km pela Europa.
Depois, África.

Um mês na estrada. Mauritânia, Senegal, Sahara Ocidental.

No caminho, conheceram Jean.
Setenta anos. Viajando sozinho pela África há meses.
Sem data de volta.

Cada expedição começou com uma decisão simples:
ver até onde o carro levava.


Fonte / referência: matéria original

vovo

Maria José é o pseudônimo literário que inspira os textos do projeto Os Avós do Brasil. Sua escrita observa o cotidiano com calma e registra aquilo que normalmente não vira estatística: memória, silêncio e presença.

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